Todo peso do mundo na leveza insossa do isopor
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SIM Crônica 23 [Publicado anteriormente em 18/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem do quadro de Van Gogh, Noite estrelada com o Visconde de Sabugosa de Monteiro Lobato – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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CHOVE ESTRELAS DE ISOPOR. Lembro que com 8 anos achei uma grande caixa com estrelinhas de isopor no final do corredor. O vizinho do apartamento ao lado havia deixado lá após sua mudança.
Algo inusitado: leves, porém jogadas ao alto, caíam todas como qualquer coisa cai.
Nada como agulha e linha surrupiadas da caixinha de costura da minha mãe não solucionasse parte do problema para fazer um céu estrelado.
Nessa época não sabia quem era Van Gogh e suas estrelas solares, mas colori algumas com canetinhas hidrocor e então tinha o meu céu estrelado colorido. Talvez não fosse um céu, estava mais pra uma parede estrelada, quase uma cortina.
Elaborava histórias com enchentes de vento que arrastavam as casas de papel, porém não conhecia a tragédia das enchentes de verdade, arrastando não apenas casas, mas vidas.
Mas as minhas enchentes de vento também desabotoavam milhares de camisas, na verdade o meu conceito de milhar era nulo, pois eram as roupas dos meus pais nos cabides que balançavam com essa ventania e nem deviam passar de algumas dezenas.
E mangas soltas caíam do pé, muitas vezes ao pé da cama e só mesmo dando no pé, sumindo da área para não levar um pé de vento na orelha, para quem não conhece as metáforas infantis, os pés de vento são os que carregam os gritos dos adultos.
Não lembro de onde, se enchimento de uma almofada ou um bicho de pano com mini bolinhas de isopor. E dá-lhe bolinha de isopor em tudo quanto é canto, dentro de uma caixa cheia delas, jogava basquete com as miniaturas de carrinhos, bichos e os personagens de faroeste azuis e vermelhos que vinham nos cereais e CHUFT! Além de encaçapar saltavam da caixa as bolinhas e… CHUFT!, CHUFT! ou PLAUMC!, chão. Não dava para acertar todas, né?
Enfim, as bolinhas de isopor que voavam para todos os lados parecem ter confluído para os oceanos através dos rios juntando-se a poluição das microfibras e dos plásticos em geral desde aquele tempo.
Eu acho que o que gera uma incredulidade nas pessoas quanto as mudanças climáticas é que talvez não saibam que esse processo não é apenas de uns anos pra cá que costumamos dizer que o tempo está doido, são pesquisas que começaram há muito tempo…
O clima não enlouqueceu de repente — fomos nós, humanidade, que demoramos a perceber — embora a ciência venha avisando há mais de um século e só agora, que nem tem mais orelhão — tá, tá, tá! tem máquinas de jogos — é que caiu a ficha:
— Alô, século XXI, aqui é o Clima e eu queria dizer que…
A vida do isopor na natureza é duradoura; por 150 anos, assim como o plástico, ele ainda é útil, mas um problema no descarte, pois também, nenhum dos dois deve ser queimado.
Mas as bolinhas de isopor e os pés de vento estufavam as camisas dos espantalhos, por isso os passarinhos se assustavam. Pois um espantalho guardava os gritos dos adultos em seu peito de palha.
Na horta da minha Vó não haviam sustos e nem passarinhos zangados. No mini milharal cresciam viscondes inteligentes e desconfiados, meu primo mais velho que dizia, mostrando o Visconde de Sabugosa [1] na ilustração no livro de Monteiro Lobato.
Por causa da minha Vó materna cheguei à conclusão de que a velhice era apenas uma infância tardia. A Vó paterna era mais sisuda, mas ambas tinham uma paixão, jogar buraco.
Numa viagem que fiz, ainda menino, com a minha mãe e com elas para São Lourenço no sul de Minas, dei de cara com a noção de rotina: dormir, acordar e comer, pegar água nas fontes — cada fonte boa para alguma doença − com copinho de plástico duro transparente colorido, comer, dormir, acordar, jogar buraco, pegar água nas fontes com copinho de plástico duro transparente colorido, comer, jogar buraco e dormir e repete no dia seguinte.
Ainda neva bolinhas de isopor… Na minha última empreitada, trabalhando com madeira, aprendi com um saudoso amigo, o Jesuíno, a quem dedico essa crônica, a pegar peso sem me machucar e o lembrete de não mexer com madeiras pesadas quando molhadas, além das aulas de manuseio da serra elétrica. De brincadeira eu falava que na outra vida iria trabalhar apenas com isopor.
Ele me lembrava de que 100 quilos de isopor pesavam o mesmo que um cubo de madeira do mesmo peso e era muito maior. Demos muitas risadas juntos, nos momentos mais difíceis do Galpão ou no pisar de nuvens dos sonhos a realizar.
Nossas conversas sempre terminavam no vapor do ar desmanchado pelo badalar dos sinos da matriz.
Era o aviso da hora do jantar dele com a família. O Jesuíno era gente simples, boa e brincalhona, um menino grande como eu.
Depois de anos o peso e a leveza se confundem nas lembranças, alguns pesos que insistimos em carregar, soltamos, enquanto a leveza de outrora pesa ao choque da realidade, ou vice-versa? Vou tentar novamente…
Depois de anos, a leveza e o peso se confundem nas lembranças. A leveza que não ligamos em ter, faz-se sobrecarga, enquanto que o peso de outrora voa ao vento da imaginação, ou vice-versa. Não sei, mas sigamos em frente!
Há muito tempo que sei de Van Gogh e sua Noite Estrelada,[2] da canção de Don McLean, e de que o brilho de cada estrela nos chega com uma cor específica, mas não a olho nu, que a princípio elas parecem todas brancas.
O interessante é a inversão das nossas tabelas de cor, as mais frias, as azuis são as mais quentes e as mais frias são as vermelhas. Claro que esse frio também tem outro significado, que fica para outra crônica sobre as cores.
Ia terminar aqui, na visão do peso da solidão dos pinos do resta um que é a vida, somos uma multidão de uns tentando restar na vida do outro, enquanto outros uns tão caros já se foram.
Vou terminar aqui pra essa crônica ficar levinha como isopor — mas insossa, de jeito algum! Ao som da alegre música de Gil, onde boneca de pano é gente, sabugo de milho é gente. [3]
Vai então um trecho de Monteiro Lobato, das Memórias da Emília [4] da boneca de pano, vulga Marquesa de Rabicó, num colóquio com o Visconde de Sabugosa:
A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos − viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. É, portanto, um pisca-pisca…
… A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
− E depois que morre? − perguntou o Visconde. − Depois que morre vira hipótese. É ou não é? O Visconde teve de concordar que era.
Eu também concordo, piscando sem parar! E que a hipótese de cada um, seja a que melhor couber em sua cabeça e no seu coração, na minha hipótese, a vida continua!
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Notas e links:
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[1] – Monteiro Lobato (Taubaté, Brasil, 1882 – São Paulo, Brasil, 1948) escritor e editor
Visconde de Sabugosa é um sabugo de milho falante, personagem do que ficou denominado Sítio do Pica Pau Amarelo da obra infantil de Monteiro Lobato que foi desenvolvida em vários livros, temas e fases↩︎
[2] – Vincent van Gogh (Zundert, Países Baixos, 1853 – Auvers-sur-Oise, França, 1890) pintor
Don McLean (Nova York, EUA, 1945 –) cantor e compositor↩︎
A Noite Estrelada de Vincent van Gogh, 1889, óleo sobre tela. Ou The Starry Night que ganhou uma canção Don McLean e do álbum American Pie de 1971. No vídeo ilustram com uma outra noite estrelada de Van Gogh, a Noite Estrelada Sobre o Ródano pintada anteriormente, em 1889
[3] – Música Sítio do Pica pau Amarelo de 1977 de Gilberto Gil (Salvador, Brasil, 1942 –) músico e compositor↩︎
[4] – Emília é a boneca de pano, também falante ganha seu livro, Memórias da Emília de Monteiro Lobato de 1936 com ilustrações de Belmonte (São Paulo, Brasil, 1896 – São Paulo, Brasil, 1947) ilustrador e cartunista, colaborador em obras de Monteiro Lobato↩︎
Na capa do livro Memórias da Emília, ela aparece de costas com as mãos na cintura
Neste outro link, várias Emílias criadas por diversos ilustradores, inclusive Belmonte


