O Antes de Mais Nada

Somos plantas

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SIM Crônica 28 [Publicado anteriormente em 29/04/20] na página de mesmo nome deste blog

imagem principal: PLW [bricolagens digitais]

imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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COMO SE NÃO BASTASSE, A PRIMAVERA TINHA AVANÇADO para o meio da área externa do Galpão. Parecia uma bruxa doida descabelada com seus espinhos, mas como era bonita a desgraçada, sucumbimos ao seu encanto.

E essa beleza não se apagava mesmo já enroscada pela Insulina, uma trepadeira capciosa com nome tão conhecido pelos diabéticos. Uma muda de Insulina do lado que tem as goiabeiras e, do outro, o do muro, a Primavera.

No centro eu deixei uma quantidade grande de rádicas de eucalipto com que eu fazia bases de mesa. Tanto a Primavera quanto a Insulina, esta última ainda mais rápida, tomaram conta do pátio, entrecruzando pelas rádicas, formando uma carapaça difícil de romper.

Novamente munido de enxada e facão, encarei a Primavera com as pontas dos espinhos prontos para o confronto. Não sabia por onde começar, pois já foram vários embates inócuos, ou melhor, ambas avançaram. Sobre o meu ataque, um amigo me alertou: — A sua investida serviu na verdade como uma poda, deixando-as mais fortes!

Somos Plantas, esse título, embora tenha sido inspirado no fato da imobilidade das plantas, de uma brincadeira de ficarmos quietos como se fossemos plantas. Pra mim ganhou outro significado quando lembrei de um documentário Quando Éramos PEIXES.[1]

Nesse caso, tínhamos que escolher que planta cada um seria. Escolhi ser uma primavera, igual a minha espinhosa Primavera, porém florida de ideias e ideais. Parece comigo, cresce desordenadamente, como minhas parcas sobrancelhas e minha barba.

Lembro da barba cerrada do meu pai, ao crescer, espetava mesmo, a minha nem tanto. Gosto muito de cactos, mas recém descobri que o Celso Canto, um amigo de longa data, tinha esse apelido carinhoso, Cactos, dado pela sua namorada.

Um outro amigo, o Klaus Röthig, parça de elucubrações mentais como essa entre outras, Somos Plantas, escolheu ser uma planta carnívora, aquela que fecha quando devidamente acionada por algum dos pelos internos, o mecanismo que irá aprisionar o inseto ou seria uma mutante como a da A Pequena Loja dos Horrores? [2] E você? Qual seria a sua planta escolhida? Fique à vontade, a oferta é vasta e variada!

Se a luta contra a Primavera, agora da minha espécie, foi vencida, lá está ela a crescer novamente. Mas capinar e arrancar mato continua pra mim um mistério, a minha esposa que vai dizendo, isso é, isso não é, isso é chá, isso é mato, isso é outro chá, de quebra pedra…

Entre outras tantas plantas ainda há raízes espalhadas e entocadas e fios de Insulina descendo verticalmente do topo das árvores como pacientes e silenciosos ninjas a busca do solo.

Resumo: a Insulina que sei distinguir, como a minha querida espinhada Primavera e o que não é chá, muda disso ou daquilo, planta ornamental, etc., É MATO! E cada mato como a maior parte das plantas tem um tipo de raiz. Raiz como nós.

Temos mobilidade por certo, mas é comum dizermos: — Vim pra cá e criei raízes! Ou dizermos: — Essas são as minhas raízes! E cada um tem uma, tão diversa quanto o número de seres humanos. Enraizamos de formas diferentes, procuramos manter ou não nossas raízes. Mesmo os contumazes andarilhos, mais dias, menos dias firmam raízes e ficam.

E no Brasil essa história vem lá de trás, a mata do descobrimento era uma mata virgem para os homens brancos, mas era desvirginada com amor pelos indígenas. Com a diáspora negra forçada, temos as diversas raízes dessa diversidade cultural, que no livro Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda [3] fomentou tal discussão ainda sem conclusão, Ah!, quão longe estamos de enraizarmos a nossa identidade brasileira?

Enquanto esperamos, as matas remanescentes que também tem mato estão sendo desmatadas sem dó. Se eu desmato é porque o mato do meu quintal é mato. E mato, pode parecer um exagero, mas mato dá mesmo mais que mato!

Todos conhecem ruínas que foram cobertas pelas plantas, pelo mato. Uso aqui um conceito popular, se não é comestível, se não é chá, se não é ornamental, num jardim ou numa horta, é mato. E infelizmente desmatar em matas, em encostas e beiras de rios, não é apenas cortar mato que nessas paragens também tem uma função fundamental.

E de fato, a comparação com mato é utilizado para dizermos quando algo tem demais ou é demais. Ah!, corrupção no país é mato! E quem já entrou mato adentro na mata, sabe que o que mata não é o mato alto, que com facão em punho abre-se uma picada. O que mata é se perder dentro da mata sem a mínima experiência em sobrevivência, o que os indígenas sabem.

Quando Éramos PEIXES, de Neil Shubin, paleontólogo que descobriu um elo entre os peixes e os animais terrestres, traz a constatação da evolução em nossos corpos e a relação com esse elo tão longínquo em eras, o Tiktaalik.

Se na época de Darwin não era fácil conceber parentesco com os símios, ao examinarmos as expressões em seus rostos, principalmente os chipanzés, gorilas e orangotangos, não foi difícil engendrar, e nós aceitarmos tão bem uma ficção-científica como o Planeta dos Macacos.[4]

No final do primeiro filme mostrava um dos nossos medos, porém a guerra nuclear foi substituída pela aproximação das forças da natureza das cidades em grandes catástrofes.

E agora um vírus que traz morte consigo também deixou ruas vazias e lugares públicos que são frequentados pelos animais. Está dando pra ver que quanto mais tempo o homem se ausentar, esses espaços seriam tomados pelas plantas e que a retomada econômica geral deve ser realmente sustentável.

Se transferirmos a brincadeira das plantas para os peixes, também podemos escolher entre milhares de espécies, talvez eu escolha ser uma arraia, quem sabe um peixe voador como na música de Sá e Guarabira.[5]

Ou quem sabe um aruanã prateado [6] com seu formato de submarino e bigodes tipo Salvador Dali, aí eu saltaria nas margens dos rios amazônicos para pegar pequenos insetos ou frutos nos galhos mais baixos.

Olhamos o mundo ao redor e nos identificamos com ele mais do que pensamos, as metáforas e analogias que escolhemos muitas vezes para explicar a vida e a nós mesmos, vem da apropriação de todos os reinos, mineral, vegetal e animal, dos elementos e fenômenos naturais. E deles derivam nossos corpos, nossas coisas, nossa tecnologia, porém somos seres humanos, frutos da evolução para uns ou da ação divina para outros. Quem sabe não somos frutos das duas hipóteses?

Se lá fora vemos o espetáculo da natureza se refazendo dos nossos abusos perante ela, sei que nesse momento de confinamento, mais do que nunca surge a figura do outro: o outro que convivemos dia a dia, o que trabalha ao nosso lado, o outro que está na linha de frente visível, o que de tantas maneiras diferentes e quase invisível nos presta serviço, o outro que produz o que necessitamos.

Ou ainda, o outro que nos dá amor ou uma palavra de conforto, o de quem dependemos e o que depende de nós e no meio de tudo isso, surge um outro diverso de nós, sim esse outro dentro de nós que agora nos olha amorosamente nos olhos, através do espelho da alma.

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Notas e links:

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[1]Quando Éramos PEIXES de Neil Shubin (Filadélfia, EUA, 1960 – ), paleontólogo, biólogo evolutivo e divulgador científico↩︎

[2] – A Pequena Loja dos Horrores de Roger Corman (Detroit, EUA, 1926 – Los Angeles, EUA, 2024), diretor, produtor e roteirista de cinema, filme de 1960↩︎

[3] – Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda (São Paulo, Brasil, 1902 – São Paulo, Brasil, 1982), historiador, sociólogo e ensaísta. Inicialmente um ensaio, saiu como livro em 1936, sofrendo em várias edições revisões pelo autor. Nele consta a expressão que foi interpretada à revelia: O brasileiro é um homem cordial tornando-se quase que polêmica.↩︎

Resenha de Raízes do Brasil – Edição Crítica, organizada por Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Meira Monteiro

[4] – Franklin J. Schaffner (Nova York, EUA, 1920 – Santa Monica, EUA, 1989), diretor
Charlton Heston (Evanston, EUA, 1923 – Beverly Hills, EUA, 2008), ator↩︎

Planeta dos Macacos de 1968, com Charlton Heston, cena final

[5]Peixe Voador, música do álbum Quatro de 1979 da dupla Sá & Guarabyra: Luiz Carlos Sá (Salvador, Brasil, 1945 – ) e Guttemberg Guarabyra Filho (Salvador, Brasil, 1947 – ), compositores, cantores e instrumentistas↩︎

[6] – Os aruanãs prateados e negros da América do Sul habitam rios da região amazônica:↩︎

Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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