Que a Terra se torne uma gigantesca Sucupira
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SIM Crônica 9 [Publicado anteriormente em 21/03/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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EM SUCUPIRA, APENAS NA QUESTÃO do cemitério, e vamulá!, ver se vale a pena a dica do meu amigo Rubens Santos, de me perder no meu habitual descontrole.
Ficarei feliz se essa pena não voar da minha mão. Se voasse, que pena!, eu diria. Será que você ficaria com pena de mim? Valeu a pena? Pergunta e responde Fernando Pessoa no início de seu poema:
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
Algo dentro de mim me diz, vai em frente, mas vacilo, se uma pena é leve, não altera em nada que um fardo de penas pese uma tonelada.
A música vem me aliviar esse fardo, na playlist que estava rolando, toca Ypê de Belchior,[1] a melodia inicial se dá num volteio de um saxofone, depois a voz característica do autor compositor: Contemplo o rio, que corre parado e a dançarina de pedra que evolui, completamente sem metas, sentado...
…Vede o pé de ypê, apenasmente flora
Revolucionariamente
Apenso ao pé da serra
Ah!, esse apenasmente que ainda irá infartar algum revisor desavisado, pois, apenas, como advérbio não pode sofrer essa derivação, apenas adjetivo pode, diz a regra.
Apenasmente é mais que uma licença poética diria Odorico Paraguaçu. Quebrar essa regra, é toda a graça da linguagem, que Dias Gomes colocou na boca desse personagem, o prefeito, numa história real de 1906. A da inauguração do cemitério de Guarapari, que na peça O Bem-Amado [2] ganharia o nome de Sucupira.
Não obstantemente o uso a granel de MENTE na peça, só não tem apenasmente, talvez Odorico tenha dito em algum momento na novela. Afinal com Paulo Gracindo que iria fechar o círculo sendo convidado a inaugurar o segundo cemitério da cidade real.
Em Guarapari demorou dez anos para inaugurar o cemitério, pois ninguém morria na cidade, teve que ser inaugurado com um defunto de fora, da cidade ao lado. Dias Gomes incrementando a ideia cria a outra figuraça da peça, Zeca Diabo que na telinha era Lima Duarte, o assassino redimido, contratado por Odorico para conseguir finalmente inaugurar a obra.
Alma penada seria eu se contasse o final. A brigada contra spoiler não brinca em serviço, então vaca amarela pulou da janela, fez cocô na panela, me calo e quem contar nos comentários come… mas sigamos prafrentemente.
De tanta pena que voa no galinheiro quando uma raposa entra, sou contra a pena de morte para o bicho e para os homens, pois o bicho naturalmente mata para comer. Apesar que numa escola agrícola da França, virou até notícia no ano passado. Uma raposinha entrou, mas não comeu nada. Porque galinhas unidas jamais serão vencidas — cocoricava a turba das penadas, que a matou a bicadas. Bichos agindo como bichos para sobreviverem.
Diferente da queda da Bastilha, liberdade, igualdade e fraternidade que infelizmente, espelhada opressão, deu no horror do som frio da guilhotina. Esta cessaria seus préstimos ao olho por olho, apenas em 1977, com seu último degolado; e o fim da pena de morte seria assinado em 1981. Já o homem, penso por princípio, que não deva ser linchado e sim julgado. Se culpado, que fique preso em pena máxima da máxima, sem pena capital.
Confesso que da galinha amo os ovos, mas já não posso mais o frango frito. Humm!, ontem mesmo comi galinha com arroz na quarentena do lar, minha econômica esposa compra o frango inteiro, tira a pele e corta. Ah! nem isso eu conseguiria fazer. Imaginem que eu quero morar num sítio, comer ovos caipiras, mas torcer pescoço e depenar, sem chances, seria inimaginável apenasmente olhar…
Agora atrás de álcool em gel, quando encontrei, fui extorquido, roubado, achacado, por fim, depenadamente depenado, realmente é horrível, acho que comerei apenas ovos.
Agora tô penando nesse arremate, não posso chamar o Zeca Diabo, eu hein? Afinal Odorico Paraguaçu, poder de mando da cidade de Sucupira, acabou sendo morto por… ufa!, não contei nada, quem viu a vaca amarela pulando a janela, viu demais!
Derrepentemente, outra música: Acertei no milhar!,[3] mas de repente, derrepenquente Etelvina me chamou, está na hora do batente… foi só um sonho minha gente!.
Agora sério, tudo poderia ser um sonho ruim daqueles, até piada de mau gosto essa situação que estamos passando, mas não é, é choque de triste realidade.
Se eu conseguir me desvencilhar desse contaminante tema, a intenção inicial das crônicas continua sendo textos bem-humorados e curtos quando possível, claro…
Espero ter atendido a sugestão do Rubens Santos e ter alcançado pelo menos o mínimo descontrole, mormentemente, derrepenquente daria tudo nesse momento para que a Terra fosse uma grande Sucupira, sem mortes.
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Notas e Links:
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[1]– Ypê, canção de Belchior (Sobral, CE, 1946 – Santa Cruz do Sul, RS, 2017) · cantor, compositor e poeta do disco Objeto Direto de 1980:↩︎
[2] – O Bem-Amado, peça de Dias Gomes (Salvador, BA, 1922 – São Paulo, SP, 1999) · dramaturgo, romancista e roteirista de 1962, encenada em 1970, ganhou nos anos 80 a versão em telenovela e em 2010, filmado por Guel Arraes (Rio de Janeiro, RJ, 1953 –) · diretor de cinema e televisão, roteirista e produtor.↩︎
[3] – Wilson Batista (Rio de Janeiro, RJ, 1913 – Rio de Janeiro, RJ, 1968) · compositor e sambista
Geraldo Pereira (Rio de Janeiro, RJ, 1918 – Rio de Janeiro, RJ, 1955) · compositor e sambista↩︎
Acertei no milhar, composição de Wilson Batista e Geraldo Pereira de 1940, esse samba-de-breque foi gravado por Moreira da Silva, Jorge Veiga, Gilberto Gil e Jards Macalé. Segue vídeo com a música gravada em1958, por Moreira da Silva (Rio de Janeiro, RJ, 1902 – Rio de Janeiro, RJ, 2000) · cantor e compositor


