Quando palavrão não é palavrão
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SIM Crônica 17 [Publicado anteriormente em 06/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem em homenagem ao trabalho do Henfil com a apropriação dos personagens dele, o Fradim e a Graúna (com Zeferino e o Bode Orelana) em duas icônicas cenas, Top top top para o vírus e a Esperança da Graúna! – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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Homenagem ao Henfil!
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O RECATO, O PUDOR, ENFIM, É UM EXERCÍCIO pessoal e social que cai por terra quando depara com algumas eletrizantes duplas. Cotovelo e quina de móvel! Dedo da mão e martelo! Dedinho do pé contra pé de móvel!
E por aí vai, porque choque mesmo nem precisamos falar, principalmente se for de 220 V.
Fora ais e uis posteriores, o palavrão surge quase que incontrolável. Não se engane, um belo DROGA seguido de um chute na parede, torna-se palavrão sim. Para ninguém torcer o nariz pudico diante desta crônica, evitarei ao máximo nomeá-los como eles vieram ao mundo.
Então não estranhe que no momento exato do martelo percutir a unha do dedo da mão que segurava um prego, alguém aqui solte um: — Baralho! Ou ainda como se estivesse com o nariz entupido gritasse: — Buda deu barril!
Se as duplas são imbatíveis em gerar a oportunidade de soltar um palavrão justificado, pois não tem palavra em nenhum idioma seguida de um ponto de exclamação, que caiba na situação. Bati o cotovelo na quina olho para a quina e digo: — Santa quina! Não cabe, né?
Mas creia que tem pessoas que conseguem, honestamente acho difícil achá-las. Tá-tá-tá, um mestre Zen? Um monge recluso num mosteiro numa montanha? Um guru indiano? Pois no final qualquer um que emitir qualquer interjeição e segure-se para não esmurrar, chutar, etc. no fundo, no fundo, já soltou um baita palavrão.
Ah!, os espertinhos podem dizer que nem gritam, apenas gesticulam. Ah!, VÁ! Esse VÁ!, é bem suspeito, acreditem saiu sem querer. Palavrão também é gesto, inclusive aqueles desenhinhos em HQ de caveirinha, bomba bola acesa, raios, etc. também são, ou menos que isso, apenas símbolos que em conjunto formam uma expressão peculiar utilizada como um genuíno palavrão, antes um grawlix, agora um obscenicon: @ # $% &! [1]
Diminutivo também não diminui a ofensa pretendida com um palavrico, tipo: — VAI TOMAR NO SEU inho! Por aí vai. Perguntas capciosas também: — Sabe pra onde você deveria ir? E tem gente que pergunta onde. Das duas, uma, ou são ingênuos ou provocativos.
O curioso é que existem poliglotas de palavrão, as vezes mal sabem falar a língua pátria, mas sabem todos os palavrões do mundo, uma cultura inútil, mas não deixa de ser engraçada.
Um preconceito com palavrão é dizer que as mulheres não falam palavrão ou falam menos que nós homens. Não sei, não, mas as leitoras podem dizer depois o que acham disso. Uns ainda falam que palavrão é atitude, que palavrão é força de expressão.
Fora isso tem também a contradição: — Menino boca suja, vou lavar sua boca com água e sabão! Aí o menino sendo educado observa o pai ou a mãe xingando. Conclusão, mais uma coisa liberada depois dos 18 anos, porém se for concluir mesmo, seria uma ilusão ou não, pensar que os nossos anjinhos, na escola entre os amiguinhos, falam ou não falam palavrão?
Enquanto existem aqueles que sacaneiam os gringos ensinando palavrão ao invés de uma expressão de agradecimento. Se um gringo te agradecer assim: — Obrigado seu bosta! Pode ficar tranquilo que tem alguém por trás da coisa, a não ser que ele ache isso mesmo de você.
Não me xingue ainda, chegarei no meu tema de hoje, até agora foi ao contrário, até o que não parecia ser palavrão, era. E o segredo todo, talvez seja do conhecimento de todos. O preferido de 10 entre 10 torcidas de futebol quando o juiz pisa na redonda e ignora o VAR, o árbitro de vídeo.
Sim o campeão de audiência das ofensas. Aquele que mais dói na alma, que mexe com aqueles que supostamente tem o dito sangue de barata. É aquele mesmo ou esse mesmo!
Aquele que quando você leva uma fechada e solta no interior do seu carro, como um míssil dirigido através do vidro ou os mais ousados colocarão o braço para fora, se não colocarem a cabeça e gritar: — Seu fidipi! Porquê fifip ou efê de pê? Lembra do nosso acordo de não deixar este texto chulo demais?
Esse que mexe com a mãe. E mãe é coisa sagrada! Porém é esse mesmo o escolhido entre tantos outros para celebrar o apreço, a amizade mais sincera! Talvez isso seja comum entre homens, me corrijam, por favor.
Quem diria que, ao encontrar na rua um amigo tão querido que há muito tempo não via, quase um irmão, despertaria uma dupla do bem: admiração e respeito mútuo! Quem diria que você, tão comedido, ou ele, tão respeitoso, chamaria você de: — Vem cá, seu FILHO DA PUTA!, me dá um abraço! E o acordo? Exceção da regra! De tanta exceção que é, também é utilizado na versão: — FILHA DA PUTA!, para homem mesmo. No caso o seu ou a sua que pontua.
Não tem elogio maior que um amigo digno desse nome, desse quilate, desses que se conta em alguns dedos te chame assim. E não apenas num cumprimento de quem exulta de alegria. Exultar, para os desavisados da língua, não é palavrão — parece, mas não é. Exultar de alegria é redundante, e é justamente por isso que a situação é especial.
Outra utilização é quando alguém que você conhece consegue alguma coisa, algo almejado, algo que exigiu esforço e dedicação, ou mesmo foi na sorte, numa admiração inconteste, exultantes pelo outro — as vezes para nós mesmos, porque nem há a necessidade de termos a pessoa ao lado — dizemos: — Ele conseguiu, que FILHO DA PUTA!
Conclusão, parece que o palavrão é uma ferramenta, um instrumento linguístico, um instrumento como qualquer outro, depende do uso, do seu contexto. Pode ser extremamente ofensivo, desrespeitoso e de mau gosto, porém pode ser expressivo, festivo e porque não dizer brincalhão?
Apesar de ter músicas com palavrão, seria um tanto gratuito incluí-las, pois não senti nenhuma afinidade com elas, claro não conheço todas, quem quiser pode indicar uma.
Por isso, ainda não sei se colocarei nenhum link musical, mas podemos cantar uma quadrinha que todos conhecem: — Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos que o Covid-19 VÁ PRA… que ele TOP TOP TOP UH! [2]
ADENDO URGENTE! Antes a crônica terminava VÁ PRA… que ele SUMA! Em bom tempo, a inspiração baixou sei lá de onde e tudo mudou! Como diz a música, vamos sabotar! e colocar em duas versões a TOP TOP! essa música irreverente caiu nas mãos e boca sabem de quem né? Isso… Cássia Eller!
Além disso, descobri a estreita relação com o quadrinho do Fradim do Henfil,[3] mais que isso, derivou dele, do frade baixinho, o Baixim QUE FAZIA O TOP! TOP! E se tornou uma singela homenagem ao Henfil e seus famosos personagens, os Fradins Baixim e Cumprido e a turma do agreste nordestino: Graúna, parceira do Zeferino e do bode Orelana.
Se o BAIXIM dá conta do vírus a sua maneira, bem-vinda seja a Graúna que vê sempre ao largo, a ESPERANÇA! — Puts!, eu tinha toda coleção do Fradim (ALGUM AMIGO(A) FICOU COM ELA? PODE FALAR, NÃO IREI PEDIR DE VOLTA), adorava ler também as cartas da mãe, as respostas que ele dava aos fãs, etc. Inclusive tive a oportunidade ímpar de fazer um curso com ele.
Fica aqui o agradecimento ao meu primo André Pacífico que me avisou da parada, mas depois a aflição que ambos sofremos ao ficarmos roendo unha na fila de espera, e, deu certo. E ao amigo que fiz no curso, João Terreiro entre outros, aí a graça foi boa demais. Com ele… quase fomos humoristas — faltou o quê? Acho que coragem, né? Tem que ter coragem pra ser humorista de dar as caras, bão sobrou o humor na escrita…
Lembro de estarmos em uma turma do curso na enorme e demorada fila dos autógrafos do livro Diário de um Cucaracha alguém estava com o livro Henfil na China na mão e o Henfil falou algo assim: — Vieram ver o Henfil na China? [4] E o Terreiro de bate-pronto: — Ah!, Só viemos ver o Henfil na fila! Todos, inclusive o Henfil que logicamente estava sentado, caímos na gargalhada. Grande talento o Terreiro!
E devo fazer jus ao grande cartunista, Valeu Henfil!, o mote dessa crônica partiu dele. Explico: foi lá no curso, que eu ouvi a primeira vez sobre a utilização do FILHO DA PUTA!, como expressão de carinho e admiração, depois ouvi de outros, senão me engano até do Jô. Enfim Henfil, que saudade de você seu FILHO DA PUTA!
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Notas e links:
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[1] – Em 1980 o cartunista Mort Walker inventou o termo explícito grawlix para descrever expressões como: @ # $% &!, que todos reconhecem como um palavrão ou equivalente dentro do contexto das HQs . Porém o linguista Bem Zimmer cunhou a palavra obscenicon (fusão de obscenidade e ícone), uma representação mais precisa desse fenômeno.↩︎
https://www.dictionary.com/e/what-the
[2]– Os Mutantes (São Paulo, Brasil, 1966 – ), banda de rock psicodélico/tropicalista
Integrantes fundadores e formação clássica:
Sérgio Dias (São Paulo, Brasil, 1950 – ), guitarra, efeitos, experimentação sonora
Rita Lee (São Paulo, Brasil, 1947 – 2023), voz, letras, performance
Arnaldo Baptista (São Paulo, Brasil, 1948 – ), teclados, baixo, voz, composição↩︎
Cássia Eller (Rio de Janeiro, Brasil, 1962 – 2001), cantora e intérprete
Ah!, @ # $% &! Resolvi colocar uma música no finalzinho, porque lembrei da famosa Top top que trouxe com ela a feliz lembrança do querido cartunista Henfil, costurando tudo! A música Top Top dos Mutantes é do disco Jardim Elétrico de 1971. No primeiro link Os Mutantes e no segundo, na voz de Cassia Eller, do Cassia Eller Acústico MTV.
[3] – No primeiro link você encontrará mais informações sobre o cartunista Henfil, Henrique da Souza Filho (Ribeirão das Neves, Minas Gerais, Brasil, 1944 – Rio de Janeiro, Brasil, 1988), cartunista, chargista e escritor, criador do Fradim e da Graúna entre outros célebres personagens. No que tange a essa crônica, segundo a cantora, escritora, pesquisadora e jornalista Chris Fuscaldo, autora do livro Discobiografia Mutante, a música Top Top dos Mutantes foi mesmo inspirada no TOP TOP TOP!, do personagem do Henfil, o Fradim, que você pode conferir no segundo link.↩︎
https://pt.wikipedia.org/wiki/Henfil
http://chrisfuscaldo.com.br/…/discobiografia-mutante/
[4] – De Henfil, Diário de um Cucaracha, livro lançado em 1983, em que conta a sua experiência de 72 a 75 nos EUA. E o livro Henfil na China com subtítulo, Antes da Coca-Cola, de 1980, sendo a Coca-Cola entra de vez com fábrica e tudo em 1981 na China↩︎


