Planeta berinjela
(c)aqui
IM Crônica 29 [Publicado anteriormente em 01/05/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

.
ELA MORAVA NO ÚLTIMO ANDAR, TINHA O CABELO VERDE e disse que era marciana. Gostei exatamente desta parte, seu humor e dei de ombros falando: — Marciana, tá certo! — Você não acredita? Insistiu ela.
Eu nem sei se deveria contar essa história, já falei de marcianos por aqui, e dos verdes e sacaninhas,[1] porém relatar essa história se impõe nesse momento ímpar de nossas vidas. Depois ela deu aquele sorriso irresistível e disse, na verdade eu sou do planeta Berinjela.
Hoje em dia é só entrar em qualquer farmácia ou loja de cosméticos e comprar a cor que quisermos; na contemporânea alquimia capilar encontramos, em meio aos inúmeros tons de marrons, pretos, loiros ditos naturais ou platinados, temos os rosas e pinks, azuis e verdes, laranjas e roxos — inclusive os brancos, tom natural adquirido pela rodagem. O dela, mais próximo do místico turquesa, um verde azulado.
Devido a esses avanços cosméticos eu até pensei que já havia além dos usuais recursos de maquiagem artística dos filmes algo mais comercial e acessível . Afinal cor da pele dela era berinjela, não exatamente como a berinjela, mas tinha esse tom misturado com um tipo de bronzeado, enfim, combinava com seus outros tons, confesso que era meio confuso, pois esse tom dependia muito da luz… quase que emana um brilho… diferente.
Mas isso tudo dito talvez pareça conversa de gente estranha pra gente esquisita. Pra mim, ela não tinha que provar nada. Quando falava do seu planeta e dizia amar o nosso pôr do sol, eu até arriscava uma explicação astronômica — a maior distância do astro-rei — mas isso era um belo de um chute.
Apesar de Marte possuir duas luas, Fobos e Deimos, a nossa Lua também a encantava. Fobos tem seus dias contados — em termos cósmicos, claro — está tão perto do planeta que será por ele sugado e Deimon é um dos menores satélites naturais do sistema solar. Estranhei ela não saber disso, mas me dei conta de que pouco sei sobre a relação entre a Terra e a nossa lua em tempos cósmicos.
No primeiro dia em que dormimos juntos, nem notei que seus pelos pubianos também eram verdes. Percebi apenas quando fui levar uma toalha pra ela sair do banho, pois nossa transa havia sido à meia-luz ao som da.. aham…… nossa música… ah! Nem vou dizer, porque é óbvio demais, mas digo: — Life On Mars?, de David Bowie, outro extraterrestre na concepção dela,[2] entre outros tantos, mas ela afirma que Elvis não era um deles.
Ao deparar com essa curiosidade, fingi que era a coisa mais normal do mundo, afinal a cor dos pelos pubianos também não define ninguém, podem ser tingidos e ela percebeu isso raspou e claro nasceram verdes, que te quero verdes.
Seus olhos eram verdes, de um tom intenso e profundo. Sua cor preferida era o roxo puxado a berinjela, a mesma cor do seu batom e de suas unhas. Devido ao corte e a coloração global, parecia apenas uma garota antenada que gostava de seguir as tendências mais estridentes da moda.
Reparei que ela tinha dois relógios na sala: um roxo e um verde, o roxo era analógico e marcava a hora com uns dois minutos de atraso e o verde digital tinha uma diferença significativa de horas. Imaginei que seria o horário de algum país do Oriente; deduzi isso, pois ela tinha olhos amendoados, levemente puxados.
Como sempre estava atrapalhada com os horários, tenho a impressão de que estes relógios tinham relação com esse fato. Por curiosidade, quando ela chegou e jogou à bolsa na cama, eu perguntei sobre o tal relógio roxo. — Pensei que você soubesse, esse é o horário de Marte, ela respondeu. Quase deu tempo de sorrir antes dela vir me beijar.
Fui pesquisar novamente e vi que o dia em Marte tem 40 minutos, ou melhor, 39 minutos e 35 segundos a mais que o nosso de 24 horas e pasmem, que a NASA utilizava um relógio parecido para controle das sondas que pousaram em Marte.
Inclusive um engenheiro que acompanhava o jipe Curiosity nas suas andanças pelo solo do planeta vermelho, colocou toda a família num jet-lag permanente ao adotar o dia marciano, mas vivendo ainda no nosso planeta.[3]
Ela era vegana. Com orgulho me levou pra ver um projeto seu. Conseguiu permissão pra instalar uma horta orgânica comunitária no amplo terraço do prédio e era um elogio comum dizerem: — Ana Márcia você é do outro mundo! Ela sorria e dizia: — É verdade!
Descobri no meio das rúculas e rabanetes, uma espécie diferenciada de berinjela não comestível, que ela cultivava pra extrair a cor e confeccionar seus esmaltes e batons. Fora a ladainha um pouco incômoda pra que eu não comesse mais carne, nada me desgostava, no mais, eu tinha prazer de observar ela comer seus pratos praticamente bicolores.
No entanto aboli qualquer tipo de fritura após o seu alerta. Poderia colocar em perigo o pequeno aparelho que filtra a água. Não se tratava de um filtro de ionização ou de carvão ativado, nem qualquer outra tecnologia que eu conhecia. Impossível descrever a pureza desta água, só mesmo provando.
Era um pequeno icosaedro, um transparente sólido platônico e kepleriano,[4] com uma membrana quase invisível no meio, de um lado entrava a água do outro, saía pura. Tão simples que era difícil de acreditar. Ela dizia que não necessitava de manutenção, mas poderia ser atacado pelo óleo de fritura se este alcançasse o seu ponto de fumaça.
Nova pesquisa, encontrei informações sobre o tal ponto de fumaça. Quando o óleo está muito aquecido, a glicerina, que faz parte da composição, quebra e forma a acroleína, cujas partículas na fumaça atacam os olhos e a garganta, mas claro, não achei nenhum filtro daquele tipo em nenhum lugar.
Relógio com horário de Marte, filtro de alta tecnologia desconhecida e os primeiros nomes dela invertidos, não deixava de ser irônico e divertido: Márcia Ana. Ana Márcia…
O que falar do pigmento orgânico berinjela? Este não servia apenas como corante de esmalte e batom, mas macerado com gotas de azeite extravirgem é o ingrediente principal das cápsulas que ela ingeria diariamente para manter a sua linda pele num tom suave dessa mesma cor, mas os cabelos não eram tingidos, como constatei quando ela se depilou total, fiquei agora de olho nos cabelos… só se ela tingisse fora de casa e no exato tom dos pubianos.
Atrás dessa escaramuça marciana tão batida, ela escondia a verdade quanto a sua origem gerada por um sentimento misto de preconceito com indignação. Porém, pensava eu, nada justifica renegar seu planeta de origem! — Mas quem ela pensa que engana? Ana Márcia, Márcia Ana, meu amor, o que importa se o seu cabelo é verde e você berinjela? Ver-te que te quero roxa, aqui, acolá ou que seja em outro planeta! Naquele dia eu estava delirante, falando alto sozinho.
Quando ela voltou do trabalho eu disse sem meias palavras: — Hoje descobri muito mais que você imagina, venha cá, deixe-me contar as novidades. Seu chefe ligou, não, não me olhe assim, sei que você disse que não era pra atender, porém senti a urgência do toque, aí atendi.
Ela me olhou com ironia, repetindo baixo: tá, urgência do toque… E eu completei. — Como esqueceu mais uma vez o celular em casa… atendi. Por isso, na outra semana partirei para o seu planeta… Plutão!
Ela não disse nada, mas deu um daqueles sorrisos irresistíveis e me beijou.
Logo me passou pela cabeça: incrível existir algo assim — um provincianismo planetário, mentir de onde veio só porque é lá no fim do… sistema solar?
Vou representar a empresa que fabrica os filtros icosaédricos, o que acha?
Ela desejou sucesso nessa minha nova empreitada e recomendou que eu prendesse a respiração ao entrar no buraco de minhoca,[5] pra não ficar enjoado.
Depois me deu um abraço demorado e um beijo de pré-despedida, pois a despedida mesmo ela falou que seria as noites, mas sussurrou lentamente em meu ouvido essas palavras @# $%¨&*, pra mim soou como se ela sussurrasse os símbolos do teclado, explicou, era ! [6] Sou terráqueo! Ela cada noite iria me ensinar umas palavras plutonianas. E confessou que ela era assim como eu, nasceu em Plutão, mas foi morar em Marte ainda bem pequena e…
E depois? Ah!, depois nem vou contar, você não iria acreditar!
.
Notas e links:
.
[1] – Marcianos sacanas e Verdura de Leminski na voz de Caetano na SIM Crônica 25 – 22/04/20 – COR SIM COR NÃO, ISSO É PIOR QUE PAVÊ! (SOBRE A COR 2) na página Nem Toda Situação é Crônica↩︎
Linkar essa crônica
Colocar o link dessa crônica acima
[2] – Life On Mars?, música do álbum Hunky Dory, de 1971 de David Bowie (David Robert Jones · Brixton, Londres, Inglaterra, 1947 – Nova York, EUA, 2016) · músico, cantor, compositor e ator↩︎
[3] – Uma matéria que explica sobre a necessidade e os problemas dos engenheiros da NASA que precisam trabalhar aqui na Terra com os horários de Marte↩︎
[4] – Icosaedro é um polígono regular formado por 12 vértices, 20 faces triangulares e 30 arestas. Sendo que o icosaedro faz parte dos cinco os sólidos platônicos, que são poliedros convexos em que: todas as faces são formadas por polígonos regulares e congruentes (idênticas em forma e tamanho e com todos os ângulos e lados iguais entre si), o mesmo número de arestas encontra-se em todos os vértices, e portanto, os ângulos poliédricos são congruentes.↩︎
Johann Kepler (Weil der Stadt, Sacro Império Romano-Germânico, 1571 – Regensburg, Sacro Império Romano-Germânico, 1630) · astrônomo e matemático:
Neste trecho do livro Introdução à história da matemática de Howard Eves: Johann Kepler (1571-1630), mestre da astronomia, matemático e numerologista… Intuitivamente ele assumiu que, desses sólidos, o tetraedro abarca o menor volume para sua superfície, ao passo que o icosaedro o maior. Agora, essas relações volume-superfície são qualidades de secura e umidade, respectivamente, e como o fogo e o mais seco dos quatro elementos e a água o mais úmido, o tetraedro deve representar o fogo e o icosaedro a água.
[5] – Buraco de minhoca ou wormhole em inglês, muito conhecido na ficção científica, pois resumindo grosseiramente, seria um atalho ou ponte espaço-temporal entre um lugar e outro no universo ou entre universos↩︎
[6] – Difícil a situação de Plutão! Nono planeta do Sistema Solar descoberto em 1930 por Clyde Tombaugh. Porém em 1992 no Sistema Solar externo foram descobertos outros objetos celestes similares, a partir daí a sua classificação como um planeta começou a ser questionada, especialmente após a descoberta em 2005 de Éris, com 27% a mais de massa que Plutão. Até que em 2006, a União Astronômica Internacional (UAI) criou uma definição formal do termo planeta, a qual fez Plutão ser reclassificado como planeta anão. Isso criou uma polêmica, pois há cientistas afirmando que Plutão, Éris e Ceres, deveriam ser classificados como planetas↩︎


