O Antes de Mais Nada

Para cantar a vida juntos pelas ruas

(c)aqui

SIM Crônica 6 [Publicado anteriormente em 15/03/20] na página de mesmo nome deste blog

imagens destacada e principal: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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NUM GRUPO DE WHATSAPP DO ANTIGO GINÁSIO, os integrantes têm em média 57 para 58 anos, como eu. No meio de memes sobre o coronavírus, começaram as perguntas à médica do grupo.

Ela sempre atenciosa e simpática, respondeu a todos com precisão e bom humor para relaxar as tensões. Segundo o governo eu faço parte do grupo de risco, idade e pressão alta.

Eu ia fazer indagações como essa, da classificação dos grupos de risco e acabei fazendo essa crônica.

Então Cely, fiquei pensando no celular exposto, andando na nossa mão por aí, curtimos algo, ligamos para alguém, mais umas deslizadas com o dedo, esticamos o braço para uma selfie e depois lavamos as mãos ou utilizamos o álcool gel. E o celular, nada de ser limpo. Lembro de antigos links sobre limpeza de celular, afinal, limpá-los deveria ser de praxe, mas parece haver uma grande diferença entre a simples limpeza e a real higienização. Higienizar o celular servirá, principalmente, numa situação específica muito especial.

No período da crise hídrica, de falta d’água mesmo — falo especialmente aqui da cidade de São Paulo, mas podemos transportar o sentimento a qualquer lugar do País. A solidariedade se deu através de um esforço pessoal na mudança de hábitos, que levavam ao desperdício da água potável. Renderam consequentes benefícios no valor da conta e na satisfação do dever cumprido, pois nada como nos sentirmos parte da solução e não do problema.

Com o coronavírus, não deve ser diferente, não acham? O básico é manter a calma, mas estar atento aos cuidados gerais divulgados. Recebi agorinha um e-mail de uma organização, chamando para o compromisso de cada um fazer sua parte, pensar no outro. Ser solidário, neste caso, tem ligação direta não só com a mudança de hábitos de higiene, mas também com o respeito ao próximo.

Pois além da autovigilância de não passar a mão no rosto — principalmente no nariz, nos olhos, antes de lavar bem as mãos e/ou depois de segurar nas barras do metrô, por exemplo. Além disso, o que dizer da quarentena voluntária, caso necessária, que alguns indivíduos infectados ignoram e saem perambulando por aí.

Experimentei a opção de espirrar e tossir na dobradiça interna do cotovelo, mas achei muito estranho; ficarei com os lenços de papel. Mas lembre-se, ao utilizar lenço de papel, o mesmo deve ser jogado imediatamente no lixo seguido da higienização das mãos. Paro por aqui — as infos técnicas devem provir dos habilitados a isso. Diante da enorme avalanche sobre o assunto, tentarei me conter para não contaminar demais o texto.

Nas redes sociais tem de tudo, muita coisa curiosa, desde uma cartilha bem humorada, com desenhos, para explicar às crianças de onde saiu esse vírus, que chegou viajando, etc., até Asterix e Obelix enfrentando o Coronavírus. Além de piadas e memes a mil.

Ironia e espetadas apontam problemas ou assuntos específicos, o COVID-19 liga-se à economia derrubando as bolsas, ao sexo no casamento, a quarentena com direito a cerva e churrasco, enfim inúmeros tópicos para se relacionar aqui, mas um merece destaque, sobre o destino dos moradores de rua nesta pandemia.

Quanto aos vídeos, temos os otimistas, outros teorizando conspiração, e entre tantos recebidos, tentei propagar o da pós-doutora Claudia Feitosa Santana, um dos melhores que vi até agora. E não se fala mais sobre a tal vacina desenvolvida por israelenses; na verdade seria uma adaptação, um desvio das pesquisas originais para chegar ao COVID-19, quase concluída, que circulou em notícias. Depois apareceu a notícia da vacina de Cuba, mas era fake.

Segunda-feira é amanhã, muitos Comitês estaduais e municipais de Crise pelo Brasil — da saúde e da educação, como do de São Paulo — sob orientação do Ministério da Saúde, estipularam que os pais têm mais uma semana para resolverem com quem poderão deixar seus filhos, desde que não sejam com os avós. E os que já conseguiram resolver esse problema, os filhos já não devem ir à escola.

Para muitos essa situação é uma sinuca de bico, mas se resolvida, o grupo de risco principal, os idosos — e os portadores de doenças que podem agravar o quadro provocado pelo vírus — estarão a princípio salvaguardados se devidamente isolados.

Quanto mais efetiva for essa medida, as bolas certas na caçapa, poderemos ter uma curva gradual no número de casos, e não uma ascendente vertical abrupta como tem sido mundo afora. Atenuar pode evitar o colapso do sistema de saúde, que visa obviamente atender todos os casos — algo quase impossível, se não for reduzida a velocidade de propagação do vírus.

As medidas elencadas podem ter um efeito dominó, mas como contestá-las: a saúde da economia perante vidas? Derrubando setores da economia — seja da produção de bens, de serviços, do turismo, das artes, dos esportes — mexe e doí nos bolsos. E muitas vezes não só na sobrevivência de empresas, projetos, etc., mas também afetará de alguma maneira todas as pessoas envolvidas. Eis um desafio decorrente da pandemia.

E quanto a esse termo, muitos duvidam de que seja para tanto, pessoalmente acho que está configurada sim.

Muita coisa séria e urgente para governo e político nenhum querer crescer fazendo pose na crise, e sim efetivamente arregaçar as mangas e trabalhar para estabilizar a situação em geral, divulgando apenas informações verdadeiras. Que seja espelho da população que parece estar se mobilizando para ajuda mútua entre amigos, famílias, vizinhos, congregações, etc., agregando o que podemos chamar de fator humano da situação.

A medida do fechamento das escolas, tem também o foco na diminuição de passageiros no transporte público para os que trabalham, como os do setor da saúde, que estarão na linha de frente. Olhando por outro lado, é a que mais mexe e dói nos corações, pois separa os netinhos dos avós e dos outros idosos que costumavam cuidar dessas crianças quando elas ficavam em casa. Infelizmente é um mal temporariamente necessário.

Aí entra a tecnologia, que me permito fazer uma espécie de paralelo engraçadinho — pois essa se espalhou mais rápido no Brasil que qualquer vírus, o celular. Esse modo de ser quase parte do corpo, que nos une a cada segundo, que nos conecta a todos, deve ser o paliativo para amainar essa situação. E logicamente serve para qualquer tipo de distanciamento necessário que possa ocorrer.

Por isso comecei o texto com o cuidado que devemos ter com o nosso celular. Seja para uso próprio, mas principalmente se for necessário emprestar o nosso aparelho aos idosos. Caso não possuam o seu para entrar em contato com os pequenos — mesmo que o empréstimo seja só para dar uma olhadinha rápida — neste caso deverá ter uma rigorosa higienização do mesmo.

Pois não há porque não manter a comunicação, seja por fotos, vídeos gravados, comunicações por áudio ou vídeo, principalmente se antes havia um contato diário ou uma presente frequência.

Não há final nessa crônica, o que temos é cada dia à nossa frente para ser vivido. O que também nos ajudará a superar essa situação, além da fé, são vídeos como o do tenor italiano [1] em quarentena cantando para as ruas vazias como tantos italianos fizeram.

No caso dele, não sei se houve outros, imagino que sim, mas vi esse da ária Nessun dorma, da varanda italiana para o mundo. Traz o que a arte carrega em seu bojo: nada supera essa esperança criativa da humanidade — e há uma estranha coincidência em que a própria história da ópera, encarnada nessa ária, traga um prenúncio de morte, mas também de esperança e o brado final na certeza de vencer.

Nessun dorma, que até há pouco tinha sua dimensão trágica na ópera Turandot, de Giacomo Puccini, tornou-se vigília coletiva. Ária cantada por tantos tenores — guardo o impacto de uma versão ao vivo de Luciano Pavarotti de 1994, no The Three Tenors in Concert [2] — quando, no segundo Vincerò!, ele entrega tudo. Vemos na expressão do seu olhar tenso do esforço entre exaustão e êxito, técnica e fôlego, entre a emoção da vitória, enquanto seus lábios ainda acompanham o rebombar final da orquestra.

Se há a arte da vida no coração dos homens, é porque a vida do outro se faz presente na nossa. E é a esse outro e com ele que podemos dizer quase em uníssono, pluralizando o sujeito da música:

— Venceremos! E logo, reunidos novamente, sairemos cantando a vida pelas ruas.

Então família aí no WhatsApp vai o vídeo do tio do filho da minha maninha, do vovô do filho da minha filha, do tio-padrinho do filho da minha afilhada, na ordem de idade, do mais velho ao mais novo, Gabriel, Haru e Benjamin respectivamente, avisando dessa crônica, na página Nem toda a situação é crônica, mas essa infelizmente parece ser!
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Notas e links:

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[1] – O tenor italiano Maurizio Marchini (Viareggio, Itália, 1962 – ) canta Nessun dorma numa varanda em Florença em plena pandemia, 14 de março de 2020:↩︎

[2]Nessun dorma é a ária do último ato da última e inacabada ópera Turandot de Giacomo Puccini (Lucca, Itália, 1858 – Bruxelas, Bélgica, 1924), compositor de ópera, que depois do tenor Enrico Caruso (Nápoles, Itália, 1873 – Nápoles, Itália, 1921), tenor, a ária foi imortalizada em nossa época pelo tenor Luciano Pavarotti (Módena, Itália, 1935 – Módena, Itália, 2007), tenor, clique no link para ouvir:↩︎

E o interessante sobre a história da ópera Turandot, na ópera é o fictício nome de uma princesa da China, por ironia, suposto lugar da origem do vírus, derivada da coleção de histórias persas chamada de O Livro de Um Mil e um Dias. (The Three Tenors in Concert 1994)

Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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