O buraco que não é sempre mais embaixo
(c)aqui
SIM Crônica 31 [Publicado anteriormente em 07/05/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem com imagem da série O Túnel do Tempo e Aliem – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

.
FOI O TEMPO DESTA ELUCUBRAÇÃO E AO VOLTAR a olhar o buraco, ele não estava mais lá. Sentei novamente e percebi que na minha camiseta, no braço esquerdo, tinha o mesmo tipo de buraco, não entrei em pânico.
Pois o buraco era insólito demais para uma reação tão primária, mas coloquei meu dedo como um São Tomé e constatei que também transpassava o meu braço. Não senti nada.
É óbvio que não tenho sangue de barata, mas antes que a sensação de pânico chegasse à medula, notei que ao desviar o meu olhar para a parede, lá estava ele, o buraco. Ah, o olhar! Experimentei olhar para a mesa e nada, ainda continuava na parede.
Tudo começou quando acordei e fui tomar meu café na mesa da sala. Notei naquele momento um buraco na trave posterior da estante de livros. Eu nunca havia notado este buraco. Um buraco estranho que transpassava a madeira, pensei logo nos cupins, ou melhor, nas brocas que são afeitas aos buracos maiores como era aquele que eu observava.
Levantei e fui ver o buraco de perto, era diferente, não parecia de bicho, nem real. Tinha uma vibração, parecia uma imagem, peguei uma caneta e a introduzi no buraco. Era real. Voltei a ficar preocupado com a broca, o estrago é muito maior do que o dos cupins. Pensei melhor, dá essa impressão, mas o estrago do cupim também é devastador para a madeira, embora silencioso.
Porém a preocupação era fazer a crônica do dia, deixei o tal buraco na parede e fui para a mesa do computador, mas primeiro iria dar uma fuçada geral na web. Porém o buraco, novamente o buraco, agora na tela do meu computador, grande, vazando o texto de um artigo interessante que abri, vazando o monitor, impossibilitando a leitura plena. Deixei pra depois, mas de soslaio, uma leitura enviesada abaixo do buraco no artigo, em nota de rodapé, algo sobre a Lei de Murphy [1]
Isso, pensei! Lei de Murphy, será que tem o dedo dela nesta situação? Parecia que não, a Lei de Murphy é estatística ou probabilística, se quiserem, os de bem com a vida a tacham de pessimista, os cientistas procuram uma equação para prová-la, os filósofos por seu lado, dizem que ser filósofo na vida, é comprovar cabalmente a existência de tal Lei, a maioria não cai de pé.
Lembrei de quando eu era moleque e peguei um dos potinhos de geleia importada que minha irmã ganhou da sua madrinha, de framboesa. Na mesa da sala, após passar manteiga numa bela fatia de torrada, lasquei geleia por cima numa generosa camada.
Caiu no chão, virada pra baixo, claro. Cumpria a Lei de Murphy, até em seus requisitos humorísticos que hoje andam por aí, dizem que a probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado pra baixo sempre é proporcional ao tamanho da lambança.
Dito e feito, caiu no carpete, por um lado foi bom, pois a minha tentativa desesperada de retirar a vermelhidão raspberry do carpete, havia se alastrado numa soberba mancha e incentivou meus pais a retirarem todo o carpete da casa. Retirado o carpete surgiram os velhos e bons tacos, muito mais fácil de limpar, porém, só depois da saroba de lixar e envernizar.
Por outro lado, minha irmã tinha uma interpretação diversa do ocorrido, caiu virada para o lado da geleia, porque a geleia era presente dela e não meu, completando o raciocínio disse: — Bem feito! Ou seja, aconteceu como um castigo e não por ser um fato físico probabilístico.
Pode-se pensar que seria como arriscar, com 50% de chance de acerto, dizer o sexo do bebê antes do ultrassom? Ledo engano, pra torrada com manteiga e outros breguetes, estima-se 87%. Caso siga os mesmos parâmetros do teste feito por mim, naquela mesma época, no ambiente controlado da cozinha da minha mãe.
Usei um pacote de bolachas cream cracker e um pote de margarina, mas mesmo que não siga os meus resultados em campo, seguramente não será 50%. Deixando a minha infância e essa famosa lei: Se alguma coisa pode dar errado, dará e seus axiomas de lado, pois no caso, não há aqui, ao meu ver, o certo e o errado da situação.
Não era um buraco comum, daqueles de rua, tipo cratera no asfalto, onde os carros experimentam solavancos ou às vezes graves cortes numa das camadas de borracha, muito menos um buraco de bueiro aberto em dia de enchente.
Não era um buraco que criava mirabolantes túneis multidimensionais, nem o do Túnel do Tempo [2] e para a minha tristeza também não era uma espécie de Aleph. Era apenas um buraco, seria um buraco alucinógeno, como o da Alice?
Com certeza não era um buraco escatológico, ainda bem! E também não era os buracos das covas desse infortúnio que vivemos. Não era sobre a Pandemia, mas Arnaldo Antunes, reflete sobre o ciclo da vida, se a semente germina, o buraco ensina tudo a acabar no fundo, a terra sabe receber o defunto [3] e com isso, na minha visão, finda um ciclo, mas que se renova. E com mais certeza não era um buraco negro que poderia sugar o apê e a mim mesmo, era somente um buraco vazado, quase que um buraco tecnológico, seria um buraco intermolecular transmutacional autônomo?
Ou uma brincadeira daquele Nerdinho, a peste do filho do seu Alberto do 4º andar, a quem eu dava aulas de pintura alienígena? É a vida não está fácil, nada de impressionismo como o pai dele queria ou expressionismo abstrato como eu sugeri, ou qualquer outro ismo na pintura. Somente aulas pra cenários de fundo de games de ficção científica e seus diversos aliens retro-pré-históricos, que ele denominou de pintura alienígena.
Será? Procurei primeiro, olhar discretamente para os objetos ao meu redor, pois se fosse uma pegadinha do Nerdinho, eu poderia estar sendo filmado, afinal as aulas eram na minha sala e ele podia ter plantado uma câmera. Bem, acabei dando uma ajeitada no cabelo e depois fiquei discretamente traçando linhas imaginárias nos locais onde vi os buracos, para inferir a localização de tal aparelho.
Nessa atenta inspeção deparei com o buraco no chão, dava direto na sala do apartamento abaixo do meu, lógico. Por ele vi um homem tentando levantar uma mala pesada, não conseguiu. Acabou arrastando a mala e lembrei do filme do Hitchcock,[4] seria este um buraco indiscreto?
Certamente era bobagem da minha cabeça, mas fui verificar se a porta estava trancada, estava. Espiei pelo olho de vidro do olho mágico e vi o Nerdinho rabiscando aliens interessantes por toda a parede do outro lado do hall, eu bem que poderia… dane-se, hoje não era dia de aula.
Voltei ao buraco que me sugava a atenção, a imaginação e a capacidade de pensar lógica e… linearmente? Não, esse não era eu, penso arabescamente! Eu precisava me concentrar, mas estava envolvido numa espécie de entorpecimento mental, geralmente quando sinto isso, vou para frente do espelho me olhar, olho no olho, para encarar frente a frente os fatos.
Bidu! No espelho do armário do banheiro havia um buraco, dava bem no vidro de pílulas. Havia ainda uma ou duas pílulas para dor de cabeça, paciência, não estou com dor de cabeça, estou apenas esburacado. Ri sozinho. Neste momento virei a cabeça e vi no espelho, muito engraçadinho, pensei, esse buraco também tinha senso de humor, agora transpassava minha cabeça de lado a lado, do hemisfério esquerdo para o direito.
Uau! Era justamente a ponte que eu precisava, fiquei com vontade de introduzir um pen drive com milhares de livros, mas pensei no ridículo da ideia. E se não houver uma conexão USB cerebral? Sabe quanto está custando um pen drive de 1 Tera? Pois se fosse arriscar, eu não ia colocar apenas um punhado de gigas, não é? Peguei o celular pra fazer uma ligação, sabe lá pra quem e dizer o que? — Buraco diferente, sabe? Diferente de um buraco normal, ué! Desisti!
Precisava comer pra não dar hipoglicemia, comi duas barras inteiras de chocolate, numa delas estava lá o dito cujo me roubando um grande pedaço, mas mandei ver assim mesmo pro buraco sem fundo do estômago. Fui dormir um pouco e recebi o troco, acordei ao ser engolido por um buraco. Pronto era apenas um sonho! Mas essa hipótese foi imediatamente refutada pelo buraco no vidro da janela fechada por onde um vento frio entrou assoviando.
Adotei a seguinte premissa: da mesma maneira que ele se instalou por aqui, ao verificar que não tem nada que interessa a ele no meu apartamento ou em mim, irá embora assim como chegou, naturalmente. Tive então a ideia de assistir TV pra relaxar e esquecer do assunto.
E eis que ali se encontrava o buraco, mas agora dentro de um outro buraco de trocentos e tantos canais, pelo qual exercitamos a ilusão de ver as vezes do outro lado, a realidade e em outras, imaginando preencher o buraco existencial de nossas vidas. Essa última parte disse em voz alta, encarando o espertinho.
Dito isso, pensei que me livraria dele, porque eu com a minha perspicácia o havia desmascarado, mas não, hoje está fazendo quatro dias que ele me acompanha, assim silenciosamente, sem nada pedir, sem nada a oferecer, quem sabe, eu seja exigente demais em procurar alguma explicação. Quem aqui tem ainda o mesmo projeto de futuro? Se é que ainda existe? Ou talvez seja apenas um buraco e nada mais.
.
Notas e links:
.
[1] – Lei de Murphy, deflagrada por assim dizer por Edward Murphy, em 1949, um capitão engenheiro da Força Aérea Americana era um dos responsáveis pelos testes sobre os efeitos da desaceleração rápida em pilotos de aeronaves. O aparelho construído por Murphy não funcionou a contento e ao ser chamado para consertar o equipamento, descobriu imediatamente que o técnico instalou tudo errado. E claro, soltou a célebre frase que se tornaria o alicerce da Lei: Se alguma coisa pode dar errado, dará.↩︎
[2] – Túnel do Tempo, série televisiva que através de um túnel em espiral, no subterrâneo projet Tick-Tock secreto do governo norte-americano — Projeto Tic Toc ou ainda Tik Tok e não tem relação nenhuma com o aplicativo Tik Tok que bomba por aí, ou tem? Espero que não! – Os episódios mostravam as viagens no Tempo de dois cientistas, Doug Phillips e Tony Newman, papéis estrelados por Robert Colbert e James Darren, respectivamente. No primeiro vídeo veja a abertura em português e, no outro, um pouco da história da série↩︎
[3] – O Buraco do álbum O Silêncio, de 1996, de Arnaldo Antunes (São Paulo, Brasil, 1960 – ), cantor, compositor, poeta e artista visual↩︎
[4] – Janela Indiscreta de 1954 filme de Alfred Hitchcock (Londres, Inglaterra, 1899 – 1980), diretor e produtor de cinema. Veja o trailer↩︎


