O Antes de Mais Nada

nem res publica nem res populi, seria coincideta?

(c)aqui

SIM Crônica 34 [Publicado anteriormente em15/09/23 no blog Enlaces Literários] na página de mesmo nome deste blog

imagem principal: montagem com disco compacto do O Pasquin, O Som do Pasquim com Cosa Nostra de Jorge Ben Jor e o Trio Mocotó sobre foto do autor – PLW [bricolagens digitais]

imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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MÃE, FILHA E NETA. ASSIM SÃO AS BANANEIRAS, as famílias nucleares das bananeiras. Vivendo lado a lado no mesmo espaço na natureza, mas no cultivo dos homens quando a mãe dá seu primeiro cacho…

[dizem ser o único cacho, mas não tenho certeza de que só dá um, talvez seja na escala produtiva, porém vamos deixar tecnicalidades de lado]

… corta a mãe fora da cadeia produtiva, recomendado fazer o corte o mais alto possível [última dica técnica, prometo!], pois os hormônios serão transferidos à filha e assim acontecerá o mesmo com a neta quando a filha der um cacho

pai, filho e neto. Eu poderia ser ou não pai ou avô, mas sempre estarei no meio como filho que é pai, o meu pai que era avô, e meu filho, seu neto, que um dia poderá ser pai e assim sucessivamente, mas não se embanane, ainda…

o trio de bananeiras tem as mesmas raízes. Meu pequeno núcleo familiar também tem raízes, porém diversas. As bananeiras num habitat de mata livre não sofrem cortes [morrem como nós desejaríamos morrer, de morte dita natural] e não arredam pé como eu tive que arredar da minha touceira paulistana

numa bananeira, em determinado momento, há de se cortar o coração. Na horta da minha avó paterna havia ao fundo bananeiras. Meu pai me chamou uma vez pra cortar o coração de uma bananeira, mas eu estava mais interessado no buraco do tatu ou talvez um pouco assustado com o tal coração

hoje eu meço +- 15 cm entre o cacho e o coração da bananeira, corto!, e lembro daquele dia. Aqui não tem tatu, mas muitas bananeiras [já explicarei onde é o meu aquiagora, junto mesmo]. Meus pais aparecem só em sonho, meu filho nas imagens da telinha do celular, às vezes só em áudio [São Paulo], o mesmo com a minha filha que é mãe e me fez avô [Campos do Jordão] e aquicomigo minha mulher, sua mãe e sobrinha [minha também], ou seja, mãe, filha e neta

touceiras que se espalharam nessainsossa nossa república de bananas. Afirmam que não somos mais de bananas.

aí que a metáfora se embanana.

a expressão República de Bananas era obviamente depreciativa, criada por um humorista norte-americano [William Sydney Porter, conhecido como O. Henry] ao supostamente se referir a Honduras no conto O Almirante, de 1904.

tanto Tintim de Hergé em Os Pícaros [1]soa bem, tanto tintim, não é? — quanto Bananas de Woody Allen, exploraram esse imaginário!

se Tintim usa o humor tentando retratar uma realidade, às vezes estereotipada, Woody Allen em Bananas [2] faz o protagonista neurótico escorregar simbolicamente numa casca de banana pra dentro de uma comédia de erros… políticos?

o humor é assim: expõe situações de realidades políticas concretas de modo nonsense e, não raro, a própria realidade se encarrega de nos surpreender trazendo situações muito mais fora da curva. Aí entra aquele velho chavão: a ficção imita a vida — e a vida nos surpreende com ficção real, também nonsense

e pra dar aquele sabor de realidade na coisa, havia na América do Sul ditadores — irônica coincideta [coincidência + mutreta] — com seus desmandos e tudo o mais que se pintava sobre os países embananados pelos desbananados

somos que tipo de república? Uma república federativa de ausentes paus-brasis, de plantations de cana-de-açúcar, de barões de café e um passado escravista mal resolvido e mal contado [recém bem contado e ressignificado ainda com muita resistência], de mares de soja, coronéis de cacau, de florestas ameaçadas por pastos e desmatamentos?

vide Xica da Silva [3] na versão musical de Jorge Ben Jor que toca pelo humor e em nossas dores:

Xica da, Xica da, Xica da
Xica da Silva, a negra
Xica da, Xica da, Xica da
Xica da Silva, a negra

Xica da Silva a negra, a negra
De escrava a amante, mulher
Mulher do fidalgo tratador
João Fernandes

república sim! — mas, porém, todavia, francamente, entretanto, mormente — não + de bananas!, que fossemos com orgulho uma verdadeira república de bananas, mas não com essa pecha importada, uma verdadeira res publica e/ou res Populi, mas com outras pencas, assim como nossa música, a ressignificar e a nos dignificar, assim como as bananas. Continuando com Jorge Ben Jor em O Vendedor de Bananas: [4]

Ba ba ba ba ba ba ba ba banana
Ba ba ba ba ba ba ba ba banana

Olha a banana
Olha o bananeiro
Olha a banana
Olha o bananeiro

Eu trago bananas pra vender
Bananas de todas qualidades
Quem vai querer…

[e ele desfila as variedades de bananas!]

…O mundo é bom comigo até demais

Pois vendendo bananas

Eu pretendo ter o meu cartaz

Pois ninguém diz pra mim

Que eu sou um pária no mundo

Ninguém diz pra mim

Vai trabalhar vagabundo

e acaba fazendo em algumas gravações uma verdadeira salada de frutas dizendo que banana é cosa nostra, inserções mais bem humoradas que a própria música Cosa Nostra [5] [que até parece ter lavagem de roupa suja, que de fato, deve ser provocações entre amigos…

vide bolachinha na ilustração, compacto de, ainda Jorge Ben e Trio Mocotó] do Pasquim.[6] jornal dos humoristas e intelectuais boêmios de Ipanema do Rio de Janeiro, pura coincideta ser a redação/bares em Ipanema, Rio:

É cosa nostra, ah, ah

O carnaval é cosa nostra, ah, ah
A Zona Norte é cosa nostra, ah, ah
A Zona Sul é cosa nostra
A república livre de Ipanema
Ê, êi! É cosa nostra, ah, ah, ah

Parabéns também é cosa nostra, ah, ah
Esse céu azul lindo de morrer é cosa nostra, ah
Esse sol de 40 graus, ê, êi! É cosa nostra, ah, ah, ah
É cosa nostra, ah, ah, ah, é cosa nostra, ah, ah

ouço aquiagora no quintal das bananeiras [a antiga moradora estudava agronomia, por coincideta adivinhem, bananas!], situado na república livre de Ipanema [do sul, local e nome ideal para um mineiro em Porto Alegre] que um dia foi menino flamenguista no Rio que aprendeu a cantar Fio Maravilha [7] e no ano de lançamento da música, em 72, coincideta do destino [pena Jorge Ben Jor ter sido processado por fazer uma homenagem narrando o golaço que viu da arquibancada]:

E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão em gol
Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial em gol

Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque, driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade em gol

mãe, filha e neta. Pai, filho e neto. Mãe filho e neta, pai, filha e neto e suas interpolações… ad infinitum enquanto dure, touceiras, famílias entre corações cortados entre corações que distantes e/ou conjurados, pulsam juntos nessa nossa república afetiva que talvez um dia será res publica e a coisa pública será res populi, coisa do povo! [uia, muitas vezes se pensa que povo é denominação de quem está a margem, comum essa confusão ou uma triste coincideta], uma res populi de entrar com bola e tudo, mesmo que se mantenha a humildade

inclusive tenha bananas a gosto e para todas as mães, filhas, netas, pais, filhos e netos ao som de nossos Jorges Benjores que são muitas e muitos na diversidade das bananas e bananeiras [e que Jorge Benjor não me processe e nem o Pasquim]
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Notas e Links:
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[1] – Hergé (Bruxelas, Bélgica, 1907 – Bruxelas, Bélgica, 1983) desenhista e roteirista na série de HQ As Aventuras de Tintim, especialmente em Tintim e os Pícaros (1976), aborda de forma crítica e irônica os ciclos de golpes de Estado, ditaduras caricatas e ingerências externas típicas das chamadas repúblicas de bananas.↩︎

[2] – Woody Allen (Brooklyn, Nova York, EUA, 1935 –) diretor, roteirista e ator em Bananas (1971), utiliza a sátira escrachada para expor a instabilidade política, os golpes sucessivos e o absurdo autoritário das chamadas repúblicas de bananas, transformando a revolução latino-americana em farsa midiática e burocrática, onde o poder muda de mãos mas preserva seus vícios.↩︎

[3]Xica da Silva do disco África Brasil de 1976 de Jorge Ben Jor (Rio de Janeiro, RJ, 1942 –) cantor, compositor e músico↩︎

[4]O Vendedor de Bananas no disco Samba Esquema Novo de 1963 de Jorge Ben Jor↩︎

[5] – Cosa Nostra no disco Força Bruta de 1970 de Jorge Ben Jor↩︎

[6] – O Pasquim (Rio de Janeiro, RJ, 1969 – 1991) · jornal satírico criado em plena ditadura militar, tornou-se um dos principais espaços de resistência cultural no Brasil ao usar humor, ironia e linguagem coloquial para driblar a censura, reunindo cartunistas, escritores e jornalistas que transformaram o riso em crítica política e comportamento em campo de batalha simbólico↩︎

[7] – Fio Maravilha do disco Ben de 1972 de Jorge Ben Jor↩︎

Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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