O Antes de Mais Nada

Narciso mequetrefe

(c)aqui

SIM Crônica 21 [Publicado anteriormente em 14/04/20] na página de mesmo nome deste blog

imagem principal: montagem sobre o quadro Narciso, de Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio, obra de 1594-1596 – PLW [bricolagens digitais]

imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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EU NÃO SOU VAIDOSO. VEJA MINHA BARBA, deixo crescer e aparo quando eventualmente dou de cara comigo no espelho ou dá na veneta. E se não der, de tempos em tempos a retiro devido à insistência da minha esposa.

Anuncio em casa: Um dia terei a barba de um sábio chinês — dificilmente alguma sabedoria — longa, falha e rebelde, como os fios das minhas ralas sobrancelhas que lutam para distanciar-se do meu rosto. Então ela me diz: — Neste dia estarei bem longe, só volto com você de cara limpa!

Ah!, quem disse que não sou vaidoso também? Porém não sou cara de pau de achar que tem algum jeito de me deixar melhor do que eu mesmo. Na verdade, ninguém é isento de ter alguma vaidade. Eu não tenho a da aparência e isso não quer dizer que eu não me arrume, mas prefiro o básico do básico. A aparência faz parte. Parte de um todo que somos nós, mosaicos frente ao espelho multidimensional de nossas personalidades iceberguianas.

Como sou apenas um ching ling, um chinês mineiro falsificado ou ainda mais, um alemão chinês mineiro falsificado, cultuo as minhas entradas estilo Mao, fingindo desconhecer a careca que não vejo no espelho. Adoro o Rio de Janeiro como um mineiro sem praia. Pão de queijo com doce de leite e frango com quiabo de onde nasci. E por fim assinar Lai (mãe) Werneck (pai), dá um ar de legitimidade a essas aparências que são realidades parciais, embora verdadeiras.

Quando enviei as fotos pela internet para a minha esposa, não utilizei o Photoshop, mas se eu não via a carecratera no alto da cabeça, qual seria a necessidade dela em ver também?

Tenho fotos de criança com cabelo tigela e logo tive cabelos compridos, disso eu tinha uma baita vaidade, cabelo ao vento caindo pela gola olímpica branca da blusa cacharrel nos bailinhos com luz negra. Usei também calças boca de sino listradas de cru e roxo, nesse caso, com um enxerto para alargar o sino em sulferino, fora o sapato com sola plataforma listrada em 4 cores, do tipo que aparecia no filme Yellow Submarine [1] que assisti ainda moleque.

A minha melhor compra como adolescente foi num brechó. Um sobretudo preto desbotado igual do meu colega Zé. Depois descobrimos que eram iguais aos que muitos porteiros de prédio na época e gostamos ainda mais deles. Um dia percebi que era quase igual ao que o Severino do prédio onde eu morava usava, aí exultei! Eu sempre o comprimentava com um aceno e vice-versa e ainda recebia um sorriso peculiarmente cativante. Somado ao sobretudo guardo uma imagem terna dele. Voltando ao Zé, um dia nos perdermos num nevoeiro de HQ, daqueles que de tão espesso se corta a faca e tira o bloco com as mãos para ver o outro lado. Quando fizemos isso, descobrimos que estávamos no meio da rua, mas ainda assim, achamos a casa dos meus padrinhos. Eles torceram o nariz para os capotes e barbas mal feitas, mas fizemos furor na festinha da minha prima.

Na época em que trabalhei com designer gráfico, andava de bota de motociclista e uma cliente, sempre que eu ia lá me perguntava: − Hoje você veio de moto, não é? Tenho pavor de cair de uma moto, eu dizia a ela, e ela achava um absurdo eu usar botas de motociclista, sem ao menos saber andar de moto. Eu acho um absurdo ser rotulado, ter que pertencer a uma tribo por gostar de usar algum item de vestuário ou qualquer adereço. Enfim, ajoelhar e ter que rezar todo o credo. Não sou contra a moda, faz parte, nos vestimos não é?, além de ter muita gente fazendo moda MODA!, e não vivendo de modismo.

Comprei um sapato laranja de zíper que não tirava dos pés de tão confortável, mas ele descolou a sola em uma festa. Nada que um cadarço emprestado da dona da casa e um laço não resolvessem na hora, nesse dia eu parecia aquelas aves pernaltas que ficava num pé só, colocando esse pé para trás como uma garça desequilibrada tentando esconder das pessoas o sapato encardaçado, vaidade né?

Minha mãe me obrigava a usar meia calça na cabeça para baixar o meu cabelo após o banho, caso contrário eles ficavam em pé. Depois acalmaram, ou quase. Perdi a chance de ser punk, mas não apenas por isso, eu detestava gel, acho que era trauma do Gumex.[2]

Se fui quando criança, mini-hippie, como adolescente fui pós-hippie, ou seja, demoraram pra me avisar que o sonho havia acabado. E quem acorda se o sonho sonhado ainda parece bom demais? Let it Be! [3]

Usava calças rasgadas pelo tempo, apesar de que não caia no conto de marketing da velha calça azul e desbotada, pois quando fui comprar uma de outra marca o slogan era, SEJA VOCÊ MESMO, use tal MARCA… e eu junto a um bando de cabeludos procurava meu número no saldão da loja de fábrica dessa calça jeans. Achei uma com duas águias nos bolsos de atrás, usei até ela ser apenas os cerzidos que pedia para a minha mãe fazer para não a perder de vez.

Com certeza EU ERA EU MESMO, acho! Mas não por causa da calça, porque também era apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso,[4] criado em São Paulo vindo de Três Corações.

Nesta época amarrava essa calça com cinta peruana colorida e pulseiras trançadas que eu mesmo fazia, viajava de carona acampando por aí e ouvia Tarancón. El cantar tiene sentido, entendimiento y razón...[5] iria desembocar no Trem da Morte para ir a Cuzco e Machu Pichu.

Meus cabelos ao vento, cheguei mesmo a pensar numa moto, ah!, se minha cliente soubesse que eu não passei nem no teste da Caloi 10, sempre emperrava alguma marcha e era difícil não tremelicar quando passava num buraco, porém saudosas pedaladas a noite do Paraíso a USP e de dia no Ibira. Hoje dificilmente eu encararia as ciclovias de rua, improvisadas de São Paulo ou andaria na rua de bike.

Sou um narciso mequetrefe que ao me olhar no espelho, sempre me digo, o que que tá olhando? Vai cuidar da sua vida! E saio por aí as vezes de meia trocada, camiseta do avesso — uma vez comprei um agasalho que tinha dois lados do avesso, ainda tenho o danado, é a minha cara — camiseta de trabalho que não troco se for pra sair pra comprar algo para o trabalho, isso se conseguir passar sem ser percebido pela esposa, pois geralmente estão sujas de tinta ou de verniz.

Nem sempre esse desleixo funciona, — que as más línguas podem dizer que é simulado — se eu estiver andando com uma das mãos na cintura, tenha certeza, estou segurando a calça porque esqueci o cinto. Não faço de propósito, deve ser uma dislexia da aparência.

Sou um narciso que as vezes se admira e fenece, sou um narciso cansado da aparência desnuda das palavras da beleza impostada à revelia social da moda, embora ache que cada um deva ter a aparência que lhe aprouver. E se gosto da roupa que a pessoa está usando, elogio! Inclusive acessórios, outra coisa difícil de eu usar, juro que fora as pulseiras de minha lavra, tentei usar uns badulaques… e olha que qualquer dia crio coragem pra usar um pequeno brinco na orelha.

Quando não sou apenas um reflexo fugidio, sou apenas o espelho de mim mesmo. No mais mergulho de cabeça na vida das artes e quando acerto algo nesse sentido, ah!, me envaideço! Olho para obra espelho, que logo trinca o cordão umbilical e ganha independência.

Processo necessário para se seguir em frente na busca da arte e não se consumir ardendo na fogueira das vaidades. Processo vertiginoso o da linguagem, na tentativa de juntar Guimarães Rosa,[6] Viver é muito perigoso!

Numa soma de duas visões ímpares com a poesia de Gullar,[7] Traduzir-se uma parte na outra parte que é uma questão de vida ou morte. Será arte? Processo imprescindível da arte que traduz a nós e a vida, porque o perigo da vida consiste mesmo em não vivê-la e/ou vivê-la sem arte!

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Notas e links:
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[1]Yellow Submarine, canção dos Beatles do álbum Revolver de 1966. Essa música deu origem ao filme de 1968 com o mesmo nome e um álbum com a trilha sonora↩︎

[2] – Gumex, marca de um tipo de gel para cabelo dos anos 50 até os anos 70/80.↩︎

[3]Le it Be, música dos Beatles do álbum de mesmo nome, 1970, o último álbum de estúdio gravado pelo conjunto, conjunto, é mole? Segue o link abaixo:↩︎

[4] – Início da canção de Belchior (Sobral, Ceará, Brasil, 1946 – Porto Alegre, RS, Brasil, 2017), cantor, compositor e poeta., Apenas um Rapaz Latino Americano, do álbum Alucinação de 1976:↩︎

[5] – Do grupo brasileiro Tarancón, composto também com integrantes de diversos países latino-americanos, álbum Lo Unico Que Tengo de 1978, El cantar tiene sentido:↩︎

[6] – Frase dita pelo narrador-personagem Riobaldo do livro de Guimarães Rosas, Grande Sertão: Veredas, de 1956.↩︎

[7] – Ferreira Gullar (São Luís, Maranhão, Brasil, 1930 – Rio de Janeiro, Brasil, 2016), poeta, crítico de arte e ensaísta
Fagner (Orós, Ceará, Brasil, 1949 – ), cantor e compositor
Adriana Calcanhoto (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, 1965 – ), cantora, compositora e poeta↩︎

Parte de um poema de Ferreira Gullar, Traduzir-se do livro Na Vertigem do Dia de 1980. O primeiro link do poema musicado na voz de Fagner do álbum Fagner de 1981 e o segundo link com Adriana Calcanhoto ao vivo só com violão:

Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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