Não gorjeiam como cá
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SIM Crônica 4 [Publicado anteriormente em 11/03/20] na página de mesmo nome deste blog
magens destacada e principal: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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SINTONIZEI O RÁDIO DO MEU SOM EM QUALQUER ESTAÇÃO, saí correndo, fui ao banheiro e deixei a porta aberta para ouvir. Depois percebi que mal pegava, mas que música desconcertante era aquela?
Pensei, a música tem esse poder de nos pegar no contrapé. Qual era a rádio? E quem tocava?
Nessa época, no início dos anos 80, eu estava impregnado por todo tipo de música, mas nunca tinha ouvido essa música instrumental.
E eu lá no banheiro tentando apressar as coisas. Entrou outra música e ela também resistiu ao chiado como se estivesse subindo pelos 21 andares do edifício, abstraída da ventania e ecoasse límpida por todos os cômodos do meu apê.
Poderia dignificar o momento eliminando o fato de eu estar no fundo do apê, o banheiro. Mas afinal, as necessidades do homem vão desde o saneamento básico aos grandes concertos de música.
No corredor, o locutor falou o nome do compositor, encerrando o programa. Ainda fechando as calças entendi algo como Castor da Zola ou Pastor Miamola, que seja, na loja de discos o cara deve saber.
Na verdade, desde que o ouvido sintonizou, o cérebro decodificou e o coração estremeceu, eu ouvia com um pé lá fora, como se a perna fosse esticando, esticando, esticando…
Esgueirando-se pela ladeira da Maria Figueiredo, virando a esquina na alameda Santos e o último quarteirão da rua Manoel de Nóbrega, por fim ganhando a Paulista.
Perna pra que te quero? Para travar a porta da loja de discos que estava fechando! Feito, com o pé na porta, balbuciei o que dava.
— Cavasvastor… Zobasxagabastor… Miasmola... — Calma meu jovem, disse o senhor que estava fechando a loja, entre que eu vou acender a luz, sente-se, descanse um pouco e aí você me fala o porquê de você estar aqui assim.
Por que estou aqui? Ele havia acendido apenas a luz da frente e eu vi no escaninho de discos no fundo, o terceiro à esquerda, estavam ali reluzindo e a minha única reação foi abrir a boca.
— Ah!, disse ele sorrindo, — Agora entendi, Astor Piazolla! [1] Se tem alguma coisa que une a humanidade, pensei naquele momento, era a música. Dois LPs, Adiós Nonino e o Libertango. Este último, eu somente ouviria depois de furar o disco, afinal o primeiro era justamente o do programa da rádio.
As pernas flutuaram ligeiras no caminho de volta, enquanto o disco célere já havia pousado na vitrola.
Era só baixar a agulha e aumentar o volume para que o som saísse pela janela se espalhando nas redondezas naquele contagiante compasso argentino. Ali estava o tango que a minha vó materna adorava, mas revitalizado por esse músico instrumentista e compositor extraordinário que naturalmente teve que enfrentar os puristas.
No meu quarto, a melodia do lado de cá, o LP bandoneando em 33 rotações: Adiós Nonino.[2] E na caixa de água do prédio em frente, do lado de lá, a plateia de pombos arrulhava desafinada e os sabiás visitantes gorjeavam, mas ficou evidente que seus sempre lindos e extasiantes gorjeios, não gorjeavam como este de cá, pelo menos neste dia, não.
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Notas e links:
[1]– Astor Piazzolla (Mar del Plata, Argentina, 1921 – Buenos Aires, Argentina, 1992), compositor e músico, tocava um instrumento chamado bandoneón, típico da região do Prata, Argentina, Uruguai, sendo instrumento central do Tango.↩︎
[2]– Esta música de 1959 foi composta em homenagem ao seu pai, Vicente Nonino Piazzolla, quando este estava no leito de morte. E foi considerada pelo próprio compositor a sua mais bela melodia.↩︎


