Moby Dick no lava-rápido de baleias
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SIM Crônica 14 [Publicado anteriormente em 31/03/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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LAVAR ROUPA TODO DIA, QUE AGONIA, NA QUEBRADA DA SOLEIRA, que chovia. Até sonhar de madrugada... A minha mancada foi achar que seria moleza substituir a máquina de lavar pelo tanque.
Foi uma grande mancada não ter conseguido lavar as roupas em São Paulo, agora já era, em Itu com a máquina quebrada… lavar roupa todo dia… no tanque… Até sonhar de madrugada…[1] essa música do Melodia não saía da cabeça…
Na terceira lavagem de roupas, a maioria minha, fui AJUDAR a lavar na mão. Descendo as escadas no fundo do galpão, de cada lado temos um banheiro, sendo que o de banho, além do chuveiro, tem no box fechado por uma cortina azul, um tanque pequeno. Era lá que estavam as roupas de molho.
Habituado a criar processos para produzir os produtos de madeira, fiquei pensando em algo para dar conta do recado. Duas toalhas, uma branca grandona que eu uso e uma outra utilizada para secar a Pink, nossa pequena shih tzu espevitada, em seus banhos. Uma calça azul de um tecido meio diferente, uma bermuda verde de tecido grosso e cheia de bolsos. E por fim quatro camisetas, três pretas e uma bem antiga azul, grande e comprida, cheia de manchas de verniz, que uso para trabalhar.
Oito peças. Barbada eu pensei. Estava munido de um balde laranja e uma bacia amarela grande. Marinheiro de primeira viagem, pensei em deixar as roupas de molho na água com um pouco de sabão em pó de um dia para outro, humm, já tava ficando mareado. A minha ideia era impregnar de sabão em pó, deixar de molho, dar uma esfregadela e enxaguar, mas fui informado que assim o sabão em pó não daria nem pro cheiro.
No clima dessa viagem, empunhei um sabão em barra. Comecei puxando a toalha branca totalmente molhada, puts!, que peso. Parecia uma baleia que eu tinha que tirar do balde em meio às outras roupas.
Respirei fundo, molhei o convés inclinado do tanque, ergui o bicho que jorrava uma quantidade considerável de água e o joguei pra dentro do tanque. Peguei pela cabeça ou seria pelo rabo? E comecei a passar o sabão. Meio que eu dobrei uma parte na outra, passava sabão e ia puxando e dobrando. Lembrei de outra música, Ensaboa mulata, ensaboa [2] e estava aberto a temporada
do lava-rápido de baleias!
Depois do cachalote ensaboado em camadas, peguei a outra toalha. Essa parecia uma pequena orca perto da Moby Dick,[3] apliquei o mesmo processo. Quando terminei tinha as oito baleias empilhadas e ensaboadas. A Capitã passou por lá para ver como iam as coisas. Creio ter sentido um olhar de apreensão com o meu processo.
Desconsiderei e fui esfregando uma a uma, nas protuberâncias horizontais da parte inclinada do convés, vulgo tanquinho. Ignoro se essa parte tem um nome mais adequado. A descrição dessa parte tão dileta do tanque é apenas para os marujos desavisados. Confesso que não fiz aquele esfrega-esfrega na mão, minha síndrome do carpo não permitiria tamanha ofensa.
A esfregação foi iniciada pelas orcas, mas sabia como Ahab, que logo teria que enfrentar novamente a baleia branca, reservada no balde. Ela não cabia na horizontal da parte descrita do tanque do Pequod.
Ela tentou se rebelar, não me permitia esfregar, puxava para baixo com todo o seu peso para as profundezas do balde, eu lembrei do Queequeg, o selvagem, incorporei o personagem e fui desdobrando cada parte dela sem piedade, esfregando freneticamente, se ela não me dava um segundo de trégua, dei o troco.
Armei um esquema ao deixar o balde no porão do Pequod e encaixar o bote bacia no topo, de forma que a água caía direto no tombadilho do box. Enxaguei Moby Dick, sem encher todo o bote. Cheio, certamente iria a pique. Enchia apenas o suficiente para submergi-la. Ah!, ela se debatia, mas torci sem dó. Pulou na água limpa e enxaguei uma última vez. Quando fui dar a última centrifugada manual ela contorceu o rabo e carambolas atômicas…
… minhas costas! Também estavam torcidas, larguei Moby Dick no bote e fiz o movimento ao contrário, arqueei para trás por uns minutos e depois para frente. Reiniciei o processo, Moby Dick capitulou, torcida pela terceira vez, emagreceu toneladas.
Porém, valentia não garante nada, quando cheguei na última orca preta tive que destorcer as costas novamente. Fui pendurar apenas as últimas duas, pois a Capitã ao me ver arqueado, gentilmente pendurou as outras pra mim, inclusive a Moby Dick.
Ela ainda não teve a oportunidade de dizer o que a minha mãe dizia quando eu me gabava ao terminar algum serviço pra ela: − Está contratado! Entusiasmado catei mais baleias e uns peixes pequenos e deixei de molho no bote para o dia seguinte.
Não creio que irei me acostumar tão cedo, mas senti prazer em AJUDAR lavar baleias, se soubesse que seria uma aventura, teria começado com a frase: — Chamai-me Ismael.
Ah!, lembrei de que falei algo assim num grupo com várias mulheres e fui questionado em coro: — Como assim AJUDOU a sua mulher? Penso que agora esse coro diria algo assim: — Além de que a maior parte das baleias sempre são suas, a palavra certa não é AJUDAR, é DIVIDIR as tarefas domésticas, difícil entender, precisamos desenhar?
Não, o desenho está claro, numa sobreposição de inúmeras imagens. Mulheres que trabalham fora e tem essa jornada duplicada nas sobrepostas tarefas diárias. Mesmo que se tenha a mão uma lavadora de roupas, de louças, micro-ondas, freezer, etc., essas máquinas ainda não operam sozinhas, há que pendurar, recolher, dobrar, isso se não for passar e guardar.
Processos semelhantes se dão no preparo de refeições, louças a lavar, tirar pó, passar vassoura ou aspirador, jogar lixo, etc. e isso tudo sem falar em cuidados com filhos, se houver alguém próximo necessitado de cuidados, etc.
Mesmo a dita dona de casa, corta miudinho como se diz por aí, serviço contínuo, 24 horas e muitas vezes sem o reconhecimento geral dos habitantes da casa, tem que ouvir: — Onde diabos está aquela gravata rosa? — Mãe, meu livro, eu tenho prova amanhã e você arrumou meu quarto! — Mãezinha querida, sei que dá um trabalhão, mas você pode fazer aquele doce que eu gosto?
E por aí vai.
Deus do céu, isso não acaba mais, que chato isso, hein? Não adianta espernear, esse é um processo contínuo igual ao dormir e acordar, tem todo dia. Basta estar vivo e é assim todo o santo dia. As tarefas não realizadas se acumulam. Temo que ainda vou ouvir muito aquele coro feminino falar, mas a palavra certa já fixei na mente, DIVIDIR, a famosa DIVISÃO de tarefas domésticas que ainda peca na educação que nós marujos ainda meninos recebemos.
Sei que não é lavando um pouco mais que meia dúzia de baleias que mudarei da noite para o dia, mas senti prazer nessa pequena fatia da DIVISÃO de tarefas.
Discurso é bom, mas não lava roupa, louça ou faxina a casa, então ainda envergonhado me calo, pois qualquer outro argumento ao meu favor é balela. Provavelmente, quando a coisa amainar e eu puder sair da toca, irei pegar a máquina de lavar, afinal meu Deus, se eu for realmente contratado, não vou durar uma semana nesse serviço inóspito e selvagem que é a lavagem de baleias à mão.
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Notas e links:
[1] – Juventude Transviada do álbum Maravilhas Contemporâneas de 1976, do Luiz Melodia (Rio de Janeiro, Brasil, 1951 – 2017), cantor e compositor↩︎
[2] – Cartola (Rio de Janeiro, Brasil, 1908 – 1980), compositor e cantor de samba
Marisa Monte (Rio de Janeiro, Brasil, 1967 – ), cantora e compositora↩︎
Ensaboa, música de Cartola do álbum Cartola II, gravada em 1976 em dueto com sua filha adotiva Creuza dos Santos, no primeiro link abaixo. No link seguinte a gravação de Marisa Monte do álbum Mais de 1991. Variação sobre Ensaboa, de Cartola, e Lamento da Lavadeira, de Monsueto, Nilo Chagas e João Violão
[3]– Moby Dick, romance de Herman Melville (Nova York, EUA, 1819 – 1891), escritor, tem como narrador, Ismael que embarca com o selvagem Queequeg, um exímio arpoador, no navio baleeiro Pequod do capitão Ahab, cuja obsessão é caçar a baleia branca Moby Dick.↩︎
Moby Dick de 1956 de John Huston (Nevada, Missouri, EUA, 1906 – Middletown, Rhode Island, EUA, 1987) diretor, roteirista e ator
Moby Dick de 2010 de Trey Stokes (Nashville, Tennessee, EUA, 1960 –) diretor


