Gasparzinho seu fujão, vem cá!
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SIM Crônica 11 [Publicado anteriormente em 25/03/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem com foto icônica do Queen, capa do LP Queen II de 1974) e do Gasparzinho – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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A VANTAGEM DE NÃO TER UMA MEMÓRIA MUITO BOA É DESFRUTAR de algumas coisas, várias vezes, como se fosse a primeira vez. Um exemplo? Quando lembrar, juro que eu digo! Óbvio que não é uma frase boa de se falar no primeiro parágrafo.
A outra é esquecer de esquecer, aí eu me lembro bem. Não me lembro de esquecer alguns vexames.
Numa roda animada, param só pra te ouvir e pinta o clássico e surrado branco, ao tentar lembrar o nome daquele filme, o da… daquela diretora que fez aquele outro filme que se chamava… que era com aquela atriz morena, não aquela mais alta, não tão alta eu acho… e com aquele negro que… trabalhou com o… esse diretor!, não é esse, não… com o diretor famoso que morreu? Também não sei se morreu, ah!, não morreu que bom, então você sabe o nome dele? Não? Sim deixa pra lá o filme nem era tão bom assim…
Ou seja, quando uma coisa não puxa outra… de jeito nenhum!
Inesquecível foi, que ao encontrar os pais de uma amiga, eu esqueci qual dos dois tinha Alzheimer e no estágio que não reconhecia mais ninguém. Cumprimentei a mãe dela que ficou feliz ao me ver.
E ao cumprimentar o pai, perguntei, — O Sr. lembra de mim? Ele respondeu que sim. Aí eu fiquei estupefato e disse: — Puxa o Sr., lembra mesmo? Sim, claro que eu lembro! Ele respondeu. Sorri e emendei: — Nossa, então o Sr. lembra mesmo de mim! — Já falei que lembro, caramba! Respondeu um pouco irritado e se foi. Minha esposa me puxou de lado e disse baixinho apontando com o dedo: — Quem tem Alzheimer é a mãe dela e não o pai.
Eu quando vejo alguém se aproximando, sei bem de longe que eu conheço, mas e o nome? O alívio é indescritível quando no caso esse amigo diz, — E então Cara, como você vai? — Ô Meu! Tudo bem e você? Respondo. Mas o tombo é lá do alto quando a conversa continua:
— Puxa Paulo, que bom te encontrar! Aí só tenho uma resposta: — Eu digo o mesmo… Cara!
Freddie Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor. Esses eram os nomes dos integrantes do Queen, vocal principal e pianista, guitarrista, baixista e baterista, todos istas, respectivamente, musicistas, claro. Eu curtia essa banda desde moleque e lembrar o quatro nomes era sinal do nível de memória do momento, 25, 50, 75 ou 100%.
No caso de não lembrar todos, virava uma questão de honra, não importava quanto tempo demorasse. Fiz isso até alguns anos atrás, parei de fazer porque, com certeza, devo ter esquecido de continuar fazendo. O problema era o baterista, sempre travava, ele era o X da questão.
Quem não conhece, aquele sorrisinho de satisfação de quando lembramos algo, dois dias depois, no meio de uma conversa ou no banho? Ah! John Deacon, o baixista, cacete como não lembrei antes! E quem desconhece o desespero de um nome sumir, um que estava bem ali em frente, sob as luzes dos holofotes, se apresentando no palco da memória?
A palavra na dita ponta da língua, já tendo passado e tocado o sino do início da garganta, que se chama, se chama… peraí, se chama, ah! ah!, sacanagem, não vou procurar na web, eu tenho que lembrar! Calma, respira fundo e finge que não tá nem aí, que, aiaiai, de novo tá tocando o tal do sino, da campainha, sei lá, daquela coisa pendurada na goela, que não lembro o nome.
Chegou num ponto que Freddie Mercury, Brian May e John Deacon já vinham fácil, mas o baterista, o… Puts!, esse sim era um mestre em se esconder, um verdadeiro fantasma. Dei até um apelido condizente para o batera, Gasparzinho! [1] Um verdadeiro branco total esse baterista, o… o… É mole?
Mesmo com o artifício mnemônico de manter a cabeça livre leve e solta que… ÚVULA!, lembrei o nome do sininho da garganta, ÚVULA!, mas o nome do batera infeliz não aparece. Ah!, Gasparzinho seu fujão, vem cá!
Dane-se, tô nem aí! Vou desencanar que tem coisas mais importantes, lembrar de não passar a mão no rosto antes de lavar as mãos, que a princípio parece fácil lembrar.
Fico vigilante, mas o perigo não mora aí, na verdade sabe-se lá onde ele, em que lugar exato ficam os automatismos e as palavras fujonas, mas seja onde for, aparece sem avisar e quando nos damos conta, mão no rosto, fiz isso em casa e nem me toquei, ou melhor, me toquei! Minha mulher que me avisou, mas ufa!, tinha lavado as mãos antes.
Mas nada de neuras, é treino, memória também é treino dizem os especialistas, aliado a uma boa noite de sono, fixamos melhor as lembranças do dia.
Enquanto o sono não vem, a imagem do Gasparzinho aparece sobreposta à imagem do baterista, como no clipe da música Bohemian Rhapsody do disco A Night At The Opera. No open your eyes, na configuração visual que ficou famosa,[2] o batera está à direita.
Aí sei que o nome irá aparecer a qualquer hora, como uma ÚVULA!, enlouquecida de uma soprano na primorosa ária da Rainha da Noite [3] de Mozart.
Enquanto aguardo a aparição desse fantasma da ópera rock, não a da Broadway, claro, mas o da banda inglesa, vou assistir algo, acho que o filme daquela ruiva, a da… aquela que… você sabe! Não sabe?
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Essa crônica é dedicada ao amigo leitor, Klaus Röthig,
assinante assíduo da página que me pegou no pulo de uma SIM Crônica.
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Notas e links:
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[1]– Gasparzinho, o fantasminha camarada. Ao procurar um episódio para colocar o link aqui, por coincidência o nome era, Gripe Fantasma, se achar que não é o momento, veja o link abaixo, A Escola de Susto do Gasparzinho, se as crianças não viram, completo e dublado:↩︎
[2]– Queen (Londres, Reino Unido, 1970 –), banda de rock:
Freddie Mercury (Farrokh Bulsara) (Zanzibar/Tanzânia, 1946 – 1991), vocalista, pianista e compositor
Brian May (Hampton, Inglaterra, 1947 –), guitarrista, vocalista e compositor
John Deacon (Leicester, Inglaterra, 1951 –), baixista e compositor.
Roger Taylor (Norfolk, Inglaterra, 1949 –), baterista, vocalista e compositor↩︎
Bohemian Rhapsody, do disco de 1975 do Queen, A Night At The Opera no primeiro link e no segundo, quem quiser se arriscar, Brian May ensina o solo da canção:
[3] – Diana Damrau (Günzburg, Alemanha, 1971 –), soprano lírico-coloratura cantando a ária da Rainha da Noite, da ópera A Flauta Mágica de Wolfgang Amadeus Mozart (Salzburgo, Áustria, 1756 – 1791), compositor e pianista↩︎


