O Antes de Mais Nada

Do telefone amarelo ao de baquelite, mas será o Benedito?

(c)aqui

SIM Crônica 13 [Publicado anteriormente em 29/03/20] na página de mesmo nome deste blog

imagem principal: PLW [bricolagens digitais]

imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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NO MEU TEMPO DE MOLEQUE TINHA UMA PIADA que consistia em descrever sucintamente um ambiente todo amarelo, cheio de coisas amarelas, mais ou menos assim: — Numa sala amarela tinha um tapete amarelo…

uma escrivaninha amarela, lápis e canetas amarelas, uma cadeira amarela… na parede amarela tinha um belo quadro amarelo de flores amarelas, uma televisão amarela com um relógio amarelo em cima. Enfim, tudo o que a sua imaginação em amarelos pudesse conceber. Tinha uma cortina amarela, uma guitarra amarela, um roupão de seda amarelo pendurado num porta chapéus amarelo…

Mas ao perceber que o outro não aguentava mais nada de amarelo, era só pedir um instante e finalizar.

Aí o telefone amarelo tocou e entrou um homem amarelo com terno amarelo, camisa amarela, gravata amarela, usando óculos amarelo e atendeu o telefone amarelo. Aí a pergunta fatal:

— Sabe o que ele disse? E o ouvinte da piada geralmente respondi:

Disse Alô?

Não! Sorriu amarelo e disse:Yeloooooow?

É claro que a música óbvia aqui é Yellow Submarine, mas acho que já usei e não vale repeteco — ou vale? Não né? ah! Goodbye Yellow Brick Road [1] que seria uma das músicas mais tocadas nos bailinhos de sala e/ou garagem, do Elton John, claro!

Nesta época o aparelho telefônico da minha família era cinza, mas na casa da minha falecida avó ainda figurava em mesinha própria, aquele imponente aparelho preto brilhante de baquelite, modelo antigo, de encaixe perfeito do fone na parte superior do aparelho.

Cinza ou preto, ambos eram de disco. Discar — aparte para os novinhos do finzinho das teclas e/ou das telas digitais — consistia em enfiar o dedo indicador no buraco do número escolhido e habilmente conduzir o mesmo até a marcação inicial, no sentido horário e soltar. Igualmente os bebês da época ganhavam seus telefoninhos no mesmo estilo que uns giravam de verdade o disco com direito a algum som que procurava imitar o do telefone de verdade — agora ganham celulares de brinquedo, ainda.

O telefone da minha família ficava numa estante vazada, bem diante da porta de entrada e colado a parede, um minúsculo banquinho. Segundo meu pai, desnecessário ser maior, não vai morar no banquinho, vai? Quando eu questionei sobre isso, me disse: — Claro, não é para contar a sua vida toda numa ligação, quer conversar? Marque um encontro e jogue conversa fora em outro lugar!

Muitas vezes, estando sozinho em casa, quando eu ia tomar banho, trimmm!, tocava. Um dia resolvi ser mais esperto, abri a torneira e fiquei

do lado de fora do box. Na mosca, trimmm! Atendi e fui tomar banho.

No dia seguinte repeti a dose, ahaaam! trimmm!, mas no dia seguinte, nada, seguinte, nada … Tentei diversas vezes esse truque e nunca mais deu certo.

Trimm, trimmm, trimmmm … Por mais saudosista que eu seja, não uso esse toque em meu celular de jeito nenhum, já não digo alô!, digo oi!, ou algo assim.

Trimm, trimmm, trimmmm!, a cada trimm parecia que ficava mais longo e insistente — Ninguém vai atender essa coisa? Trimmm!Será possível? Não tem ninguém em casa? Repetia inutilmente o que ouvia dos meus pais. Afinal eu estudava a tarde, todos saiam e adivinha para quem sobrava? Num trimmm trimmm! que não acaba mais e mesmo estando sozinho era comum eu falar sozinho — Já vou, já vou! Está tirando o pai da forca?

Trimm, trimmm, trimmmm! Saí do banho apressado, pingando de toalha na mão. Atendi: — Pois não? E caiu a toalha. Exclamei: — Mas será o Benedito? Uma voz conhecidíssima respondeu: — Alô quem fala? Por obséquio é da casa do…

Vó? Paralisado perguntei. E mais duro e frio que baquelite, escutei no mesmo tom que ela usava:

Claro que sou eu, o Benedito que não é! Só liguei para dizer que estou bem e te mandar um grande beijo. A vida é curta, aproveite e não desperdice tempo com besteiras, nos vemos em breve!

Pedi benção e lembrei do seu doce de goiaba em calda, e ela emendou:

— Deus te guie menino, enrole essa toalha no corpo e deixe de ser guloso!

Desligou.

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Notas e links:

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[1]Goodbye Yellow Brick Road, do álbum de mesmo nome (1973), de Elton John (Reginald Kenneth Dwight; Pinner, Inglaterra, 1947 –), cantor, compositor e pianista↩︎

Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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