Detox digital Houdini
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SIM Crônica 22 [Publicado anteriormente em 16/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem sobre a foto de John Salvino no Unsplash (portão de ferro, correntes e cadeado) – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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A PRIMEIRA VEZ QUE OUVI FALAR EM DETOX foi na alimentação. Uma pré-dieta para desintoxicar o corpo e depois inserir a reeducação alimentar. Pegou! Mas entrou no mesmo escaninho das dietas da moda.
Anunciadas para 2, 5 ou 7 dias de DETOX com resultado milagroso. Nessa linha podemos fazer DETOX de qualquer excesso, inclusive o digital. DETOX DIGITAL para quem não enxerga limites e mergulha de cabeça no mundo virtual e esquece o mundo presencial. Jogos que duram dias, a adrenalina corre solta, um desafio insano de resistência a base de salgadinhos e energéticos ou refrigerantes mesmo.
Ah!, nada diferente de uma rave, talvez difira no quesito de mijar em qualquer lugar, diriam uns. Nada como um serão noturno com pizza no escritório as vésperas de feriado prolongado, diriam outros. DETOX neles, eu diria!
E se não bastasse excessos ou carências que batem nas telas de todos os tipos, tem-se o excesso de tempo dispendido em conteúdos que não fazem nem fu nem fá, engolidos como aqueles salgadinhos de isopor com corante e sabores artificiais.
E a carência de pôr o pé na terra prometida da interação. Não a interação do clique aqui, que você recebe um aceno, um sorriso, um beijo e fica ao Deus dará do algo mais substancial e de calor humano.
Ah!, quando terminar a quarentena, se você for visitar alguém é de praxe que você ligue antes. O primeiro motivo é para anunciar o seu desejo e ver se quem você vai visitar pode te receber, na data e hora imaginada. O segundo é bem prático, saber se a pessoa está lá e não perder a viagem. Claro, surpresa, é surpresa! Cada um conhece seus pares e suas regras, boa sorte!
Fiquei em dúvida, mudou a etiqueta para se fazer uma ligação ou sou eu que fico cheio de dedos? Na verdade, fico passando o dedo por cima, sem clicar no sinal de ligar, mas acabo enviando uma mensagem perguntando se posso ligar.
Porém outras mumunhas irão chutar o seu calcanhar desestabilizando sua ação. Envie a mensagem, mas nunca irá saber se do outro lado alguém leu de fato ou não, pois os aplicativos das redes sociais proporcionam esse tipo de invisibilidade.
Aí você se debruça nas páginas e vídeos que explicam como burlar esse tipo de burla, mas não se iluda, outros ensinarão ao burlante como burlar a burla burlada — sabe como é? Ah!, você entendeu!
As redes sociais abrem essas opções dizendo que servem para a preservação de sua privacidade. A sua escancarada privacidade que, ironicamente é vasculhada segundo a segundo atrás das suas pegadas digitais, remexido seus dados e monitorados seus cliques em nome de prestarem um serviço de qualidade e na medida certa de suas preferências.
Não se engane, a tecnologia chegou, ficou, subverteu, divertindo, degolando outras tecnologias, enquanto, debaixo do seu nariz, outras pipocam. Aí você que orkutava foi feicebuka, se icequiava agora whatsapa, você ainda pode instagramneijar ou tuítar (agora xzarar), por aí vai nas miliumas novas opções.
Existe uma vida nelas como em qualquer produto ou serviço… numa espécie de acirrado darwinismo tecnológico. Nem sempre a tecnologia regada a dólar sobrevive, mas sim o que caiu nas graças do mercado, ou seja, nós usuários.
A tecnologia deveria nos dar, principalmente, autonomia — como a educação deveria, assim como a política. Então que venha de alguma forma — mas não a de espetacularizar a política em nossas vidas — pois esse é o estado em que nos encontramos. Muita pose, sede ao pote do poder (não só do cabidão, mas do armário todo de penduricalhos) e menos ação efetiva — ou quase nenhuma — para o dito povo: nós, novamente.
Existem aplicativos que classificam políticos, deve existir os que mostram a sua posição em cada votação, e outros aspectos para que nós… o DETOX? Puts! Porque não falou antes, sabe que eu sou assim, deu corda vou falando.
DETOX DIGITAL, como disse no início, é pra quem não tem limite. Você tem? Responda essas perguntas: Quantas horas você fica online? Com alguém ao seu lado, você prefere bater um papo ou ver suas mensagens no celular? A comida esfria no seu prato enquanto compartilha só algumas coisinhas? Tocou o sinalzinho chumbrega de notificação, você para o que está fazendo para ver o que é?
Se SIM em todas — e nas outras que você tá careca ou cabeluda de saber — é como dizia no anúncio: DETOX é unissex, aliás para allssex, mas se SIM em todas: você passou dos limites! Ai ai ai, que momento brabo pra se descobrir que precisa de um DETOX DIGITAL, hein? Ei espere! Termine de ler a crônica, acho que você está exagerando! Talvez você esteja sozinho(a) e a janela digital é sua passagem para interagir, então tá, interaja!
Entrar em contato com as artes é o melhor DETOX que alguém pode encontrar, interaja com elas, muitas irão desintoxicar a sua alma, outras o farão pensar, cantar, bailar, dar gargalhadas, chorar, se emocionar.
No momento você encontrará de tudo, deixe-se levar a campos não explorados, siga uma live de dança ou ioga, ria de si mesmo tentando acompanhar e pôr o pé atrás do seu pescoço. Faça teatro contracenando virtualmente numa chamada em grupo por vídeo.
Veja um filme de arrepiar os cabelos a meia noite, gostou ou não gostou, indique a um amigo(a), abra um livro e declame um poema para alguém num áudio! Entre de roupas íntimas numa exposição virtual de artes visuais, cante na janela ou toque guitarra com Jimi Hendrix, ao máximo, no banho. Leia uma crônica por aqui, puxe uma cadeira e vamos prosear.
Enfim envie um aceno, um sorriso e um beijo sempre que quiser, mas não se esqueça, sua interação se dá através desta bendita tecnologia, não é a tecnologia que interage, é você! Clique no coração de alguém, pois do outro lado… está o outro!
Mas se ainda assim, mergulhado nas artes, você se mostrar um inveterado viciado na muvuca do diz que diz e não diz nada das redes sociais e não larga o celular nem ao levantar do trono, não se preocupe, tem solução! Procure-me inbox e eu passarei o telefone do DETOX DIGITAL HOUDINI.[1] Siga as regras e tudo ficará bem.
Informe se seu celular é a prova de água, caso não seja, será devidamente embrulhado em um saco plástico. Dentro da caixa de vidro a prova de balas a água começará a subir; ao mesmo tempo, serão passadas as correntes e… desculpe, estão me ligando…
— Calma, tudo ficará bem! A água já tá chegando no pescoço? Solte o celular e soltarão você! Hã? — Glub glub! Glub glub?
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Notas e links: (pós comentário do leitor amigo Duilio Martins)
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[1] – Pensei e acho que eu ainda estou correto, de que Houdini é como o Jimi Hendrix também citado no texto, não precisa de apresentações, porém vi que tinha uma informação importante no comentário do Duílio Martins. Para tanto transcrevo um páragrafo do link abaixo: O filme conta a história do mágico Harry Houdini, um dos maiores ilusionistas e escapologistas da história que teve uma trágica morte em 1926, ao ser atingido por um soco no apêndice por um estudante de artes na Universidade McGill em Montreal, nos Estados Unidos. Infelizmente, como ambos os estudantes e a família dele estavam vivos, o filme Houdini mostrou um final bem diferente do que aconteceu com o mágico, para evitar um processo. Ou seja: Houdini infelizmente morreu por excesso de confiança?↩︎


