Depois dos panelaços onomatopaicos o silêncio do canto sábio de um sabiá
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SIM Crônica 8 [Publicado anteriormente em 19/03/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem sobre O lavrador de café de Cândido Portinari – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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ERA SÓ SENTAR DEBAIXO DA MESA, NA CASA DA MINHA AVÓ. A base, era exatamente uma caixa vazada, com 4 pés no formato de bola. E se fosse um pouco pra frente, pronto! Minha irmã mais nova ia de carona e VRUMMMM! VRUMMMM!
Eu dirigia meio sonado, pois ela e minha vó acordavam com a galinhas, ou melhor, acordamos todos com os COCORICOOOOOOÓS! único galo do galinheiro da minha avó — fora o da galaiada da rua ou perigas, até do bairro naquela época, na antiga Vila Ipojuca que terminava na avenida Heitor Penteado — mas eu não levantava não. E a gente tomava café nessa mesma mesa carro com os barulhos da cozinha: PLAW! PLAFTS! da vó batendo com o martelo de carne e em seguida do ROOUUARRRRRRR KECK! ROOOUUARRRR! PLRECT! ROUUUURRR! do liquidificador batendo os tomates da horta.
Hoje mesmo, vi que as onomatopeias estão impregnadas em minha vida: procurando o cortador de unhas e não lembrando o nome, pedi à minha esposa o PIC! PIC! e lembrei da música do Kid Vinil, dos anos 80, isso me dá um TIC, TIC Nervoso, TIC, TIC, nervoso! [1]
Voltando vários capítulos, no Batman, gostava mesmo era dos POW! BAN! KAPON! OUCH! PUCHHM!, que apareceriam em grandes e coloridos grafismos, quando o pau comia… tão fake, contra os capangas, que eram uniformizados, de acordo com cada vilão. E tudo ao som de PANANANANAM PANANANAM PANANANAM! FUUOOONNN PAAAATMAAM!
Voltando ainda mais, lá vinha o PIUUUUÍ! TCHAN TACHAN TACHAN TACHAN! PIUUUÍ! E um ataque inesperado de Ú-U-Ú-U-Ú-U-Ú-U-Ú-Ú-U! a um trem de caras pálidas, mas eis que TATARÁTAATAÁ!!! RIIIIIICCHHH! POCOTÓ POCOTÓ POCOTÓ! TATARÁTAATAÁ TÁ TÁ TÁ!!! BANG! PINHÓN! TUIN! SSSHHHSSSSSSSSSSSS! BOOOOOOM!, a cavalaria dos filmes de caubóis que na época o exército americano figurava apenas de mocinho… bão é ideia, para muitos perdura até hoje.
Claro que iria me deliciar pelo mesmo motivo, todo tipo de onomatopeia nas HQs da vida, mas o que eu não podia imaginar, era que um dia, eu mesmo, estaria criando uns TOOÍN NHÓI NHÓIN! Em revistinhas para crianças, no caso a do Solzinho da Ri Happy[2], 56 números, eu roteirizando e o Roberto Fukue, um grande amigo e ilustrador fazendo o desenho a traço e colorizado digitalmente na Ophicina5.
Fora os NHEC e NHECS do ranger da cama, quando eu e minhas irmãs, íamos despejar nossa energia infantil, as 6 horas da manhã na cama de meus pais. NHEC e NHECS que iriam ganhar outro sentido mais adulto, transando numa cama por demais nhenhenhecosa.
Lembro muito bem, ela fazia RÃHAHH! RÃHAHH! E a cama NHEC! NHEC! Até que nós três gozamos, eu, ela num AHHHHHHHHH! e a cama num CREEEEKK… PUMBA! E como eu tinha que picar a mula, pois logo chegariam os pais dela, saí com aquele sorriso, bem no meio de um KABRUMMM!!! CHUÁÁ! de alma lavada.
TOC, TOC, TOC! Quem é? Era o meu filho atrás de uma porta imaginária! Tínhamos conversas profundas em AU AUS, UPA UPAS, MIAU MIAUS, PIU PIUS E MU MUS, rolava até uns GROAAAAUS e uns GRAAAAUS que claro, eram bichos selvagens diferentes! E de repente, BUUUAÁ! BUÁ!, puxa, será o 1 ou o 2? Ufa! Era só NHOC NHOC.! Quer dizer, eu ia nos NHOC, NHOCS e ele nos CHUP, CHUPS.
Freada e PUM ou PUMBA! O PUM é um dos mais versáteis, além de ser o tradicional PUM! SRRRRRCCEEEEEEERRRRREEEEEEEEEEEIIIIIIIIIIIIIIII!!! Que fina, SRRRRRCCEEEEEEERRRRREEEEEEEEEEEIIIIIIIIIIIIIIII!!! PUM! Bateu! ÓOOOOOOOOOOOOOOÓ! BIRU LIRU BIRU LIRU! LIRU! e UÕÓÓ…
E nem vou perder tempo falando dos HEHEHES, dos RÁRÁRÁS, muito menos do HÁ-HÁ-HÁS! Mas o que eu acho muito estranho, é quando você envia uma piada num post e recebe de volta HAUSHAUSHAUSHUAS!
Eu ia terminar com um belo e surrado RONC RONC! Porque ninguém é de ferro, mas… IC! Soluço, IC! Filho da, IC! Mãe! GLUB, GLUB, GLUP, ARRRHAMMM… COF COF! EEERK…
IC! IC! IC!
Então dei por encerrada a crônica por aqui, quando começou o PLÁ BLÉI BÉIM PLÁ TELEC PLÁTAC TÁLAC! BLÉI BÉIM PLÁ BLÉI BÉIM PLÁ TELEC PLÁTAC TÁLAC! BLÉI BÉIM PLÁ BLÉI BÉIM PLÁ TELEC PLÁTAC TÁLAC! BLÉI BÉIM PLÁ BLÉI BÉIM PLÁ TELEC PLÁTAC TÁLAC! BLÉI BÉIM das paneladas das vinte e depois das vinte e uma horas.
Depois viria o silêncio, não só da noite mais alta que se avizinhava, mas do luto das primeiras mortes.
Já num sonho, Ary Barroso, mineiro falaria:
— Quarentena voluntária antes que tardia!
E como brasileiro da sua janela entonaria, feito canto solitário desse sábio sabiá que tanto amava nossa terra… BRASIL,[3] por apenas um instante, pois logo num coro só BRASIL afora:
Meu brasil brasileiro
meu mulato inzoneiro
vou cantar-te nos meus versos
o brasil, samba que dá
bamboleio, que faz gingar
o Brasil do meu amor
terra de nosso Senhor
Brasil! Brasil! Pra mim! Pra mim!
Pra nós!
Que esse Brasil seja PRA NÓS e de TODOS NÓS e Deus proteja a todos!
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Notas e links:
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[1] – Tic-Tic Nervoso, música da banda brasileira Magazine, composição de Marcos Serra e Antonio Luiz, lançada em 1983, na voz de Kid Vinil — nome verdadeiro Antônio Carlos Senefonte (São Paulo, Brasil, 1955 – São Paulo, Brasil, 2017), cantor, compositor, radialista e divulgador da música pop/rock↩︎
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[3] – Aquarela do Brasil é uma canção de 1939, de Ary Barroso (Ubá, Minas Gerais, Brasil, 1903 – Rio de Janeiro, Brasil, 1964), compositor, pianista e radialista, que me encantou desde menino, aprendi no ginásio com uma professora que nos ensinava a solfejar e a apresentar — em violão, batucada e coral — essa música para toda a escola! E nesse link podemos ouvir essa música na voz de Gal Costa (Salvador, Bahia, Brasil, 1945 – São Paulo, Brasil, 2022), cantora↩︎


