Cor sim cor não, isso é pior que pavê!
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SIM Crônica 25 [Publicado anteriormente em 22/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem com 3 desenhos dos marcianos verdes de Pat Mallet – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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(SOBRE A COR 2)
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DISPARARIA PICASSO SOBRE A CAMUFLAGEM — Nós inventamos isso! Um objeto se perder na paisagem soa como uma metáfora do Cubismo. Na realidade os cubistas ajudaram sim nesse processo militar de camuflagem.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o exército francês criou oficialmente uma Seção de Camuflagem (1915). Quem foi chamado? Artistas — muitos ligados ao cubismo. Entre eles: artistas próximos do círculo de Pablo Picasso e Georges Braque (Braque, inclusive, já havia servido), tais como: Fernand Léger e André Mare.
Com outro intuito e outra inflexão crítica, vale a pena conhecer o trabalho do artista chinês Liu Bolin, que usa a camuflagem não para ocultar, mas para denunciar uma época em que o sujeito se dilui no consumo, diante do poder e da paisagem urbana que o absorve.[1]
E a Camuflagem em palavras de Mario Quintana é primorosa: A esperança é um urubu pintado de verde. Se procurarmos na natureza, isso deriva de um conceito que embute uma frase que gritamos a milênios a plenos pulmões — Salve-se quem puder!
É um dos processos evolutivos de salvação da pele muito além do metafórico chamado mimetismo. A utilização da cor faz parte do processo, passiva ou ativa. Outras são aliadas a forma e passiva como no bicho pau, como o nome sugere, perde-se entre os galhos finos das árvores ou gravetos dos arbustos. É uma mão na roda a dar com pau!
Os ativos são os que manipulam as células pigmentadas, chamadas de cromatóforos. Nos camaleões, polvos e sépias, a camuflagem se dá por um processo involuntário, a luz entra pela retina e CLICK!, o cérebro processa a cor local e o bicho mimetiza-se com o ambiente, mas também esse processo tem uma demanda interna, demonstra emoções das mais diversas em diferentes cores.
Emoção que emana da crônica Cosmonauta na terra [2] de Clarice Lispector: Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.
E pensar que na antiguidade, esse azul tão caro a nós — evidenciado por Clarice — não existia, ninguém dizia que o céu era azul, pois não havia a necessidade de nomear algo que não tinha uma cor constante.
E se você está de queixo caído por causa dessa constatação, que dirá da próxima?
Paul Éluard prevendo os terraplanistas, através de imagem poética, na primeira frase de um poema, confirma numa só tacada: Pitágoras, Aristóteles, Eratóstenes de Cirene, Fernão de Magalhães e a Nasa: A Terra é azul como uma laranja.[3]
Quando dizem, de verdade, que a Terra é plana, podemos ficar vermelhos de raiva de tanta ignorância científica, e eles brancos de susto quando descobrirem por fim, a esfericidade de onde vivem.
Pois até num suposto mundo da Lua, será redondo como uma bola de sinuca!
Tá, tá, tá… não é tão esférica assim, nem de longe (talvez de longe seja), e nem de perto, mas esferoide oblato, ou seja, uma esfera achatada, tá bom pra você? Pra mim tá…
Duas situações condizentes com estados do corpo, o enrubescer ou corar e o oposto, perder a cor, a palidez. De resto, tentamos isso em vão, quase que somatizamos pela linguagem em cor e na forma e vamos tranquilamente para a cor complementar: — Estou verde de fome! Tremendo como uma vara verde!
Se ainda verde no pé, essa crônica ganha aqui a sua primeira música. A canção de Leminski, Verdura na voz de Caetano Veloso [4] uma música que brinca com o verde da inveja da grama do vizinho, da verdura do verde que também é verde verdura, mas dá um tapa de luva branca de Mickey e Cia, invertendo a solução da problemática questão de se ter oportunidade na vida.
Oportunidades por demais escassas, reflexo tardio das teorias da coloração corporal, ainda que velada, em alguns lugares ainda ostensiva, ideia racista de superioridade. Se a discriminação científica traduzida pela quantidade de melanina do indivíduo ficou lá pra atrás, socialmente é casca nunca cicatrizada de uma profunda ferida que evitamos enfrentar.
Parece coisa de outro mundo, mas é coisa do nosso mundinho estreito, que também transforma a festa de cores das torcidas de futebol num campo de batalha, sem o menor resquício do tal fair-play.
O mundo das bandeiras também prima pela cor, mas nem sempre elas estão tremulando em harmonia, tornam-se estandartes de guerra.
Cores também são associadas a empresas, a produtos. Quem chega no mercado depois tem que ficar com a cor que sobrou ou optar por sair da mesmice. Quem nunca foi comprar uma caixa de simples bombons e viu o trio, a caixa amarela, a vermelha e a azul? E nas ruas predomina o cinza, o branco e o preto.
E da boca pra dentro que o diga, desde o bombom que mancha a língua até os ditos alimentos com sabores e cores artificiais, que coram a alma de qualquer inveterado comedor de besteiras, pior, é terreno da diversão infantil. Enquanto um vegano se orgulharia do seu corante cor de beterraba ou o amarelão da cúrcuma corando suas… Arrham!, digamos assim, necessidades número 2.
Essa briga se estende para todos os produtos, até para caixas de lápis de cor, que como dizem colorem o arco-íris que representa a alegria da natureza. Se cores da alegria, as vezes esse conjunto é associado a riqueza ou o desejo dela. Não é no final do arco-íris que têm um pote de ouro. Vamulá então, sigamos os duendes: − Que duendes? Boa pergunta!
Ah!, será difícil de andar por aqui sem ser interpelado — Se não há duendes e fadas, quem você acha que cuida da natureza? Bobagem, as más línguas afirmam que no outro lado do arco-íris existem homens verdes. Seriam os duendes astronautas? E será que se eu achar um final de arco-íris, mesmo que eu estivesse camuflado eles diriam o clássico: — Renda-se terráqueo!
Bão, o E.T. seria classificado de descorado frente ao tradicional verde marciano e o Paul, o alien fugitivo [5] nem se fala, mais descorado, além de desbocado, porém, ambos têm olhos azuis, Hummm! Cor do céu?
Ah!, se lembrou dos marcianinhos sacanas, os homenzinhos verdes do francês Pat Mallet que você via em cartoons numa revista masculina? [6] Eu também lembro, mas não vem com essa não, eu tô falando sério, pô! Tão sério quanto descrever uma cor que ficou para (SOBRE A COR 3).
Lista ou listra? Tantufas! Mas se é em camiseta não é muito a minha praia, mas as que ganhei de presente, uma hora ou outra acabo usando, mas o problema maior parece que é um chamariz pra piada que acho semelhante à do pavê.
É só eu vestir a dita cuja que lembro do início da música de Assis Valente: Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí …) [7] Se na Idade Média eram os prisioneiros, palhaços, prostitutas, carrascos que usavam este padrão, no século XIX é quase um enxoval de marinheiro.
Daí pra moda no século XX foi um pulo dado por Madame Coco Chanel que a toque de caixa desembocou nas fotos icônicas de Picasso, Andy Warhol e de artistas do cinema, tais como: Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Marlon Brando, James Jean, xiiiiiiii!, essa lista também é grande, no rock temos Patty Smith, Mick Jagger e Kurt Cobain, todos considerados cool.
Então se você sair com uma delas, coloque os seus óculos escuros e esteja sempre preparado para algum engraçadinho chamar você de zebra, ignore sorrindo e reze para que não apareça o do pavê, porque essas listras são mesmo pavê!
E vestir, claro! Mas o pavê não tão infame como ouvir: — Ah! Saiu de cor sim, cor não?
Ai, ai, ai, ninguém merece…
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Notas e links:
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[1] – Camuflagem como arte em Liu Bolin (Shandong, China, 1973 –) · artista contemporâneo↩︎
[2] – Cosmonauta na terra faz parte do livro A Descoberta do Mundo de 1999, que contêm 468 crônicas publicadas aos sábados no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973 de Clarice Lispector (Chechelnyk, Ucrânia, 1920 – Rio de Janeiro, RJ, 1977) escritora e jornalista↩︎
[3] – Paul Éluard (Saint-Denis, França, 1895 – Charenton-le-Pont, França, 1952) poeta
Claudio Willer (São Paulo, SP, 1940 – São Paulo, SP, 2023) · poeta, ensaísta e tradutor↩︎
O poema completo de Paul Éluard do livro Capitale de la douleur, de 1926, traduzido pelo poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer. Procure no blog Claudio Willer : Paul Eluard, poemas e imagens poéticas
[4] – Paulo Leminski (Curitiba, PR, 1944 – Curitiba, PR, 1989) · poeta, escritor e tradutor
Caetano Veloso (Santo Amaro, BA, 1942 –) · cantor, compositor e escritor↩︎
Verdura, composição de Paulo Leminski na gravação de Caetano Veloso no álbum Outras Palavras de 1981, gravação que deu um gás na visibilidade do poeta Leminski:
[5] – Greg Mottola (Mount Kisco, Nova York, EUA, 1964 –) diretor de cinema e televisão filmou Paul, O Alien Fugitivo em 2011, veja o trailer legendado desse extraterrestre nada politicamente correto, ah! e reparem só quando perguntam como ele fica invisível ele responde: — É camuflagem! Uia, caiu certinho nessa crônica↩︎
[6] – Marcianinhos sacanas do ilustrador e cartunista francês Patrick Mallet (Pat Mallet) ilustrador e artista visual ficou surdo aos 9 anos de idade. Estudou na Escola de Artes Aplicadas em Paris, com Jean Giraud (Moebius), Jean Giroud e Jean-Claude Mézières . Criou vários personagens entre robôs e marcianos, mas ficou conhecido aqui no Brasil e em outras partes do mundo, com suas piadas de seus pequenos homens verdes em revistas eróticas. Lecionou no Centro Educacional e Ortofônico Experimental em Paris, onde Yves Lapalu, também surdo, foi seu aluno. E também publicou trabalhos sobre surdez.↩︎
[7] – Assis Valente (Santo Amaro, BA, 1911 – Rio de Janeiro, RJ, 1958) compositor e letrista
Vanessa da Mata (Alto Garças, MT, 1976 –) · cantora e compositora
Camisa Listrada, música de Assis Valente de 1941, na voz de Vanessa da Mata, ao vivo no Som Brasil:↩︎


