Cães e gatos entre outros bichos!
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SIM Crônica 30 [Publicado anteriormente em 03/05/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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TEM EXPRESSÕES QUE PARECEM GÍRIAS SUJAS, ouvi certa vez: − Ah!, isso é pinto! Não se preocupe, não é nada pornográfica, é apenas uma maneira popular de dizer que isso ou aquilo é pouca coisa.
Que ainda não é nada vultuosa, está no começo, não tem grandeza, ou seja, ainda não é o galo da coisa!
Isso me lembra duas coisas de infância: uma minha e das minhas irmãs e a outra do meu filho. Ganhamos em uma feira, não me lembro qual, três pintinhos coloridos, nem me perguntem como se coloria um pinto, sei agora que devia ser uma judiação e que foi. Um logo morreu, depois outro, aí o terceiro sumiu.
Das duas uma, por certo meus pais pensaram, neles ou em nós, ou nesse conjunto chamado família. A morte, mesmo nos bichinhos traz consigo sentimentos, é quase que um liga e desliga da ingenuidade infantil, perceber que algo se vai, não está dormindo, não acordará mais, some e não volta mais.
Alguns pais estabelecem um ritual, até enterram os PETs, os meus optaram pelo sumiço, quem sabe? Eu não lembro se disseram que foram viajar, mas lembro que a morte humana, eu descobriria com toda a sua dor, quando minha Vó materna faleceu e eu chorei compulsivamente fora do velório e meus pais acharam melhor eu nem ir ao enterro.
A outra aconteceu com o meu filho. No meu primeiro casamento, em Vinhedo, compramos galinhas, morávamos numa das casas do Mimi, do dono de parte da cidade — era isso que o cara da imobiliária falava.
Eu ia no galinheiro com o meu filho pegar os ovos, um dia deixamos um. Todos sabem no que deu, né? Deu pinto… um pintinho que meu filho levava de cá pra lá e de lá pra cá pela casa.
Até que o que era pinto, cresceu e começou a dar pinta de galo. E lá ia ele pela casa, agora debaixo do braço do meu filho. O galinho se esticava todo, pernas e bico como uma flecha, até que o bicho começou a cantar de galo no galinheiro e o bicou de leve.
Era um alerta em linguagem galinácea, porém ninguém por lá era versado nela e não deu outra, atacou meu filho que se esquivou e nunca mais quis saber do galinheiro.
Um outro PET que tivemos, eu e minhas irmãs foi um coelho. Era uma fofura de pegar e uma fofura de ver, até de ver ele comer. Se era coelho ou coelha não sei dizer, mas também sumiu. Dessa vez foi um sumiço anunciado, pois a fofura em pessoa deixava aquela trilha de bolinhas e ninguém ajudava a catar, sumiu, mas acho que não viajou.
E eu fiquei maravilhado de descobrir as mesmas bolinhas no jardim do prédio e catei uma lata inteira de bolinhas. Só que essas andavam, meus adorados tatus-bolinha, que recém descobri que retiram materiais pesados da terra. Quem diria que eles na minha própria casa seriam expulsos aos gritos, pois além de bolinhas ou quando não eram apenas bolinhas, andavam espalhados por toda casa. Tive que encher a lata novamente e levá-los ao jardim.
Depois disso, devido à asma da minha irmã menor, não pudemos ter os pets campeões de audiência, gatos ou cachorros. Tive um casal de periquitos que inclusive tiveram filhotes.
Até que funcionou, por um tempo, aquela relação de permissão de tê-los com a responsabilidade de trocar o jornal da gaiola além de monitorar o nível de comida e de água, inclusive lavar esses recipientes. Porém os periquitos que eu queria livres, tentamos com um filhote, mas não deu muito certo, tivemos que aparar as asas, pois ele era atraído pela luz da janela, voava e batia contra o vidro.
Tive peixes de água doce também. Gostava daquele barulhinho das borbulhas na madrugada em meu quarto e da calma luz filtrada pela água, entre as sombras do movimento dos peixes refletida na parede. Na estante projetada pelo meu pai, encomendamos um aquário em exatas medidas com bordas de metal, luz, bomba, etc.
Adorava os peixes, sentia que era normal tê-los no aquário, mas também tive dúvidas ao adquirir na feira, uma tartaruguinha d´água. Fiz uma ponte arqueando uma régua em que ela subia e dormia por lá.
O problema era alimentação. Pedacinhos de carne moída que eu dava na boquinha, mas sempre caía um pouquinho no fundo e isso começou eufemisticamente a dar cheiro no aquário, pra não dizer feder. Juntou neste momento a minha ausência, que desde os 15 anos, viajava de carona por aí nos feriados prolongados e deu no que deu. A interdição justa por meu pai deste ambiente aquático no meu quarto.
Aí em Vinhedo, casado, aquela overdose né? Meu filho teve um periquito chamado Bur, que era o nome ao avesso do cão, o Rub, um gato e o galinho. O Rub era um grandalhão, peito e pelos de um collie e corpão de pastor alemão.
Apesar do tamanho, descobri que os cães tinham aquele pavor de fogos, tanto que quando saíamos, ele que ficava naturalmente do lado de fora tomando conta, se calhasse de ter fogos, não dava outra, queria entrar.
Tive que comprar uma porta nova quando devolvi as chaves da casa. Doeu no bolso, mas nem tanto quanto a separação do Rub e do meu filho, que na época acabou digerindo a coisa, pois soube que o Rub iria correr livre numa pequena fazenda da família de um amiguinho.
Ele teria no apartamento um Cofap,[1] um tipo de cão salsicha, imortalizado numa propaganda de amortecedor, imortalizado é um exagero, claro, apenas nas mentes de quem viu na época. Mas novamente a tristeza da despedida, o pequeno quando sozinho, que isso era inevitável, latia e gania tanto que fizeram um abaixo assinado e foi expulso do prédio. Porém agora ele tem a doce e linda Pipoca, uma maltês.
E eu virei gateiro, gostava dos gatos livres que entravam e saiam da casa de meus sogros do segundo casamento, casa em que morei por um ano e a minha filha achou uma ninhada de gatinhos e deixou na garagem.
Numa manhã ao sair com o carro, senti que passei em cima de um murungundum, estranhei, quando desci para fechar o portão vi que era um deles. Um acidente que preferi na época não contar, pensei em fazer isso na volta, mas devido ao relato emocionado da minha filha, não quis figurar no seu imaginário como o responsável, mas já contei a ela faz um tempo e ela até que recebeu bem a história, tanto da morte do bichinho quanto da minha covardia.
Resumindo, depois em nossa casa na Rua Atibaia, tivemos o Bóris, um boxer que eu concordei em termos em casa, mas contanto que ele ficasse no quintal. Dito e feito, na primeira noite já estava dormindo na cama das crianças, enfim ele me respeitava, pelo menos ele… eu dizia: — Bóris, casinha! E não é que pra surpresa geral ele ia. E o menino teve um grande aquário de água salgada que foi um perrengue na época do racionamento de luz em São Paulo.
E na separação eu fui morar no meu escritório de design gráfico e ganhei um gato da Aninha: o Chuchu, que ia e vinha livre pelos telhados e um peixe beta dos outros funcionários — achei minúsculo o aquário com tampa por causa do gato, mas nem cabia direito a sua exuberante cauda. E o blábláblá de que o espaço é suficiente, pois vive no Vietnã, Tailândia, Indonésia, etc., em pequenas poças – na verdade, SOBREVIVE em pequenas poças, como podemos morar numa quitinete pequena, claro.[2]
No terceiro casamento eu ganhei a Léo, que livre, prenhou e eu assisti o nascimento dos gatinhos, foram oito, dentro de uma caixa de papelão que ela gostava de ficar, eu ia tirando e anunciando para a minha esposa e ao mundo, um, três, quatro, seis, sete… não oito!
E esse último era maior, dei o nome de Batatinha, que virou um gatão preto e branco. Ficamos com quatro, além do Batatinha, a Tigresa, a Flor e o Bigode, um preto e branco mais mirrado. Mas não creio que tenha sido por causa do Batatinha, que era um baita fominha. Ele pegava uma das tetas e com as patinhas afastava os outros e eu como juiz dessa comarca leiteira, tirava ele na marra e os outros vinham famintos se alimentarem.
Agora a parte obscura que dá até vergonha de contar. Quando desmamaram, mal colocamos eles numa caixa de papelão na praça perto do Galpão, a criançada já estava levando pra casa: — Mãe olha só o que eu achei, posso ficar com ele? A Léo morreu de velhice, os filhotes dela foram sumindo um a um. Eram livres, mas os perigos dessa liberdade também andavam lado a lado com as tais sete vidas de um gato.
Aí lá vem o Dusek com o hit, Auuu! Uauuu! Uauuu! Uauuu! Uuuuuu!... Troque seu cachorro por uma criança pobre [3] … Deixe na história de sua vida uma notícia nobre… (impagável na gravação de uma show ao vivo, sem papas na língua) … Rock da Cachorra, essa canção do rockabilly nacional é de Leo Jaime e Dusek no seu disco Cantando no Banheiro de 1982 emplaca com seu irreverente e conhecido bom humor.
Por outro lado, outra criatura ligada ao deboche e ironia sai de, onde na sua coluna na Folha de São Paulo em 1997, Bárbara Gancia inverte a questão no bom sentido que o humor trata com muita seriedade: Não troque seu cão por uma criança pobre [4] que se desdobra em polêmicas que ficarão pra outra ocasião, que o óbvio creio já se levantar da cadeira que seria, há de se cuidar das crianças e dos animais com a mesma decência que reservamos a nós mesmos.
E a minha esposa decretou que o império dos felinos tinha acabado — Puts!, pensei, ainda tinha alguns de nomes livres da Turma do Manda-Chuva que sei de cor e salteado: Bacana, Espeto, Batatinha, Gênio e Chuchu — ela conseguiu uma Cofap, a Sichafrida, que infelizmente já veio resfriada do canil da prefeitura, pior, estava com cinomose e tivemos que leva-la de volta e segundo a recomendação, não podíamos ter cão no Galpão por ali por uns dois anos.
Enfim nada mais, nem gatos e nem cachorros, pois estávamos num apê em São Paulo, mas cedi aos pedidos insistentes da Rê e agora temos a Pink, mas aí é outra história pra outra hora.
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Notas e links:
[1] – O cão chamado de Cofap, salsicha, linguiça ou mesmo erroneamente de basset, na verdade é da raça Dachshund, podendo ser chamada também de Teckel, o nome do produto advêm da propaganda da Cofap do amortecedor turbogas, com o slogan, O melhor amigo do dono do carro e o melhor amigo do carro, segue um link, porém não é muito boa a qualidade:↩︎
[2] – Mitos e verdades sobre o peixe Beta:↩︎
[3] – Eduardo Dusek (Rio de Janeiro, Brasil, 1958 – ), cantor, compositor e performer
Léo Jaime (Rio de Janeiro, Brasil, 1960 – ), cantor, compositor, ator e escritor↩︎
Rock da Cachorra, na gravação de 1982, do álbum Cantando no Banheiro de Eduardo Dusek, é uma canção de Leo Jaime. Em ritmo rockabilly dos anos 60, letra cômica, traz a polêmica questão social da adoção de um órfão — a criança pobre — seja a adoção efetiva, seja a atenção e os cuidados com a infância desassistida ou a ajuda financeira em vez da compra e/ou adoção de um PET como um filho. Segue link da bem-humorada e impagável introdução da canção ao vivo do DVD Dusek é Show!
[4] – Bárbara Gancia (São Paulo, Brasil, 1959 – ), jornalista, escritora e colunista. Texto publicado na sua coluna no Jornal Folha de São Paulo, em1997, citando Dusek ao avesso, bem-humorada também no Não troque seu cão por uma criança pobre↩︎


