Anos nada dourados
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SIM Crônica 2 [Publicado anteriormente em 07/03/20] na página de mesmo nome deste blog
imagens destacada e principal: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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COMPRO OURO! QUEM SE LEMBRA DOS VELHINHOS, GENTE HUMILDE que precisava de algum meio de vida e que ostentavam placas com esses dizeres? Eles eram placas ambulantes, muito longe de poderem ostentar qualquer outra coisa em vida.
Alguns usavam as placas em sanduíche, penduradas nos ombros, e outros seguravam apenas a placa no alto de uma haste de madeira. Eu tinha ido ao centro da cidade em São Paulo para pegar um documento. Chegando na praça da Sé, notei que o estilo havia mudado e parecia com o filme Kagemusha,[1] do Akira Kurosawa. De uma mochila nas costas saía uma haste e tinha uma bandeirinha com os dizeres mágicos em dupla face: COMPRO OURO.
Em 2013, um americano de 74 anos saiu nas ruas, em Utah, com uma dessas placas em sanduíche e no total, percorreu uns 320 km. Não estava atrás de comprar OURO, no seu caso, o OURO não valia nada. Estava atrás de um rim para a sua esposa. Um casamento que superava as bodas de OURO, 57 anos.
Conseguiu um compatível e ela veio a falecer em 2017. Com certeza foi um período difícil, mas talvez tenha sido mais um período dourado em suas vidas.
Com toda certeza, não estamos em anos dourados, embora o ouro pareça ser sempre uma opção em alta ou mais estável. E na praça da Sé, não é apenas a palavra que se compra, ou seja, um título escrito OURO, uma opção que se clica OURO na internet. Lá se compra o OURO, OURO de verdade no seu peso e quilate. E nada do OURO de Tolo do Raul.[2]
Falo com o senhor portador da bandeirinha e o sigo. Imagino como deve ser o prédio, se é forrado de seguranças ou a coisa é feita na proteção particular na sala. Você entra e tem um sujeito armado — agora pode, ops, podia? E antes se podia ou não, deveria ter alguém igualmente armado. Chego numa porta que dá na salinha; no fundo dela, na metade de uma porta guichê tem uma abertura tipo casinha de rato, onde você deposita a sua identificação com foto, empurra com a mão, sem saber se há uma ratoeira do outro lado.
Ao ser chamado, essa porta guichê abriu apenas o espaço suficiente para eu entrar de lado e, em seguida, me conduziram para uma outra sala. Uma balança, um copo cheio de água com marcação — e Eureka!, não há como não lembrar de Arquimedes. A suposta coroa toda feita de OURO do rei e sua banheira uma calculadora, um vidrinho, que creio ser ácido nítrico e um prato branco de cerâmica sobre o tampo da mesa escura, reta, estilo escritório dos anos 60, o carpete cinza desgastado e, na parede o aviso que vem me acompanhando desde a entrada: Você está sendo filmado, sem o sorria, porém com a advertência: Atenção!
O sujeito na mesa, parece um gerente de banco e pergunta em que poderia ser útil. Aceita qualquer peça de OURO? Sendo OURO, vale até incrustação dentária! Faço várias perguntas idiotas sobre os objetos na mesa e as respostas são cada vez mais curtas. Penso que eu deveria sugerir um aviso numa outra plaquinha na parede, tempo é OURO! Ao invés disso, contei uma história.
Sem paciência, mas educadamente ele respondeu:
— Escute, aqui não se trata de uma loja de penhores. Por favor, pegue este cartão, se tem dúvida em vender, leve o relógio de OURO que ganhou do seu pai, que ganhou do seu avô, que ganhou por sua vez de seu pai, seu bisavô que por sua vez ganhou da bisavó dele com dedicatória que comprou… ah! nem me lembro mais, mas não precisa repetir… Vá e penhore, fica com esse cartão, fala que o Telecoteco do OURO te mandou — ou melhor, sugeriu.
E captando o meu pensamento ele falou a derradeira frase:
— Desculpe senhor, queira se retirar. O meu tempo vale OURO, entende?
Respondi levantando lentamente sem abrir a boca.
Já era! O que vale lá é OURO para venda, para se ter dinheiro na mão. Mas e a curiosidade? Ao pensar nas pessoas que vendem seus pertences de OURO, não pude deixar de lembrar da música… dinheiro na mão é vendaval, é vendaval… Digo ao lado da porta que não vou penhorar, que talvez eu voltasse na semana que vem. Porém nem relógio, nem nada de OURO eu tinha, pensei nisso porque ouvi um senhor dizer no ônibus que foi assaltado e contou uma história da genealogia do seu relógio de OURO, sua origem familiar a perder de vista, e ainda descreveu o ladrão.
No corredor, a adrenalina disparou, pois o sujeito que esbarrou em mim, correspondia exatamente com a descrição feita pelo senhor. Coloquei a mão no bolso — ufa!, ainda estava com a carteira! Pedi a minha identidade à moça que abria a porta guichê, e cumprimentei o segurança com um meneio de cabeça, quase escondendo o meu rosto da câmera, como se isso fizesse diferença àquela altura. Eu só não queria estar por lá quando o ladrão tirasse o relógio de OURO do bolso com a mesma dedicatória que descrevi, e sabe-se lá mais o que, correntinhas, alianças, brincos… de OURO, claro!
O senhor da bandeirinha COMPRO OURO, impaciente disse que iria perguntar pela última vez, se eu ia entrar no prédio ou não. Agradeci e recuei pensando, olhando em volta, se eu era alvo de algum olhar suspeito, pois se nem toda curiosidade mata, eu não ia ficar ali de curioso — vai que matava. Afinal eu segui a bandeirinha, não entrei no prédio e não tenho OURO ou dinheiro na carteira, ah!, mas tenho um poema na cabeça que, pelo menos para mim, vale OURO.
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Notas e links:
[1]– Kagemusha (1980), de Akira Kurosawa (Shinagawa, Tóquio, Japão, 1910 – Setagaya, Tóquio, Japão, 1998), cineasta, roteirista e produtor, narra a história de um ladrão que assume o papel de um poderoso senhor feudal morto para manter a estabilidade política↩︎
[2] – A música Ouro de Tolo, de 1973, do disco Krig-ha, Bandolo de Raul Seixas (Salvador, BA, Brasil, 1945 – São Paulo, SP, Brasil, 1989), cantor, compositor e produtor musical em parceria com o escritor, letrista e dramaturgo Paulo Coelho (Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1947)↩︎


