Além de caçar pokémons, poderemos caçar políticos?
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SIM Crônica 7 [Publicado anteriormente em 17/03/2020] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem com desenho do Pokémon – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

NO IBIRAPUERA, QUANDO ESTÁVAMOS POR LÁ NA FEIRINHA da marquise, vi um monte de gente andando e a princípio pareciam tirar fotos de uma maneira estranha diante das obras de Oscar Niemeyer.
Pensei, com felicidade, sobre aqueles que estavam se acercando de duas obras do arquiteto que eu tanto admiro, o Auditório do Ibirapuera [1] e a Oca. Até que ouvi alguém comentar, olha!, estão caçando Pokémon!
De imediato lembrei do Pikachu, o Pokémon amarelinho, uma espécie de mascote com poderes e fui fuçar. O Pokémon Go funciona assim: baixe o aplicativo na Play Store do celular.
Escolha um dos três times, ache os Pokéstops para ganhar Pokébolas, pegue uma delas e jogue no Pokémon selvagem que aparecer na sua tela. Antes procure saber as manhas para atrair Pokémon. Se acertar a bola nele, pronto!, capturou o Pokémon. Depois tem que treinar o bichinho, por aí vai, mas não ache que tudo é moleza: tem Pokémon muito difícil de capturar. Afinal tem Pokémon de tudo quanto é tipo — é uma lista de respeito que não acaba mais.
Pensei então: se as crianças, estimuladas pelo game, têm essa capacidade de reter tal quantidade de informações — existem atualmente cerca de 800 tipos de Pokémon — como reagiriam frente à lista de nossos políticos, seus ditos e suas ações? Pensamento inútil e descompensado que quase joguei fora, mas… não joguei. Ufa! Retorno a ele um pouco mais abaixo.
O pessoal que saía ao ar livre aliava o passeio a esse game e transformava tudo numa grande aventura, quase um sport game divertido, fosse com amigos ou familiares ou tudo junto e misturado. Porém os Pokémon podem aparecer em qualquer lugar.
Quando aparecem, o seu celular vibra, aí você… opa!, vibrou? Boa caçada!
Ah!, mas cuidado, não vá caçar Pokémon em qualquer lugar e sozinho. Os mesmos cuidados que você toma normalmente para evitar perigos devem ser respeitados! Mas atenção, até passar o COVID-19, a caçada é só em casa!
Sou da época do primitivo pingue-pongue do Atari, mas um zero à esquerda em games. Um dia fui trabalhar e quando voltei, meu filho me puxou pela calça e disse: ― Pai vem logo, vem ver! Ele tinha passado de fase no Super Mário 64, a fase que encalacrei, e não consegui sair dela… e não é que o danadinho descobriu inúmeras outras coisas, Here we go! E logo finalizou o jogo. E isso agora é tão normal quanto o nosso espanto, né?
E o que o bicho virtual Pikachu tem com isso? Tem que o Pikachu, o Mário e claro, o Sonic foram para as telas do cinema e ainda lançam jogos nessa guerra comercial. E muita gente que vem jogando seja da década de 70, 80 ou 90, ainda tem esses games como lazer.
Por isso que ao vermos grupos caçando Pokémon, não tem só molecada: tem gente que tem a idade do meu filho agora, 30 anos ou até mais e que resolveu curtir essa volta ao passado.
Num vídeo, além das dicas para caçar Pokémon selvagens, vi algumas batalhas. Sim batalhas! Ao serem caçados, cada Pokémon rende uma quantidade de docinhos, que servirão para se fortalecerem, evoluírem e ficarem prontos para lutar. Mas para sair vitorioso você tem que conhecer de verdade os Pokémon: suas habilidades, características individuais e da espécie. Aí sim lançar mão de estratégias diversificadas.
Se eu entendi alguma coisa, no meio de uma batalha de um Vaporeon com um Dragonite, eu deveria trocar de Pokémon, substituindo o Dragonite por uma Spark, tão elétrica quanto o Pikachu e a vitória seria quase certa. Mas se eu falei besteira, por favor, você profissa no game, fique à vontade para me corrigir.
Os Pokémon têm os seus treinadores. Os presidentes também tem — claro que com outro nome: conselheiros. Então podemos imaginar que para o nosso joguinho de dois em dois anos, além da lista, temos que saber se eles possuem habilidades e características, tais como, honestidade, ética, etc.
Depois temos que caçá-los com nosso voto para, posteriormente — aí vem a parte difícil — avaliar até que ponto podemos evoluir um político, que muitas vezes só evoluem em patrimônio, para que num cargo executivo ou legislativo, ele lute batalhas em que acreditamos e as vença para termos um país melhor.
Antes que algum político diga que só eles podem se caçar, deixo claro: que se cacem! Será um grande favor a Nação!
Ah!, não se engane: entre Pokémon e políticos, há os ariscos, os que exigem docinhos demais para pouco resultado e os que, por inúmeras vezes, julgam as pelejas como particulares, e não públicas, como deveriam ser.
Na verdade, o script desse jogo são os desafios que o mundo contemporâneo nos impõe como seres humanos, aqui delimitados numa posição geopolítica chamada Brasil. Se não é fácil ser exitoso, por outro lado não basta ser regra escrita: tem que sair do papel. Afinal, o objetivo do jogo deveria sempre favorecer a nação como um todo — algo tão óbvio que, infelizmente, nem sempre acontece.
Nesse jogo político — atentem que chamá-lo de jogo é jargão da própria política —, muitas vezes ficamos de fora. E, na tentativa de participação, pululam abaixo-assinados e afins que, sinceramente, poucos sabem em que bicho dão. Diferente do jogo do bicho, onde é fácil saber se você ganhou ou não.
Se falta algo ao jogo político, é uma interface mais amigável e regras claras. Quer um exemplo? Voltemos aos bichos. Desde a primeira vez que ouvi falar em jabutis votados na calada da noite, alterando significativamente leis ou abrindo portas para interesses pessoais e escusos, não há como não cair o queixo.
Ao longo dos anos, vemos quantos bichos entram em perigo de extinção — mas não esses jabutis inseridos nos nossos códigos legislativos. Imagino que, se fizermos um levantamento, encontraremos ali uma superpopulação de inserções duvidosas nas leis.
Pikachu, Sonic ou Mario são jogos de diversão da endinheirada indústria cultural. São jogos de tentativa e erro: ganha-se habilidade jogando. Geralmente há vidas e, quando elas acabam, basta resetar. O jogo recomeça.
Já no outro jogo, o político — o embate é sobre onde colocar o volumoso e, ao mesmo tempo, escasso dinheiro público e as ações que derivam disso. Também ali se aprende por tentativa e erro. A diferença é brutal, quando o entusiasmo se desvia do bem comum, as vidas não resetam. Perdem-se preciosas e insubstituíveis vidas.
E aí no final, afinal aparece aquela pergunta de sempre Que país é este? [2]
Em 1975, o ex-governador de Minas Gerais Francelino Pereira, ao defender a veracidade da abertura política proposta pelo presidente Ernesto Geisel (1974–1979), lançou a frase:
“Que país é este em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?”
Era inevitável que ela reverberasse. Em 1978, reaparece no livro de Millôr Fernandes e, no mesmo ano, na letra composta por Renato Russo, ainda no Aborto Elétrico, consagrada depois pela Legião Urbana em 1987.
Curiosidades à parte, tudo indica que essa pergunta atravessa diversos momentos da nossa história. Sem dono, sem disputa e sem patente. A frase parece ter sido apropriada pelo próprio país — ou melhor, pelo povo brasileiro. Como se uma das prerrogativas de ser brasileiro fosse carregar essa interrogação no peito e tê-la sempre pronta na ponta da língua:
Que país é este?
Quem sabe um dia consigamos dar a virada — e a pergunta deixe de expressar desamparo ou indignação sem chão para se transformar no seu avesso, dita com espanto e alegria:
Que país é este!
Até lá, seguimos perguntando e cantando:
Que País é Este?
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Notas e links:
[1] – Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer, como podem ver esse auditório tem o nome do arquiteto que o desenhou, entretanto ficou conhecido também de auditório da língua
2 – Essa página tem a relação das obras que fala da homologação de tombamento do conjunto total de 27 obras, inclusas as do Conjunto do Parque do Ibirapuera de Oscar Niemeyer (Ouro Preto, Brasil, 1907 – Rio de Janeiro, Brasil, 2012), arquiteto↩︎
[2] – Legião Urbana (Brasília, Brasil, 1982 – 1996), banda de rock brasileiro:
Marcelo Bonfá (Itapira, Brasil, 1965 – ), baterista, compositor
Renato Russo (Rio de Janeiro, Brasil, 1960 – Rio de Janeiro, Brasil, 1996), cantor, compositor, músico
Dado Villa-Lobos (Bruxelas, Bélgica, 1965 – ), guitarrista, compositor
A música do Legião Urbana já antes das Notas e links, que devido a sua urgência, não respeitou a ordem, mas tudo bem, né? Afinal você pode perguntar: Que Blog é Este? e responder você mesmo nos comentários↩︎


