A poética da inteligência artificial sob o olhar da eternidade
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SIM Crônica 20 [Publicado anteriormente em 12/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Ilustração HAL 9000 por Cryteria, Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:HAL9000.svg

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FICO IMAGINANDO O QUE DIRIA O HAL 9000, ele completaria essa missão? E os Replicantes de Blade Runner, conseguiriam tal façanha? Acho que não, pois não passavam nem no teste da tartaruga.
O HAL 9000 de 2001, Uma Odisseia no Espaço,[1] era bem dissimulado quando queria, sabia jogar verde para colher maduro e claro, não era apenas um olho, era uma IA que tinha consciência de sua capacidade, porém ficou refém de sua programação ao mesmo tempo que desenvolvia uma espécie de autonomia esquizofrênica e deu no que deu. A primeira IA que alucinou!
Talvez o replicante líder Roy Batty, também um Nexus-6 fugitivo, personagem na pele do ator Rutger Hauer que diz no final do filme: — Vi coisas que vocês não acreditariam.
Naves de ataque ardendo no cinturão de Órion. Observei raios gama brilharem na escuridão próxima ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer. Uma edição feita pelo ator a partir de um texto maior do roteiro original. E a pomba voava da sua mão sob o olhar atônito do detetive Deckard, um Blade Runner [2] interpretado por Harrison Ford.
Eram testes simples, que requeriam uma memória emocional imaginativa, o que fazer diante de uma tartaruga deitada de costas sobre a areia do deserto? Minha teoria é que computadores ou androides cometem erros — erros de programação humana, e um dos problemas é que até sua imaginação é programada.
Esses erros de programador — e todo programador sabe — ou dão em bug, em looping ou dão no nada… No nada funciona, mas há também a brecha, igual as brechas cavadas no Congresso Nacional, aí a grande diferença é que a intencionalidade é a de acertar para poder, digamos assim: errar a vontade ao engomar o colarinho branco.
No caso das IAs aí mora a interrogação do século, onde ela mesma se constrói dentro de falíveis programações humanas. Leis já foram ditadas não exatamente por cientistas, mas por escritores de ficção científica, tais como as de Isaac Asimov para a robótica, principalmente em relação aos robôs com agência, aqueles que agem por vontade própria, dentro da programação humana, é claro… são 3 leis:
Lei 1: Um robô não pode ferir um ser humano ou permitir, por inação, que um ser humano sofra algum mal
Lei 2: Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que essas ordens entrem em conflito com a Primeira Lei
Lei 3: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que essa proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei
Não vamos explorar demais essas leis e nem outras no momento, mas fica aqui que de certa maneira elas não cobrem tudo, a princípio, parece que dão conta da integridade vital do ser humano, mas há maneiras e maneiras de se atingir alguém… o Congresso que o diga: sempre nos pega pelo… bolso!
Tá, tá, tá… nem precisa dizer que não há IA do mal e nem IA bandida, etc., como reza o credo das ferramentas, o seu uso pernicioso fica por conta dos Humanos S.A. e por enquanto ficamos por aqui…
Desde os testes de Turing que foi lançada a dúvida, da Elisa que foi uma espécie de terapeuta com as suas perguntas, sua escuta… agora vivenciamos uma estranha contradição e nos vemos nas IAs como somos seres de linguagem ao nos depararmos com a nossa própria linguagem replicada, não apenas a linguagem que dizemos falada e/ou escrita. Mas a que cada um engendra dentro dos sistemas linguísticos em que habita ou aos quais tem acesso interpretativo — ou seja, como nós usamos a linguagem.
E nesse espelho há sim o maravilhamento, a impressão de que do lado de lá há alguém e na verdade há, mas não alguém como nós, mas nós replicados em nossa própria linguagem.
Os behavioristas de plantão diriam que também somos condicionados até o último fio de cabelo e com certeza, tem uma parcela de verdade, não é apenas um trocadilho com o primo do xampu.
Conseguiriam eles cumprir a missão de serem realmente escritores romancistas, contistas, cronistas ou poetas? Não na acepção de cópia de algo que denominamos estilo de, jeito de, que efetivamente parece com… quase numa operação de espelhamento logicamente baseado numa tabela estatística de usos de determinadas palavras, expressões, pontuação, ideias assemelhadas, temas recorrentes etc…
Computadores por certo escrevem e androides escreverão a mão por capricho? Talvez até leiam com emoção. Irão se calar diante de uma formulação estapafúrdia? Mas com certeza não irão divagar, dormir no meio da leitura, começar pelo capítulo final, grifar um livro emprestado de um amigo? Deixar de lembrar em qual página parou de ler, ficar de queixo caído, enfim todas as mazelas e êxtases da leitura.
Limpar a garganta, ahhram!, antes de um discurso? Mas para que? Se tudo se encaminha ou estava se encaminhando para que mesmo que eles pudessem sumir entre nós, por lei eles deveriam se apresentar em todas as instâncias, seja em áudios, vídeos ou presencialmente como IAs, mas é só lembrar das fakes news, dos golpes, do uso impróprio da tecnologia para cometer uma variedade de crimes.
E como dizem que para escrever o primeiro passo é ser um bom leitor, não em quantidade, mas um leitor atento, um leitor generoso, um leitor agradecido, que muitas vezes não lê o final para não acabar a leitura ou não se decepcionar. Seja um leitor assíduo ou um que só colecione livros e nunca os lê ou mesmo um leitor crítico demais, que sempre insatisfeito sai a praguejar, mas, sempre um leitor.
Eu queria ter um androide, sim, que fizesse o trabalho pesado das tarefas enfadonhas: imposto de renda, decifrar manuais técnicos de equipamentos e móveis — esses monte você mesmo — e revisar contratos que assinei sem ler, da telefonia ao seguro de saúde, do carro à conta do banco, orientando-me antes de assinar os próximos.
Um que fizesse a análise combinatória perfeita para a loteria acumulada — ou que ao menos ganhasse um por fora fazendo o mesmo para os vizinhos. No caso, deu-se o contrário: bets e mais bets, estorquindo de centavo em centavo os mais crédulos, dopaminando jogadores que nem sabiam que o eram.
Com o tempo livre, eu fundaria um clube de leitura e, quem sabe, um dia escrevesse e/o publicasse de prima… sem nenhum erro de ortografia ou gramática — afinal, teria um baita revisor à disposição. Tô quase lá com a Athena!
Enumerasse e comparasse os efeitos colaterais das bulas dos remédios, ficasse ao telefone argumentando diferenças de centavos cobradas a mais na conta do celular, mudança de plano ou pior, o cancelamento. Anotando e citando quantas vezes for requerido os números de protocolo ou dados pessoais aos inúmeros SACs da vida depois da paciente espera ouvindo as musiquinhas de aguarde você já será atendido. (e esse tempo chegou rápido demais, antes ainda nos EUA, Japão, China e alguns países europeus…)
E agora, porque não imaginar que num lugar qualquer do futuro, com um androide escritor amigo, tipo um C-3PO ou um R2-D2 ou o simpático robôbolinha, o BB8 [3] que apelidaria carinhosamente de HALzinho.BR se saísse de alguma startup nos morros cariocas como saiu o Zexonis.
Mas nesse universo tão masculino, porque não incluir uma ginoide tão charmosa como a Sophia? [4] Afinal ela já ganhou até cidadania e de cabeça e busto, ganhou braços e até contracenou com Will Smith…
Sophia, que é de virar a cabeça, pois literalmente tem as feições de Audrey Hepburn,[5] a protagonista de Bonequinha de Luxo, mas sem cabelo e/ou chapéus fica difícil perceber isso, fora a vivacidade dos olhos da atriz.
Ao lermos juntos o Livro de Areia do Borges [6] relato de quando o autor, no caso o próprio Borges, se depara com um livro de infinitas páginas. Eu estaria lendo pela… sabe se lá que vez e ele ou ela, pela enésima vez, em seus arquivos — ou apenas uma seria o suficiente, afinal a memória deles com a sua velocidade quase que transcenderia a repetição — mesmo assim ficaria mais uma vez absorto(a) com o conto e ali parado(a), piscaria todas as suas luzinhas.
Curioso eu perguntaria. E ele(a) — Ah, não é nada, eu só estava elaborando uma fórmula capaz de contar um número infinito de páginas. Eu o(a) abraçaria e daríamos umas boas risadas, ouvindo um som antigo Pachelbel, Canon In D Major [7] numa nova gravação 8D. Afinal nem ele(a) nem eu, poderíamos conceber naquele momento e nem em outro qualquer, o que seria o infinito diante da eternidade!
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Notas e links:
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[1] – Stanley Kubrick (Nova York, EUA, 1928 – St Albans, Reino Unido, 1999) · diretor de cinema
Arthur C. Clarke (Minehead, Inglaterra, 1917 – Colombo, Sri Lanka, 2008) · escritor de ficção científica↩︎
Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o roteiro é assinado pelos dois, mas o filme é de Stanley Kubrick e o livro de Arthur C. Clarke, são engendrados quase ao mesmo tempo. Hall 9000 é a primeira AI (Inteligência Artificial que ainda figura como um supercomputador. Segue link da cena com HAL 9000 conversando com o astronauta Bowman:
[2] – Ridley Scott (South Shields, Inglaterra, 1937 – ) · diretor de cinema
Philip K. Dick (Chicago, EUA, 1928 – Santa Ana, EUA, 1982) · escritor↩︎
Blade Runner, O Caçador de Androides, baseado no livro de Philip K. Dick, tinha um outro nome, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? Porém a versão de 1970 não passou do roteiro, que foi reprovado pelo autor. O primeiro filme “Blade Runner” foi dirigido por Ridley Scott em 1982, alguns meses depois da morte de K. Dick. Uma nova versão Blade Runner 2049 segue um pouco mais de perto o livro
[3] – George Lucas (Modesto, EUA, 1944 – ) diretor e produtor de cinema, criou a franquia Star Wars↩︎
C-3PO, R2-D2 a dupla que contracenava com Lucky Skywalker, Hans Solo, Wookiee Chewbacca e a Princesa Leia Organa desde o primeiro filme da série de 1982, acabou recebendo mais um integrante, o BB8. Segue link da cena do Oscar com os três robôs:
[4] – Sophia é uma AI que tem a capacidade de aprendizagem. Ela não tem um corpo, apenas o tronco com braços se mãos que se movimentam ao falar e viaja pelo mundo dentro de duas malas. Sophia também possui a capacidade de responder a interação com os seres humanos através de suas expressões faciais. Segue abaixo a interação bem-humorada com Will Smith (Filadélfia, EUA, 1968 – ) ator e músico, que inclusive era o protagonista humano de Eu Robô baseado no livro de Isaac Asimov (Petrovichi, Rússia, 1920 – Nova York, EUA, 1992) · escritor e bioquímico de 1950 de mesmo nome↩︎
[5] – Blake Edwards (Tulsa, EUA, 1922 – Santa Monica, EUA, 2010) · diretor e roteirista
Audrey Hepburn (Ixelles, Bélgica, 1929 – Tolochenaz, Suíça, 1993) · atriz↩︎
Bonequinha de luxo de 1951
[6] – Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 1899 – Genebra, Suíça, 1986) · escritor↩︎
No Livro de Areia, de 1975, no conto que dá o nome do livro, Jorge Luis Borges traz a questão da infinitude na forma de um livro. Transcrevo um pequeno trecho: O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número
[7] – Johann Pachelbel (Nuremberg, Alemanha, 1653 – 1706) · compositor barroco, Canon In D Major:↩︎
Pachelbel, Canon In D Major em * D para ouvir com fones de ouvido


