O Antes de Mais Nada

[BU] [RO] [CRA] [CIA]

(c)aqui

SIM Crônica 33 [Publicado anteriormente em 08/06/22] na página de mesmo nome deste blog

imagem principal: desenho de Anna Bella Geiger no seu livro Sobre a arte de 1976

imagem destacada: foto do trabalho de de Jonathas de Andrade: Em Educação para adultos (2010), Andrade retoma o método de alfabetização de Paulo Freire, ensino baseado no diálogo e na formação de uma consciência de classe (frase do catálogo virtual da 32ªBIENAL DE SÃO PAULO – INCERTEZA VIVA 7 set – 11 dez 2016

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Jamais me sectarizei, jamais fui intolerante
Eu tenho um gosto de respeitar as diferenças, o que
me abre democraticamente no mundo e ao mundo
Paulo Freire
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CENTENÁRIO COSTUMA SER HOMENAGEM PÓSTUMA. Não foi o caso de Niemeyer que comemorou o próprio centenário de nascimento, porém como aniversariante, vivendo até 104 anos. Cem anos passa rápido, ele mesmo declarou que a vida é um sopro…

O problema do centenário de alguém é banalizar o ser celebrado a máximas a serem consumidas sem a necessidade de uma reflexão, como camiseta estampada com uma frase contundente pra sair por aí, nada contra, só a favor, mas que não seja só isso.

Centenários sempre irão se sobrepor,[1] sejam de nascimento ou de morte, de uma obra, de uma realização, de um acontecimento, de uma cidade, as tais efemérides que pontuam nossos calendários e dão inúmeros significados ao nosso tempo coletivo, assim como nossas datas de nascimento dão o tom pessoal a melodia que entoamos em vida.

Porém quando o ponto político da inserção oficial em datas e festejos é acompanhado de distorções, haverá ecos da obra de Anna Bella Geiger,[2] DIGA CONOSCO, [BU] [RO] [CRA] [CIA].

Dentro de nossa vivência tivemos a chance de estarmos juntos num momento desses, do quase agora mesmo, entretanto esse mecanismo de reverência, de referência, por que não de irreverência? Ou mesmo impertinência ou nesses tempos urgentes, de sobrevivência que sem determinada veemência não frutifica.

Dessa ENCIA, derivação sufixal, o significado de estado ou ação ou resultado dela, cai bem para mostrar em regras gramaticais — sempre cheias de discussões — um professor de português que foi além de qualquer uma delas para transformar regras enrijecidas em [AU] [TO] [NO] [MI] [A]. Como se viu na foto com os cartões, uma imagem e abaixo dela a palavra sem separação como nas cartilhas para crianças, usei ao invés de círculos o colchete, mas procurando o mesmo efeito que ela, a silabação e claro, algo que uso graficamente, os [col] [che] [tes].

Poderíamos, claro, vestir uma camiseta com uma frase sua estampada e sair por aí, isso bastaria?

Tivemos um centenário de peso em 2008, o de Machado de Assis, no caso, da morte. O de quase agora, o de Paulo Freire, do seu nascimento e para o próximo ano teremos o da Semana de 22, da realização da mesma.

Se na obra de Anna Bella Geiger tinha ironia e enfrentamento, os cartões visuais de Angicos [3] com palavras-chaves da realidade cotidiana dos adultos também iriam adquirir a contragosto essa acepção. Pense no que representava para um pedreiro analfabeto resgatar algo de suma importância em sua vida, ganhando cidadania plena. Olhar para o singelo e comum objeto, base de seu trabalho e ler a palavra que o representava: [TI] [ JO] [LO], era um ato libertador que ironicamente por combater o analfabetismo acabava gerando uma questão de enfrentamento político por tabela.

Para esse pedreiro, essa forma tão básica de barro cozido nunca mais seria a mesma, assim como o [CI] [MEN] [TO], a [PÁ] e a [A] [REI] [A]. Pois quando a curiosidade desperta em alto grau — já diz um dos conceitos da teoria da psicologia da aprendizagem — a pessoa curiosa vai atrás de todas as outras [PA][LA][VRAS] do seu interesse.

Como curiosidade a parte, na palavra AREIA separamos o I do A por ser um hiato e não um ditongo crescente na língua portuguesa. O mesmo se daria em [BU] [RO] [CRA] [CIA], que supostamente Anna Bella Geiger incorporou esse erro gramatical na obra, para secundar uma propaganda de remédio com quatro sílabas, popular na infância da artista.[4] Seja erro incorporado, erro ignorado na época ou licença de poética visual, não importa, importa o recado da obra, como veremos adiante.

Aqui o espaço é curto para descrever sobre as palavras geradoras e o método em si, este que ainda causa polêmicas quanto a origem, a eficácia, etc. Porém uma coisa é certa além dessas picuinhas, uma palavra de duas sílabas iria incomodar de fato na época, [VO] [TO]. Constava que na pesquisa realizada com os inscritos nas 40 horas em Angicos, muitos queriam melhorar de vida, uns tantos queriam ser motoristas, outros buscavam a alfabetização para ler jornal, ah!, uma porção pequena queria [VO] [TAR], outra menor ainda ler a Bíblia.[5]

Mas se o projeto continuasse, se Paulo Freire não tivesse sido preso pela ditadura, com certeza, a palavra [VO][TO] poderia criar um impasse, da realidade substantiva viraria verbo e verbo todos nós sabemos, sinaliza: [A] [ÇÃO]! Dos cem mil adultos, meta deste projeto de alfabetização no estado do RN, o qual Angicos foi piloto, quantos iriam querer [VO] [TAR], ocasionando possivelmente a desestabilização dos currais eleitorais da região?

Num dia irônico na prisão, um jovem tenente se aproximou da cela de Paulo Freire: Professor, vim conversar com o senhor porque agora nós vamos receber um grupo de recrutas e, entre eles, há uma quantidade enorme de analfabetos. Por que o senhor não aproveita sua passagem por aqui e ajuda a gente a alfabetizar esses rapazes?. Ao que Paulo respondeu, surpreso com a ingenuidade do rapaz: Mas meu querido tenente, estou preso exatamente por causa disso! Está havendo uma irracionalidade enorme no país hoje, e se o senhor falar nessa história de que vai convidar o Paulo Freire para alfabetizar os recrutas, o senhor vai para a cadeia também. Não dá! [6]

O centenário de Paulo Freire caiu numa época inglória diriam uns, para outros como uma oportunidade de difamar sua figura de patrono de nossa Educação. Num documentário televisivo, sobre as ofensas e ataques diretos a Paulo Freire e seu legado, o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella,[7] disse que provavelmente ele iria receber algumas dessas críticas com bom humor, porém iria questionar seriamente seus interlocutores em nome do seu pensamento, como na epígrafe deste texto, democraticamente.

Eu diria que a data caiu como uma luva. Como em Angicos, uma palavra pode explicar aonde quero chegar [PE][DA][GO][GIA]. Outra divergência a parte, em Portugal seria, [PE] [DA] [GO] [GI] [A], no Brasil, [PE][DA][GO][GIA], pois aqui o ditongo no final ao invés do hiato.[8]

É verdadeiramente pedagógico que essa celebração seja num momento como esse, em que o sistema de Educação no país — embora não houvessem sido erradicados no governo anterior todos os vícios legados da educação bancária, expressão do próprio Freire — sofre não só nas mãos desse atual governo sem um projeto de Educação, mas somado ao descaso da situação de pandemia. Essa palavra fundamental, no caso de Freire é plural, [PE][DA][GO][GIAS].

Nunca a palavra [AU] [TO] [NO] [MI] [A] teve em seu significado a necessidade de ser transposto a uma prática da sobrevivência, da resistência — conceito tão caro a Paulo Freire que, ironicamente, é utilizado pelas redes e cursos EAD como marketing no comércio de diplomas, pura [BU] [RO] [CRA] [CIA], dispensando parte do corpo docente, necessário para a interação com os alunos de diversas maneiras, mesmo em cursos não presenciais.

Vejo brotar aqui e ali uma outra palavra chave, [SE] [MEN] [TE]. Perceba que você que entrou em contato com o mínimo de informação sobre a trajetória e o legado em ações e livros que Paulo Freire nos deixou, perceba, em sua volta, sim, são [SE] [MEN] [TES], no plural.

Cada [SE] [MEN] [TE] tem a possibilidade real de gerar um novo centenário, quantos centenários que não são anunciados, tanto de vida, quanto de morte e de suas realizações prenhas de invisibilidade. Cada dia, a cada momento é matéria prima do nosso centenário e dos que nos são caros, centenários ocultos em nossos corações, pois que os tornemos visíveis.

E é num determinado momento em que a palavra tão importante aos dias de hoje, [AU] [TO] [NO] [MI] [A] deve se juntar a uma outra palavra igualmente necessária [SO] [LI] [DA] [RI] [E] [DA] [DE], pois juntas formam os materiais básicos da transformação social.

Nesse momento poderíamos ter na boca de quatro mulheres ao invés da [BU] [RO] [CRA] [CIA] — como no enfrentamento de Anna Bella Geiger — uma construção dialógica como preconizava Paulo Freire, talvez um novo enfrentamento sem… ou com ironia?

Então DIGA CONOSCO [E] [DU ][CA] [ÇÃO] e perceba, o seu tom dirá qual educação você realmente deseja!

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Notas e links:
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[1] – Palavras na voz de Freire no documentário, Paulo Freire, 100 anos, do Jornalismo da TV Cultura que você pode encontrar no YouTube.↩︎

[2] -– Tadeu Chiarelli no seu texto: Anna Bella Geiger: Outras anotações para o mapeamento da obra, se referindo ao livro de Geiger, Sobre a arte (de 1976, sem indicação de tiragem): Geiger, a partir de uma série de perguntas a respeito da natureza do objeto de arte — objeto de contemplação, objeto de
discussão, objeto ideal, objeto material…? etc. —, associa o conceito de arte à burocracia…↩︎

[3]– O projeto de Paulo Freire de alfabetização de adultos em 40 horas tinha a intenção de atender cem mil potiguares no Rio Grande do Norte. Foi escolhida como piloto do projeto a cidade de Angicos, pois era a cidade natal do governador naquela época, Aluízio Alves↩︎

[4]– Na Revista Visualidades no artigo de Artur Freitas da Universidade Estadual do Paraná: A disposição compositiva de Burocracia é uma releitura direta do antigo comercial da pomada Lugolina, o melhor remédio para moléstias da pele, bastante popular na primeira metade do século XX, em que quatro moças, encimadas pelos dizeres diga comnosco, soletravam didaticamente a palavra LU-GO-LI-NA↩︎

[5]De Angicos a Ausentes: a experiência Freireana de alfabetização de adultos, artigo de Micheli Daiani Hennicka, Nisiael de Oliveira Kaufman e Luiz Renato de Oliveira: ...66 dos adultos queriam aprender a ler e a escrever para melhorar de vida; 26 para ser motorista; 23 para ler jornal; 10 para votar; 4 para ler a bíblia, entre outras finalidades relatadas↩︎

[6] – Trecho de O educador: um perfil de Paulo Freire, de Sérgio Haddad da resenha de Mariana Parise Brandalise Dalsotto para a revista da Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil↩︎

[7]Paulo Freire, 100 anos, do Jornalismo da TV Cultura↩︎

[8] – Não é minha praia, apesar de ser interessante, se despertou a sua curiosidade, vá atrás, na verdade, como são variantes na maioria dos casos, podemos utilizar a palavra contendo um hiato ou um ditongo crescente, no que tange a hifenização, ou seja, a separação de sílabas num texto no computador, por exemplo↩︎

Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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