{GUERRA} {NEM QUENTE NEM FRIA} {SOPA TANTO FAZ} {EU TOMARIA}
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SIM Crônica 32 [Publicado anteriormente em 13/03/22] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: Massacre na Coreia, pintura de Picasso de 1951
imagem destacada: montagem das pinturas: 3 de maio de 1808 (1814), de Francisco de Goya (acima) e A Execução de Maximiliano (1867), de Édouard Manet (abaixo0 – Athena&PLW [bricolagens digitais]

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Nem por isto são ilusão pura, se considerarmos, com Adorno, que a ideologia não mente pela aspiração que expressa, mas pela afirmação de que esta se haja realizado [1]
Roberto Schwarz
ESSA QUADRINHA, A DO {TÍTULO ACIMA}, eu fiz anos atrás quando eu li sobre uma guerra que não havia acabado, a primeira da guerra fria, a mesma que Picasso pintou em 1951, Guerra na Coreia.
Mas relacionando a sua visão com à de Goya no 3 de maio de 1808, da mesma forma que fez Manet com A Execução de Maximiliano, obra de 1868.[2]
Oswald de Andrade na sua coluna de jornal de 2 de julho de 1950,[3] propõe deixarmos os tacapes de lado e promover a paz — falava sobre essa mesma guerra, a da Coreia, iniciada em 25 de junho — Quanta gente estará exultando por causa dos primeiros arreganhos da guerra! Quanta gente estará chorando! O homem continua dentro da sua constante antropofágica.
Não custa avisar, toda coincidência nos discursos aqui apresentados é mera reincidência. Continuando com Oswald: E se fosse escolhido um epitáfio para este vale de lágrimas, devia ser aquela fabulosa fábula de La Fontaine O lobo e o cordeiro. Quem foi que começou? Foi você! Foi você! E os dois se pegam de gosto, hoje ou amanhã. O cordeiro de hoje será o lobo de amanhã. Sarajevo, Danzig ou Seul são apenas estopins. E assim vai o mundo. Para onde? E finaliza: De qualquer maneira, chegou o momento de se gritar pela paz. Chega de doidice armada!
Oswald e Picasso viveram as grandes guerras, mas não bastasse a Primeira e a Segunda, pairou no ar a iminência de uma Terceira Guerra, {nuclear}. Esse temor foi devido às bravatas do Gal. MacArthur de querer utilizar esse poderio americano pra encerrar essa guerra, logo contraposto ao arsenal nuclear da União Soviética, justamente na tal de paz armada da guerra fria.
Deste particular momento citado {somou infelizmente a eclosão da Guerra na Ucrânia} que pensei em fazer mais essa colagem e porque não, descolagem, pois uma colagem permite isso, ser uma técnica aditiva e subtrativa ao mesmo tempo.
Poderia começar como Mário de Andrade fez com os nomes de Oswald e Tarsila, Tarsiwald! Mário passou a tesoura, depois juntou e colou o par, pelo menos enquanto durou a cola que descolou Oswald para se recolar a Pagu e assim por diante.
Pegar Oswald que se utilizava da colagem cubista, a mesma que Picasso e Braque levaram para a pintura na fase do cubismo sintético de 1911, permitiria outro corte/cola de nomes, Picaswald ou Oswalcasso.
Picasso foi um grande deglutidor europeu, não tinha nenhum pudor em ir tirando nacos daqui ou dali e colando ali e acolá. Também acho que, por outro lado, não ficava pegando no pé de ninguém que seguia seus passos. E olha que não foram poucos.
Neste terreno de invenção apropriativa existiu uma situação interessante, quando os militares começaram a utilizar técnicas de pintura para esconder suas tropas no campo de batalha na Primeira Grande Guerra, Picasso disse, fomos nós que inventamos {isso}, o {isso} era o cubismo.
Porém os mimetizados bichos folha, bicho pau, e inúmeros outros que somem em seu habitat, provavelmente sorriram condescendentes dessa vaidade humana.
E na lata, Picasso iria declarar aos alemães que foram ao seu ateliê, quando questionado sobre uma imagem da obra Guernica, se ele havia feito aquilo, respondeu ironicamente, não!, quem fez isso foram vocês!
Voltemos aos tacapes, ou melhor, as maças pré-históricas ou que sejam os emoticons e/ou os posts de caráter agressivo, os novos tacapes virtuais.
Ser ingênuo não dá, mas creio que a atitude de não-violência e de desobediência civil em grande parte das situações ainda é um poderoso instrumento.
Talvez muitos dirão que se assemelha ao mimetismo, some no campo de batalha, não funciona como uma ação afirmativa. Dilui as forças do enfrentamento dirão outros. Por certo, há sempre os que acham que pelejar de igual pra igual é a solução. Martin Luther King às vezes é visto com desconfiança, pois foi de certa forma acolhido pelo poder vigente, ao contrário de Malcolm X.
O enfrentamento pacífico da não-violência nunca deu certo, dizem outros, mesmo com Gandhi, afinal o Paquistão separou-se da Índia numa cisão religiosa debaixo de muitos conflitos.
Por outro lado, não seria também ingenuidade confundirmos que o resultado da ação de Gandhi foi ineficaz ao não conseguir impedir as posteriores badernas pós-independência e sua própria morte.
Assim o mesmo se deu com Lennon na sua empreitada de paz e amor sob lençóis brancos, o Bed Peace, contra a Guerra do Vietnã ao lado de Yoko Ono. Criticado por muitos: Parem de perguntar se dará certo, tome uma atitude, disse John. Qual atitude John Lennon se referia? Deixe seu cabelo crescer, faça um cartaz. Afinal era março de 1969.
Um ano antes na Primavera de Praga o rádio deu fôlego aos manifestantes, como na Primavera Árabe de 2011, os smartphones, o tempo real da internet + rede sociais proporcionaram agilidade. Hoje apesar dos poréns do aparato de controle da coisa, ainda é um grande trunfo. Tome uma atitude!, diria John hoje?
A paz almejada em todas as guerras, não se deu na Guerra da Coreia, ainda sob um armistício mal engendrado, uma guerra quente que eclodiu como o primeiro produto de peso da guerra fria e por vezes chegou ao ponto de ser requentada, porém com o novo ingrediente, o poder nuclear da Coreia do Norte confirmado em 2017.
Por falar em paz, entremeadas com a famosa imagem da Pomba da Paz, há ainda os que questionam Picasso sobre as suas notórias manifestações pictóricas sobre a guerra — vide Guernica, O Ossário, Massacre da Coreia, de 1951, seguido dos murais Guerra e Paz de Vallauris ou releituras como o Rapto das Sabinas de David, realizado em plena crise dos mísseis de Cuba — perguntando o porquê de Picasso não ter pintado algo sobre a Primavera de Praga de 1968.
Mas Koudelka [4] registrou a invasão de da capital do seu país, a Tchecoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, com imagens cruas e urgentes, feitas muitas vezes de forma clandestina. Suas fotografias mostram tanques, multidões, relógios marcando a hora exata da ocupação e o choque silencioso entre poder militar e vida cotidiana.
Publicadas anonimamente no Ocidente por razões de segurança, essas imagens tornaram-se um dos registros visuais mais emblemáticos da repressão à Primavera de Praga, onde o documental e o poético se encontram no limite do risco, gerando imagens contundentes e necessárias para a denúncia dessa loucura humana.
Dessa crise nuclear em Cuba, rendeu a história do cinema o filme de Stanley Kubrick, Dr. Fantástico,[5] que retrata o ridículo de certas posições tornadas cômicas num cenário de guerra nuclear, ainda que fosse trágica a situação geral a época no tocante a liberdade de expressão devido a caça às bruxas nos EUA, iniciada na década de 1950.
Diante do assombro da detonação e anuência de pilares da ciência nuclear da época, em Hiroshima e Nagasaki e seus efeitos, é de se espantar de que ainda a bomba nuclear seja parte integrante dos arsenais militares, como ainda se desenvolvem armas químicas entre outras tantas alternativas de cunho letal, onde uma indústria que diz defender a paz, alimenta e é alimentada na verdade pela guerra.
Esse flerte/ameaça de detonação nuclear, que se não é blefe {tem que ser, claro!} é ainda a herança nefasta de um jogo de poder perigoso, afinal malucos e desmiolados, um dia ou outro, também chegam ao poder {parece não ser o caso agora, ufa!}. No pior cenário, personagens cinzas que se movimentavam na sombra desses podres poderes, também sobreviveram. São os indivíduos sempre disponíveis para cumprir ordens sejam elas quais forem {vide Holocausto e Holocaustos anteriores e posteriores ao da Segunda Grande Guerra}.
Totalitarismos ou medidas totalitárias de esquerda ou de direita, querem ser os croutons dessa sopa contemporânea do extremismo temperado, tanto pela polarização quanto pela intolerância, entre outros ingredientes não palatáveis da falta de diálogo.
Obviamente esses croutons não passam pela garganta, a não ser a força, visto que a sopa das medidas extremas é por demais indigesta, a sopa que eu tomaria é outra, a da não-violência, em que os ingredientes se dissolvem na tolerância, na diversidade dentro de um ambiente dialógico.
Ironicamente o gás é um dos motivos dessa nova guerra, o gás que aquece, o gás da cozinha, o gás encanado que aquece a sopa da extrema ignorância neste momento, razão da desrazão de colocar em pauta uma nova guerra quente entre tantas guerras ainda derivadas do fantasma da guerra fria que vieram depois dessa da Coreia.
Esse gás é uma metáfora da necessidade do homem tornada ganância. Um instrumental da linguagem beligerante, bradando em nome de uma nação e de supostos direitos inalienáveis de soberania. Colidem na verdade na arena dos interesses econômicos, ou seja, interesses nem na sombra, nem escusos, apenas deixados de lado diante da utilização de bélicas fake news.
E a liberdade de expressão, esse primordial caldo da cultura, a sopa elementar da consciência — é a primeira que vai para o freezer da censura, prisão ou morte — repito, estarei sempre na fila dessa sopa e a minha resposta será sempre a mesma, quente ou fria eu tomaria, quanto à guerra, me sirvo de Oswald: Chega de doidice armada!
Notas e links:
[1] – Roberto Schwarz (Viena, Áustria, 1938 –) crítico literário e ensaísta, A carroça, o bonde e o poeta modernista, pág. 12, do livro Que horas são? Ensaios↩︎
[2] – Francisco de Goya (Fuendetodos, Espanha, 1746 – Bordeaux, França, 1828) pintor e gravador
Édouard Manet (Paris, França, 1832 – Paris, França, 1883) pintor
Pablo Picasso (Málaga, Espanha, 1881 – Mougins, França, 1973) pintor, escultor e artista plástico
Entre as pinturas 3 de maio de 1808 (1814), de Francisco de Goya, A Execução de Maximiliano (1867), de Édouard Manet, e Massacre na Coreia (1951), de Pablo Picasso, estabelece-se uma linhagem visual da violência de Estado: do horror ainda humano e individualizado em Goya, passando pela frieza burocrática em Manet, até a desumanização alegórica e universal da guerra moderna em Picasso↩︎
[3] – Guerra da Coreia – 25 de junho de 1950 – 27 de julho de 1953 – Obras Completas de Oswald de Andrade (São Paulo, SP, 1890 – São Paulo, SP, 1954) escritor e ensaísta e, Vol. 10, pág. 106/107 – Texto da sua coluna de 2 de julho de 1950, 3 Linhas e 4 Verdades na Folha da Manhã, que depois se tornaria o jornal Folha de São Paulo↩︎
[4] – Josef Koudelka (Boskovice, Tchecoslováquia, 1938 –) foi o fotógrafo que em 1968, fotografou a invasão de Praga com imagens diretas e urgentes, captando o choque entre tanques e vida cotidiana. Publicadas anonimamente à época, suas fotos tornaram-se símbolo visual da repressão à Primavera de Praga.↩︎
https://www.magnumphotos.com/newsroom/josef-koudelka-invasion-prague-68
[5] – Dr. Fantástico ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba Atômica ou o título original em inglês, Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, de 1964. Quem não viu, veja, vale a pena até rever esse filme de Stanley Kubrick (Nova York, EUA, 1928 – St Albans, Inglaterra, 1999) · cineasta, roteirista e produtor↩︎


