Dando ponto sem nó em pingo d’água
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SIM Crônica 27 [Publicado anteriormente em 27/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem com o grafite A menina e o balão de Banksy, menino do Le Ballon Rouge, de Lamorisse, uma foto de escada de Kiarostami e Abóbora de Yayoi Kusama
PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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ONTEM AO VER O FILME LE BALLON ROUGE, de Albert Lamorisse, de 1950, em que o balão vermelho visualmente sobressai, encanta e comove na sua relação com um menino. Este o liberta e o balão torna-se seu amigo.
O Balão Vermelho [1] é um filme sem diálogos, daqueles que apenas a imagem basta, claro que há música, a eterna companheira do cinema.
Ao terminar lembrei do Mingo, Ah!, ele já deve ter visto, então enviei o link com a pergunta: — Você já viu este? A resposta ligeira foi: — Sim! Fico um tempo sem ver e depois volto pra ver de novo. É o filme que eu apresentava para as crianças surdas quando comecei meu trabalho com surdos em 2001.
E ele continuou dizendo que sempre bebe dessa fonte e que o diretor morreu numa filmagem no Irã. Puxa! Eu exclamei. Ele continuou: — Abbas Kiarostami [2] assistiu ao filme e fez a revolução no cinema iraniano, quiçá no mundial.
Exclamei novamente: — OPA! muito bom isso… vai juntando os pontos, né? Que bom que os pontos são infinitos! Ele respondeu: — Sim, a crônica tá por aí nas pequenas partículas! Aí um neurônio disse ao outro sinapticamente — Pronto, lá vamos nós de novo, queimar a mufa pra ligar os tais pontos pra ele! E eu disse ao Mingo: — Já tenho uma crônica!
Pois… em um grão de poeira suspenso em um raio de sol, disse Carl Sagan [3] no final de uma frase do livro, Pálido Ponto Azul, fruto da reflexão e de mesmo nome da foto da Terra, de 1990, fotografada pela sonda Voyager 1, na modesta distância de seis bilhões de quilômetros da Terra. Essa foto faz parte de um álbum de família do Sistema Solar.
Depois de lembrar da frase acima, pensei, esse é o ponto! Creio que a vida de todos é um sistema de pontos que vamos ligando uns aos outros, como na brincadeira infantil do liga-liga, de uma hora para outra, formamos nossas constelações.
Similar ao macrocosmos que nos inunda o olhar, não mais na cidade de São Paulo, infelizmente, mas ainda em inúmeros lugares do Brasil e principalmente no deserto de Atacama no Chile, estrelas sem fim! Pontos luminosos que são sóis, são galáxias, são planetas refletindo luz em contínuos feixes de tardios anos-luz reduzidos a pontos em nossos céus.
Similar ao microcosmo em que habita esse vírus que agora nos atazana e nos atemoriza, dos microrganismos que nos habitam, habitam o que comemos, o ar que respiramos, a água que bebemos e partículas subatômicas no quântico princípio da incerteza que habita cada grão de poeira ou se preferirem, num grão de areia dessa imensa ampulheta espaço temporal que é o Universo.
Eu poderia no ligue ligue da minha escrita estrambólica, ligar o Le Ballon Rouge ao Girl with Balloon de Banksy [4] — grafite de uma série começada em 2002 em Londres, a qual posteriormente usaria essa imagem ingênua para apoio de campanhas de cunho político — mas não irei explorar esse ponto, ainda.
Volto ao ponto crucial do início dessa crônica. Por ironia do destino, Lamorisse morreu em um acidente de helicóptero durante as filmagens do documentário O vento dos amantes em 1970. Lamorisse que levou com a leveza, não exatamente um balão vermelho ao Irã, mas a infância, o olhar da infância sobre a vida.
Esse olhar foi entranhado em Kiarostami que depois da sua morte em 2016, em Take Me Home, um filme de 15 minutos, foi montado pelo amigo e também diretor iraniano, Adel Yaraghi, com imagens de uma viagem que Kiarostami havia feito pela Itália.
Um menino que mora num povoado no alto de uma montanha, deixa sua bola de futebol ao relento, essa ganha vida e desce pelas escadas ao ritmo de jazz. O menino tenta encontrá-la, mas numa segunda vez, a perde. E a bola continua descendo inúmeras escadarias em P&B enquadradas por Kiarostami.
Esse filme póstumo, no liga-liga da vida de Kiarostami, religa-se não só ao Le Ballon Rouge, uma ligação afetiva sobre o companheirismo na infância − mesmo com um objeto inanimado que ganha vida no faz-de-conta poético de ambos os filmes — mas liga-se também ao seu primeiro longa-metragem, O Viajante de 1974, cujo protagonista neste ponto de encontro fílmico são… imaginem só, um menino apaixonado pelo futebol.
Alguns críticos ainda querem ligar um ponto a mais relacionando com a icônica escada do Encouraçado Potemkin Eisenstein. Cada um tem um ponto de vista diferente, mas escadaria por escadaria, menino morto na cena russa, serviria apenas de contraponto como fez Banksy, pois Kiarostami também inseria sob a lírica infantil, críticas as mazelas do Irã, inclusive grande parte de seus filmes são franco-iranianos para driblar a censura em seu país.
E se quem conta um conto aumenta um ponto, vou de Yayoi Kusama [5] e suas bolinhas, pois não como as galinhas pintadinhas de Angola, nem tubarões baleias que singram os mares de pijama e muito menos joaninhas e suas túnicas de bolinhas.
Talvez seja maluquice e não macaquice do macaquinho preso ao pontilhado na tela Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte de Seurat [6] onde as cores se formam na junção ótica dos pontos de diversas cores, geralmente as cores básicas e/ou suas variações e/ou concentrações.
Ou então — em outro plano — de Kandinsky [7] em Ponto – Linha – Plano que afirma que o ponto geométrico é um ser invisível, talvez seja como bater o ponto em ponto facultativo ou para muitos, encontrar o famigerado Ponto G!
Assustador são os pontos ganhos na carteira de motorista perdida; os da pontuação gramatical que tanto me assombram ou seriam os poéticos pingos, que são gotas espichadas em exclamações de chuva que mergulham em poças de água em ritmados anéis concêntricos.
Seria impressão ou ponto pacífico, classificar como bullying o trote aplicado no estagiário ao entrar no meu escritório de designer gráfico? A gente pedia ao fulano ligar para o fotolito requisitar um pacote de retícula 70% em pó. Já combinado, respondiam a ele que estava em falta e perguntavam se servia a de 50%, que os pontos eram um pouco maior. Uma vez o estagiário perguntou, maior quanto e de bate-pronto disseram: − 20%, né?
Gastei esses pontos acima pra não voltar a esse ponto novamente com outra crônica pontual — não de pontualidade, que essa tá atrasada em um dia — e parar na 1.0, pois seria um ponto crítico ou quase um ponto fora da curva, de olhar pro céu, ver um ponto e dizer: — É um pássaro, um avião, não, não é o super-homem!
Seria então o balão vermelho de Lamorisse? O coração da menina de Banksy? Ou ainda a bola de futebol de Kiarostami, que ripa na chulipa e pimba na gorduchinha, que subiu, subiu e bateu no urubu da sua sorte, como numa narração de Osmar Santos.[8]
Agora que atingimos o ponto de ebulição, informo que a página, Nem Toda Situação é Crônica, dará pontos imaginários as suas curtidas. POSITIVO, 5 pontos, CORAÇÃOZINHO, 15 pontos, UAU, 30 pontos. ENFEZADINHO e TRISTE – 30 e – 45 pontos, respectivamente.
Mas como aqui os pontos são dados sem nó em pingo de água, coloquemos os pingos nos is e vamos pontuar 2020. Um ponto de inflexão que nos obrigou a reflexão de determinados pontos capitais e ponto final! Ponto final?
Claro que não, afinal… depois dos três pontinhos o que nos espera? Enquanto espera vá no sapatinho, ponto a ponto com Ponto de vista do Casuarina — Às vezes o ponto de vista tem certa miopia, pois enxerga diferente do que a gente gostaria. Não é preciso por lente nem óculos de grau, tampouco que exista somente um ponto de vista igual. O jeito é manter o respeito e ponto final! [9]
Dedicada ao amigo Mingo essas costuras palavreadas, alinhavando tantos pontos em comum que nos ligam numa intrincada e deliciosa trama músico-visual.
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Notas e links:
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[1] – filme Le Ballon Rouge ou O Balão Vermelho de 1950 de Albert Lamorisse (Paris, França, 1922 – Mar Vermelho, 1970) · cineasta, roteirista e produtor↩︎
[2] – Abbas Kiarostami (Teerã, Irã, 1940 – Paris, França, 2016) · cineasta, poeta e fotógrafo, não é o único que criou uma relação com o filme de Lamorrisse, outros cineastas iranianos iriam colocar nos protagonistas, sejam meninos ou meninas esse olhar contrapontístico da infância em relação a realidade nua crua do Irã. No caso de Kiarostami, numa estética quase neo-realista italiana, propõe uma poética contundente, inclusive assinou o roteiro do filme de Balão Branco do diretor iraniano Jafar Panahi, que foi seu assistente no filme Através das Oliveiras↩︎
[3] – Vale a pena ver a foto da Nasa que Carl Sagan (Brooklyn, Nova York, EUA, 1934 – Seattle, EUA, 1996) astrônomo, astrofísico e divulgador científico no livro, Pálido Ponto Azul de 1994, tomaria como base para refletir sobre essa imensidão e o pequeno ponto onde nos encontramos. No link, um pouco da história e a foto da Terra, de 1990, fotografada pela sonda Voyager 1↩︎
https://canaltech.com.br/…/palido-ponto-azul-nasa…
[4] – Banksy (Bristol, Inglaterra, c. 1974 –) · artista urbano e ativista (identidade mantida em anonimato)
Banksy polemiza e faz crítica ao mercado da arte com dispositivo escondido na moldura do Girl with Balloon ou Menina com Balão que foi a leilão e vendido por 1,04 milhão de libras em 2018, no primeiro link a história com mais detalhes e no segundo link o vídeo de Banksy montando a obra com o triturador na moldura↩︎
[5] – Yayoi Kusama (Matsumoto, Japão, 1929 –) artista contemporânea ficou conhecida nas artes visuais pelas suas infindáveis bolinhas, mas o seu trabalho é mais que isso↩︎
[6] – Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte de Georges Seurat (Paris, França, 1859 – Paris, França, 1891) · pintor e desenhista que foi um pintor francês pontilhista↩︎
https://pt.wikipedia.org/wiki/Uma_Tarde_de_Domingo_na_Ilha_de_Grande_Jatte
[7] – Wassily Kandinsky (Moscou, Rússia, 1866- Neuilly-sur-Seine, França, 1944) pintor e teórico da arte (1866 – 1944), pintor russo, publicou em 1926, Ponto – Linha – Plano quando lecionou na Bauhaus, de 1922 até o seu fechamento em 1933↩︎
[8] – Osmar Santos (São Paulo, SP, 1949 –), locutor esportivo era conhecido como o Pai da Matéria e desenvolveu expressões peculiares para as suas narrações, além da citada: Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha a famosa Parou por quê, por que parou, Um pra lá, dois pra cá, é fogo no boné do guarda, Sai daí que o Jacaré te abraça, garotinho, No carocinho do abacate ai garotinho, Vai garotinho porque o placar não é seu, Tiro-lirolá Tiro-lirolí. E o emocionante grito de gol: E que GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL. Infelizmente sua carreira foi interrompida em 1994, quando sofreu um grave acidente de carro, comprometendo a sua fala, desde então dedica-se a pintura. Fica aqui a lembrança e homenagem ao grande radialista↩︎
[9] – Ponto de vista música do álbum Trilhos/Terra Firme de 2011, o primeiro a trazer composições inéditas do grupo de samba Casuarina. No link, letra completa e vídeo da música no YouTube↩︎


