Que tudo mais vá pro inferno!
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SIM Crônica 26 [Publicado anteriormente em 24/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem com elementos de cena do filme Coração de Cristal de Werner Herzog – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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(SOBRE A COR 3)
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NA LIMPEZA DA ÁREA EXTERNA DO GALPÃO ACHAMOS uma bolinha de gude, bem diferente, acho que era tão rara quanto a olho de gato de quando eu era menino. E tinha olhos e olhos de gato, alguns tão fascinantes, tanto quanto a própria infância.
O vidro sempre causou esse fascínio em mim. O segredo do cristal rubi no filme de Werner Herzog, Coração de Cristal,[1] aquela coisa do soprador de vidro, forjada a fogo e fôlego, posteriormente juntaram-se ao segredo do vidro do Murano. Uma amiga importava murano e eu permutei por um catálogo, um belo vaso azul com dourado que durou duas semanas e três dias, na sala da minha mãe, nas mãos da nova faxineira.
O que era vidro se quebrou, como diz a segunda parte da quadrinha popular Ciranda Cirandinha, por demais conhecida: — O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou!
Porém o meu amor pelo vidro se intensificou com um vidro simples, o vidro verde, que é considerado transparente, mas não totalmente. Se olhado nas bordas veremos a condensação do verde no vidro, embora a luz ainda transpasse por ali. E isso eu explorei numa das mesas de centro em que dei um nome que considero poético num móvel, mesa-veio-d’água,[2] onde o filete brilhava sob qualquer luz incidindo sobre ele em reflexos erverdeados no chão.
Entretanto, de incomparável fascínio, são os vitrais das grandes catedrais góticas, tanto a de Chartres quanto a Notre-Dame de Paris. Esta última não vive da fama cantada por Victor Hugo em seu livro. Além de Quasimodo [3] e das gárgulas, infiltra-se a luz do sol pelas rosáceas e seus vitrais laterais, que não são apenas fontes de iluminação, mas de um espanto ainda sem nome. Ainda bem que os vitrais saíram praticamente ilesos do incêndio.
Perceberam que estamos falando quase só da cor luz, da luz transpassada pela vidraria que a coloriza e de como, a partir dela, também dependem as frequências luminosas que refletem nos objetos a que chamamos cores, por isso a conclusão de Francis Bacon: [4] Todas as cores concordam no escuro. Seria esse nosso destino? A opacidade para obtermos algum tipo de concordância?
Parece que não, concordo com Maiakovski, Brilhar pra sempre, brilhar como um farol, brilhar com brilho eterno, gente é pra brilhar, que tudo mais vá pro inferno, este é o meu slogan e o do sol! E aí se instala uma polêmica da tradução, citarei uma apenas de que não há gente no poema original, então gente é pra brilhar é uma recriação do tradutor.[5]
E Caetano [6] aproveita essa parte do poema e completa na nossa realidade: Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome!
Nem pra morrer na praia da pobreza sem conhecer a imensidão do mar numa vida mais plena e ter como Tim Maia: [7] Ter na vida algum motivo pra sonhar ter um sonho azul, azul da cor do mar!
Infelizmente esse sonho azul se perde em politicagens há muito tempo e na pulverização polarizada dos partidos, cada um defendendo apenas suas cores, onde Drummond em A Cor de Cada Um, num texto curto e delicioso diz muito sobre isso: Na República do Espicha-Encolhe cogitava-se de organizar partidos políticos por meio de cores. — Esse é o melhor — proclamaram uns tantos. — Sendo resumo de todas as cores, é cor sem cor, e a gente fica mais à vontade. Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, o arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adotariam uma cor se recebessem antes 100 metros de tecido da mesma cor…[8]
Nessa altura ou melhor, na pequena extensão da crônica eu peço desculpas pelo excesso de citações, porque ainda tem mais e sigo anunciando a (SOBRE A COR 4).
Em O Guardador de Águas, Manoel de Barros [9] recomenda: Assim, Ao poeta faz bem Desexplicar — Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes. E nesse acende e apaga vagaluminesco, proponho irmos aos extremos das auroras pra desexplicar algumas coisas.
O mesmo sol que tem o slogan que o poeta russo nas suas fulgurações, os ventos solares proporcionam interagindo com o campo magnético da Terra, o fenômeno que no hemisfério norte é conhecido como aurora boreal, nome dado por Galileu Galilei em 1619, em referência à deusa romana do amanhecer, Aurora, e Bóreas, deus grego, representante dos ventos do norte. No hemisfério sul, James Cook batizou de aurora austral.
Em vários tons, talvez predomine o verde, efeito fotoelétrico das auroras boreais dos países nórdicos contrapondo-se ao de Drummond na Morte do Leiteiro… Da garrafa estilhaçada, no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue… não sei. Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora.[10]
Talvez descrever um gosto de algo seja mais difícil ainda, fazemos analogias, leite se parece com o quê? Leite UAI! E se quase todos mamaram em suas mães ou de leite, desse deleite infantil, poucos se lembrarão do gosto e/ou do gostar daquela época.
Voltando a vaca da cor fria, o nomear de cores é cultural, sim eu sei que blá-blá-blá, é manjado falar disso, que os esquimós têm trocentas designações para os brancos da neve, mas é fake! Franz Boas [11] — publicou que em inuit, idioma falado pelos esquimós tinha quatro — um linguista amador, Whorf achou pouco e esticou para sete, daí foi um pulo a informação rodar o mundo pulando pra casa de centenas. Além do mais não é para o tipo de cor branca da neve, é para diferenciar o estado da neve.
Mas se você for num salão de beleza e pedir para alourar as madeixas, cada tom terá um nome comercial especifico, porém em tempos de Corona, parece que as loiras na quarentena estão diminuindo e as más línguas de sempre sibilam de que brotam cabeleiras bicolores e as raízes nevadas grassam sem graça nenhuma em inúmeros cucurutos e não apenas nos femininos.
O mesmo se dará se for pedir um bege numa parede, quem te atender vai nomear vários para você, muitos deles de acordo com os fabricantes de tinta que querem exclusividade e outros mais que compõe a tabela dos neutros junto aos tons cinzentos, que são outros quinhentos…
Esse fator cultural se espelha nas cores da tradição local, muitas vezes derivam das roupas, mas apenas quando a cultura local sobrevive a massificação da globalização, seja no corte, modelo, tecidos e cores, embora desde muito tempo a moda e outras indústrias, aprenderam a explorar as etnicidades ao seu favor e industrializam costumes se apropriando de diversas culturas num catálogo geralmente artificial, remetem as etnias que se apropriaram.
Por outro lado, se há a predação cultural, há as vezes uma troca, troca até com troco, mas somente os pesquisadores podem nos dar uma ideia dos prós e contras. O colorido carnaval de diversas comunidades, Brasil confetes afora, tem esses matizes, assim como o bois-bumbás amazonenses de Parintins, Caprichoso e Garantido em duas duplas de cores tradicionais e/ou do botos no Pará.
Se abrimos o guarda-chuvica… zinho colorido (se me permitem essa licença prévia), entraremos no eletrizante ritmo do frevo. Enquanto as bandeirinhas coloridas de papel de seda das festas juninas, que as simbolizam tão bem, cobrem a perda sofrida pela correta proibição dos balões, que apesar da beleza luminosa, causaram inúmeros incêndios urbanos e rurais e que ambas as tradições, bandeirinhas e balões se espelharam na obra de Alfredo Volpi e de Alberto da Veiga Guignard [12] respectivamente.
Com a mesma seda colorida colada com cola de pão nas varetas de bambu, é só esticar a linha 10 da pipa com a sua extensa rabiola e… Pipa? Tá-tá-tá!, pelo Brasilzão afora e fora de fios de eletricidade: quadrado, papagaio, maranhão, curica, cangula, casqueta, chambeta, morcego, lebreque, coruja, tapioca, bebeu, arraia, raia, pandorga, gaivota, cafifa, estilão, barrilete, etc. e põe etc. nisso, UFA!, a lista é grande!
Vamos soltar cada qual sua pipa na diversidade dos céus azuis, sobre os diversos tons de verdes das matas que nos restam, nos amarelos ouro de nosso brilho forjado dia a dia, porque como disse o poeta russo, gente é pra brilhar, que tudo mais vá pro inferno!
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Notas e links:
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[1] – Coração de Cristal, filme de 1976, de Werner Herzog (Munique, Alemanha, 1942 – ), cineasta, roteirista e escritor, baseado na lenda Bavariana do profeta Mühlhias. Situou o filme no século XIX, numa cidade da Bavária que vive às custas da fabricação de vidros-rubis. Com a morte do mestre mentor desses vidros, o segredo da fabricação se perde. A trama se desenrola entre o vaticínio de um profeta da região e uma possível descoberta do segredo da fabricação desse vidro. Segue link do trailer do filme:↩︎
A história do cristal de Murano começou em Veneza, na Itália. Segredo de família passado de geração para geração que em 1291 iria se iniciar um novo capítulo. Havendo duas versões para o exílio dos cristaleiros para a ilha de Murano, na costa de Veneza. A primeira de ordem prática zelava pela prevenção de incêndios nas construções de madeira em Veneza, medo derivado das altas temperaturas necessárias para a fundição do vidro e a maior parte. E a segunda, o confinamento das famílias de vidreiros na ilha visava impedir que o conhecimento da técnica permanecesse em segredo
[2] – A mesa de centro do Galpão Contemporâneo, a Veio-d’Água — foi idealizada por mim, Paulo Lai Werneck, com a base totalmente de vidro — que logo ganhou a versão totalmente de madeira, exceto o vidro de 9 mm de espessura e 13 cm de altura e o comprimento variando de 1,50 a 2,20 m↩︎
(colocar o link)
[3]– A catedral de Chartres, também é uma Notre-Dame, isto é, de Nossa Senhora. Sua construção foi iniciada em 1145 e terminada em 1221. Em 1194, foi parcialmente reconstruída após um incêndio. Tem mais de 150 vitrais, a maior parte do século XIII. A de Paris, mais conhecida apenas por Notre-Dame, iniciada umas décadas antes, 1163 não que fosse necessário, mas foi imortalizada pelo romance de Victor Hugo (Besançon, França, 1802 – Paris, França, 1885), escritor, poeta e dramaturgo, de 1831, O Corcunda de Notre Dame cujo nome é Quasimodo. E as gárgulas citadas tem a função de escoar as águas, mas ganharam outros significados↩︎
[4]– Abri essa nota para que não haja confusão sobre o autor da frase Todas as cores concordam no escuro, é de Francis Bacon (Londres, Inglaterra, 1561 – Londres, Inglaterra, 1626), filósofo, e não de Francis Bacon (Dublin, Irlanda, 1909 – Madri, Espanha, 1992), pintor.↩︎
[5] – Augusto de Campos (São Paulo, Brasil, 1931 –), poeta e tradutor
Haroldo de Campos (São Paulo, Brasil, 1929 – 2003), poeta, crítico e tradutor
Vladimir Maiakóvski (Bagdádi, Geórgia — Império Russo, 1893 – Moscou, URSS, 1930), poeta↩︎
A polêmica que não entrarei no mérito é sobre a tradução de Augusto de Campos do poema A Extraordinária Aventura Vivida por Vladimir Maiakovski no Verão na Datcha de 1920 do poeta russo Maiakóvski (1893 – 1930). O livro foi organizado por Boris Schnaiderman, com traduções dos irmãos Campos, Augusto e Haroldo. Segue à crítica a tradução do poema em questão.
[6] – Caetano Veloso (Santo Amaro da Purificação, Bahia, Brasil, 1942 –) cantor e compositor
Erasmo Carlos (Rio de Janeiro, Brasil, 1941 – 2022), cantor e compositor.
Roberto Carlos (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, Brasil, 1941 –) cantor e compositor↩︎
Essa tradução gerou duas músicas brasileiras, a de Caetano Veloso, Gente do álbum Bicho de 1977, ao vivo no segundo link, e a canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Quero Que Vá Tudo Pro Inferno do álbum Jovem Guarda com gravação de Roberto Carlos de 1965
[7] – Tim Maia (Rio de Janeiro, Brasil, 1942 – Niterói, Brasil, 1998), cantor e compositor brasileiro. Azul da Cor do Mar música de Tim Maia do álbum Tim Maia de 1970:↩︎
[8] – Texto de Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Brasil, 1902 – Rio de Janeiro, Brasil, 1987), A Cor de Cada Um no livro de mesmo nome de 1997. Segue abaixo a continuação do texto interrompido na crônica: … que não desbotasse nunca. − Justamente o ideal é a cor que desbota − sentenciou aquele ali. — Quando o Governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece. E pode-se pintá-la da cor do sol nascente. Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor↩︎
[9] – Do livro O Guardador de Águas, de Manoel de Barros (Cuiabá, Brasil, 1916 – Campo Grande, Brasil, 2014), no capítulo Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada, seção V: Escrever nem uma coisa, Nem outra — A fim de dizer todas — Ou, pelo menos, nenhumas; Assim, Ao poeta faz bem Desexplicar — Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes↩︎
[10] – Poema de Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Brasil, 1902 – Rio de Janeiro, Brasil, 1987), A Morte do Leiteiro do livro A Rosa do Povo de 1945↩︎
[11] – Franz Boas (Minden, Alemanha, 1858 – Nova York, Estados Unidos, 1942), um dos pioneiros da antropologia moderna, em 1881 começou a estudar a relação entre o ambiente e os esquimós, iniciando um estudo antropológico sobre a língua Inuit e os seus costumes↩︎
[12] – As bandeirinhas das festas juninas aparecem de forma recorrente na obra de Alfredo Volpi (Lucca, Itália, 1896 – São Paulo, Brasil, 1988), como ritmo cromático e estrutura construtiva, enquanto os balões — com sua leveza e lirismo — ecoam na pintura de Alberto da Veiga Guignard (Nova Friburgo, Brasil, 1896 – Belo Horizonte, Brasil, 1962), sobretudo em suas paisagens aéreas e poéticas de Ouro Preto.↩︎


