Rimbaud o iluminado contrabandista de poesias
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SIM Crônica 24 [Publicado anteriormente em 20/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: montagem sobre aquarela de Paul Klee de 1920, Jardins do Templo – PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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(SOBRE A COR 1)
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RIMBAUD RELACIONOU A CADA VOGAL UMA COR: A negro, E branco, I rubro, U verde e O azul. E estende essa ideia visionária poema afora ou se quiserem, poema adentro!
[1] Excepcionalmente iniciamos com uma nota sobre o parágrafo acima só para o número não ficar no abre do texto, mas sigamos em frente:
Conheci uma mulher mais velha, na fila do caixa de uma livraria, na época eu era ainda um adolescente. Ela estava comprando o livro de Laurence Sterne, vi de soslaio em sua mão parte do título A Vida e as Opiniões do Cavalheiro…[2] ela percebeu e olhou pra mim. Eu sorri quando ela perguntou se eu já havia lido, disse não, nem conhecia.
Estava chovendo, mas parecia que logo iria parar; de fato parou e nisso ela saiu da livraria, ou melhor saímos juntos. Ela virou para o mesmo lado que eu. Sorrimos, e ela perguntou se eu morava lá perto, respondi, mais ou menos e ela emendou: — Eu moro descendo a próxima, vamos?
Fomos, na frente do prédio ela me perguntou o que eu fazia, na época eu estava pintando e disse: — Eu queria ser um pintor surrealista, mas estou pintando alguma coisa perto do fovismo, de Matisse, muita cor, muita mesmo!
Ela falou: — Legal! Mas era um legal tão xoxo que no mesmo tom ela completou: — Sou daltônica. Não era para eu ficar, porém fiquei sem graça e disse: ― Ah! Não tem tanta cor assim!
Rimos juntos e nos despedimos, mas não de nossos receios.
Receios infundados, mas evidentes e incômodos receios. As cores e mesmo a escala de cinzas não são percebidas igualmente por todas as pessoas ― no meu caso, talvez eu não quisesse, na época, estar junto a alguém que não pudesse desfrutar do que me era caro naquele exato momento, a cor. E nem ela.
Meu Deus essa crônica era para ser colorida! Quando se fala em cor… Adriana Calcanhoto em sua música cantou: Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores! [3] Muitos falariam, cores de Van Gogh cores, cores de Matisse cores, de Bonnard cores, de Tarsila cores, Volpi cores, Paul Klee cores isso para ficarmos em alguns coloristas (não vou me delongar em notas para esses artistas da cor mais conhecidos).
Se Veronese nomeia o verde Veronese,[4] o que dizer do monocromático azul, o International Klein Blue, criado pelo próprio Klein e de cores mais profundas como um Rothko. Mais um pouco de uma grande lista.
As cores e seus nomes: azul anil, verde bandeira, amarelo ouro, as cores da bandeira do Brasil, o vermelho da Ferrari do Massa, semelhante ao molho de tomate que cobre a pasta, neste caso, a pista.
A cor de burro quando foge que possivelmente abarca todos os cáquis, diferente da cor do caqui que tem cor entre o vermelho e o alaranjado, mas não é nome de cor. E olha que tem uma pá de cores derivadas do mundo orgânico: laranja, rosa, salmão, turquesa, mostarda, ameixa, fúcsia, pêssego, violeta, etc., quase um Pantone [5] natureba, ou seja, da própria natureza.
Aí caímos para os nomes mistos, verde menta, azul petróleo, verde limão, azul cerúleo, etc. Seria uma lista extensa demais, mas não deixemos de lembrar do vermelho sangue, que em certa época quis-se azul.
E o azul intenso desde a antiguidade era difícil de se extrair da natureza, os egípcios utilizavam uma mistura junto a uma pedra semipreciosa, uma rocha metamórfica chamada lápis-lazúli, sendo que se a mistura não fosse exata, o resultado era um azul-esverdeado.
E se para os romanos o azul era ligado à barbárie. Na idade média a nobreza usava o vermelho e os servos é que utilizavam o azul obtido da planta ísatis ou pastel-de-tintureiro — a mesma utilizada pelos ditos bárbaros − que era inicialmente fermentada com urina humana, depois com álcool.
Porém esse azul não tinha a vivacidade da cor azul do lápis-lazúli que na já na pré-Renascença custava os olhos da cara e só aos pintores mais habilitados eram financiados, recebendo sob contrato esse precioso pigmento.
Mas paro por aqui, esse rompante de uma erudição a marretadas para comentar o texto que li hoje de Luiz Bras, Umas meditações pantufas,[6] onde essas pantufas são, nada mais, nada menos, pantufas lápis-lazúli, pronto!
Estaria resolvida a questão da preciosidade da cor que eu quis ressaltar, mas ele vai muito além desta relação inusitada dele com as amigáveis pantufas lápis-lazúlis, provavelmente tão fofas e misteriosas quanto a nuvem-tempo. Entre tantos achados sobre o tempo e o contratempo da quarentena, que é somente lendo, recomendo!
Se Rimbaud ficou com as cores básicas e a dupla que na pintura também são cores, o famoso par, o P&B. Na fotografia vide Cartier Bresson, no cinema vide os filmes noir como o Falcão Maltês. E na TV vide pouca coisa, que TV precisa de cor, a não ser que passem filmes da era P&B como o Gabinete do Dr. Caligari ou O Sétimo Selo de Bergman, ou seja, os P&B, os ditos sem cor.[7]
Peraí, como o papo aqui é cor, pop color, sem tecnicalidades como a árvore de Munsell,[8] Hue (tomou matiz), Chroma (saturação) e Value (luminosidade ou intensidade), falemos de coisas mais engraçadas como o lusco fusco, que é o crepúsculo, o anoitecer que nos dá as estrelas tão caras a Van Gogh e aos astrônomos que as veem bem diferente do que nós.
A furta-cor, que é aquela cor que dependendo de como a luz bate nela, muda de cor, quase uma cor camaleônica. Se pudesse explicaria o que Israel Pedrosa [9] quis dizer sobre a cor inexistente. Não quero estender essa crônica, mas vamulá então, ele explora a dispersão cromática do contraste simultâneo nas cores pigmento. Não ajudou muito, né?
Vamos por parte, colocar uma cor ao lado da outra altera a percepção de cada uma delas, por exemplo: no caso da cor inexistente, uma cor ao lado de um cinza, branco ou mesmo outra cor pode ser colorizada pela primeira e vice-versa, surge então uma cor que não está lá quimicamente como pigmento, é um fenômeno físico-fisio-neurológico.
Xiiiiiiiii, me perdi novamente, o negócio é embarcar no Trem das Cores de Caetano: [10] … O ouro ainda não bem verde da serra, a prata do trem, a lua e a estrela, anel de turquesa. Os átomos todos dançam, madruga, reluz neblina, crianças cor de romã entram no vagão. O oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã e a seda azul do papel que envolve a maçã...
E desembarcar com Rimbaud nessa sinestesia das vogais coloridas, este eterno enfant terrible que contrabandeou suas poesias sabe-se lá de onde, de que rincão da alma as capturou e as abandonou nas suas obras, Uma Temporada no Inferno e Iluminações e foi se enfiar na África, onde Paul Klee escreveu em seu diário: − A cor me possui… Eu e a cor somos um… Sou pintor!
E façamos aqui um adendo, Rimbaud não era exatamente um mercador de armas e ainda pior de escravos. Charles Nicholl, em seu livro Rimbaud na África, os últimos anos de um poeta no exílio analisou os registros das transações comerciais e coloca o ex-poeta — será que Rimbaud deixou de ser poeta? Parece que não! — no ofício de comerciante em que sua facilidade para línguas favorecia o seu contato com diferentes culturas e paisagens e a descoberta de curiosidades até então desconhecidas do europeu.[11]
Charles Nicholl aponta que a narrativa sobre Rimbaud na África foi muitas vezes simplificada. Eventual envolvimento com comércio de armas não teria sido uma prática constante, mas uma entre várias tentativas comerciais, realizadas em territórios já submetidos a sistemas coloniais abusivos e arbitrários, onde o comércio civil, inclusive o de escravos se encontrava frequentemente tangenciado por ações militares. Reduzir esse período à figura de Rimbaud, como a de um mercador de armas apaga e ainda de escravos sem evidências documentais que provem isso é aumentar uma polêmica diante complexidade histórica do contexto e do próprio percurso errático do poeta.
Henry Miller [12] no seu livro de 1946, A Hora dos Assassinos entre tantas reflexões dispara: Também acho que o tipo Rimbaud vai eliminar, do mundo futuro, o tipo Hamlet e o tipo Fausto. Até que o velho mundo desapareça por completo, o indivíduo anormal tende a ser cada vez mais a regra.
E aí sagaz Paulo Leminski,[13] com Poeta Roqueiro arrebenta: Aí vem o primeiro marginal. Vivesse hoje, Rimbaud seria músico de rock. Drogado como o guitarrista Jimi Hendrix, bissexual como Mike Jagger, dos Rolling Stones. Na estrada, como toda uma geração de roqueiros.
Para não me sentir descolorido depois de tanta cor literária, peço licença ao Luiz Bras para calçar suas pantufas lápis-lazúli enquanto preparo o nanquim como um polvo que solta a sua tinta e me esconder nesse subterfúgio.
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Notas e links:
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[1] – Talvez o leitor brasileiro estranhe AEIUO, mas foi nessa ordem que o poeta Arthur Rimbaud (Charleville, França, 1854 – Marselha, França, 1891), coloca no soneto As Vogais, mas no trecho de Alquimia do verbo ele coloca na ordem certa, AEIOU. Há diversas razões, mas estenderia demais as notas, fica para uma outra oportunidade↩︎
Porém para o nosso deleite segue abaixo a tradução de Ivo Barroso, no livro Poesia Completa de Rimbaud, do soneto As Vogais:
A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Um dia hei de dizer vossas fontes latentes:
A, negro e veludoso enxame de esplendentes
Moscas a varejar em torno aos chavascais,
Golfos de sombra; E, alvor de tendas tumescentes,
Lanças de gelo altivo, arfar de umbelas reais;
I, púrpuras, cuspir de sangue, arcos labiais
Sorrindo em fúria ou nos transportes penitentes;
U, ciclos, vibrações dos mares verdes, montes
Semeados de animais pastando, paz das frontes
Rugosas de buscar alquímicos refolhos;
O, supremo Clarin de estridores profundos,
Silêncios a esperar pelos Anjos e os Mundos:
— O, o Ômega, clarão violáceo de Seus Olhos!
[2] – Laurence Sterne (Clonmel, Irlanda, 1713 – Londres, Inglaterra, 1768), escritor
Machado de Assis (Rio de Janeiro, Brasil, 1839 – Rio de Janeiro, Brasil, 1908), escritor
Harold Bloom (Nova York, EUA, 1930 – New Haven, EUA, 2019), crítico literário↩︎
A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Publicado entre 1759 e 1767, em nove volumes. Sterne é apontado como uma grande influência de Machado de Assis, porém Harold Bloom em seu livro Gênios pontua: Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra que contém atmosfera tão original que não permite comparação com qualquer outro texto ficcional, a despeito do débito inicial com Sterne. Há uma reinvenção de Sterne? Talvez seja menos inapropriado sugerir que o brasileiro usa o irlandês para criar uma nova tradição
[3] – Adriana Calcanhoto (Porto Alegre, Brasil, 1965 – ), cantora, compositora e intérprete, em Esquadros ao vivo. A música é do seu álbum Senhas de 1992↩︎
[4] – Paolo Veronese (Verona, Itália, 1528 – Veneza, Itália, 1588), pintor renascentista.
O verde veronese (Veronese green) é um pigmento sintético moderno inspirado na paleta do artista (especialmente seus verdes luminosos), não usado historicamente por ele, mas batizado em sua homenagem pela associação cromática↩︎
Yves Klein (Nice, França, 1928 – Paris, França, 1962), artista plástico e o criador do International Klein Blue
Mark Rothko (Dvinsk, Império Russo — hoje Daugavpils, Letônia, 1903 – Nova York, EUA, 1970), pintor — conhecido por campos de cor profundos e saturados, voltados à experiência contemplativa e emocional
[5]– Pantone é um Sistema de classificação de cores de alcance mundial↩︎
[6] Link do texto Umas meditações pantufas de Luiz Bras — pseudônimo de Nelson de Oliveira (São Paulo, Brasil, 1966 – ), escritor, contista e organizador literário↩︎
O Gabinete do Dr. Caligari , filme mudo expressionista alemão de 1920, do gênero de horror, dirigido por Robert Wiene (Breslau, Império Alemão — hoje Wrocław, Polônia, 1873 – Paris, França, 1938), cineasta, e escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer, abaixo, link do filme legendado
O Sétimo Selo de 1956, de Ingmar Bergman (Uppsala, Suécia, 1918 – Fårö, Suécia, 2007), cineasta e dramaturgo. Assista o trailer deste filme P&B, pena que não achei uma resolução melhor
[8] – Albert Henry Munsell (Boston, EUA, 1858 – Brookline, EUA, 1918), artista, professor e teórico da cor, criador do Sistema de Cor de Munsell e da chamada árvore de Munsell (organização tridimensional de matiz, valor e croma)↩︎
[9] – Israel Pedrosa (Rio de Janeiro, Brasil, 1915 – Rio de Janeiro, Brasil, 2002), artista, professor e teórico da cor, autor dos livros Da Cor à Cor Inexistente (1977) e O Universo da Cor (2003). Quem se interessar sobre o assunto veja as obras de Israel Pedrosa↩︎
[10] – Trem das cores de Caetano Veloso (Santo Amaro da Purificação, Bahia, 1942 – ), canção do álbum Cores, Nomes (1982)↩︎
[11] – Resenha de Angela C. Bernardes do livro de 2007: Rimbaud na África; os últimos anos de um poeta no exílio, de Charles Nicholl (Londres, Inglaterra, 1950 – ), escritor e biógrafo↩︎
[12] – Henry Miller (Nova York, EUA, 1891 – Pacific Palisades, EUA, 1980), escritor↩︎
[13] – Poeta Roqueiro do livro Anseios Críticos 2, livro de 2001 de Paulo Leminski (Curitiba, Brasil, 1944 – Curitiba, Brasil, 1989), poeta, escritor e tradutor↩︎


