O Antes de Mais Nada

O GPS mal-assombrado

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SIM Crônica 19 [Publicado anteriormente em 10/04/20] na página de mesmo nome deste blog

imagem principal: montagem sobre imagem da litogravura de Johann Moritz Rugendas, Capitão do Mato de 1835 – PLW [bricolagens digitais]

imagem destacada: Pena usada para assinar a Lei de Ouro (13 de maio de 1888 – Arquivo Nacional (Brasil). Domínio público. Disponível em: Wikimedia Commons – Athena&PLW [bricolagens digitais]

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SAÍ A NOITE PARA RETIRAR UM REMÉDIO na farmácia na cidade ao lado de Itu, Salto. Quanto à mania de grandeza da cidade, talvez seja mais que folclore sustentado pelo orelhão e o semáforo gigantes.

Não podemos esquecer do sorvete gigante que algumas lojas de badulaques tamanho GGG+ vendem: notas de mentira, canecas, chaveiros… pra resumir, os tradicionais souvenires de uma cidade, em Itu, são no tamanho GG… Gigante.

Porém existe sim uma aura de grandeza que pelo menos a aristocracia daqui sustentava, assim falou o GPS. Cedida aos Bandeirantes como sesmaria dos campos de Pirapitingui e depois Vila. Os limites de Itu, na época do império como Comarca, englobavam Sorocaba, Porto Feliz, Salto, Cabreúva, Indaiatuba, etc.

Foi chamada pelo imperador Dom Pedro I de Fidelíssima, pelo seu apoio a independência. Porém o orgulho se estendeu e se tornou gigante por ter sido o local da Primeira Convenção Republicana e se tornar o berço da República.

E quem diria que seria capital do Brasil por um dia? Foi no dia 15 de novembro de 2017, transferida pelo vice que havia assumido a presidência. Mas não recebeu o nobre título de ser a primeira e única nesse quesito. Anteriormente um presidente interino resolveu mudar a capital em 1989, para Mombaça, no sertão cearense. Sendo que o político em questão ficou conhecido por presidente de Mombaça. Segundo o presidente da vez Itu recebia A honra por ser justamente o local da Primeira Convenção Republicana — aí o ego ituano inflou…

Se de glórias muitos municípios brasileiros carregam em si esse tipo de história de ser história de algo maior no país, a parte inglória se deu que grande parte desse crescimento foi derivado da escravidão. Se você pensa que eu tive o trabalho de compilar esses dados está enganado, como já disse acima, foi o GPS que me falou.

Lembra que eu tinha que ir a Salto? Liguei o GPS e em vez da voz de sempre dizer, SIGA PARA NOROESTE EM DIREÇÃO A… ela disse alterando um pouco o tom: — EI SAI PRA LÁ! Estranhei, mas saí pra lá, afinal eu sei de cor o caminho até Salto, só não sei até a farmácia.

— ESTOU AVISANDO MOÇO, É A ÚLTIMA VEZ QUE EU VOU FALAR, disse a Voz do GPS (doravante denominada Voz). Eu respondi: — Falar o que? Uma voz rouca de homem respondeu: — Vai tocando essa carroça que a conversa não chegou ao cocheiro! Eu ia retrucar, mas a Voz foi mais rápida: — DESCULPE PAULO, SIGA EM FRENTE POR 5,5 KM, NÃO SEI DE ONDE APARECEU ESSE SUJEITO, MAS LOGO EU VOU TOCAR ELE DAQUI! Senti-me lisonjeado dela saber o meu nome, mas logo entendi que todos eles têm todos os meus dados.

Esse sujeito tem nome dona, eu não sou apenas uma voz como você, meu nome é João do Laço Forte, pra senhora, Seu João, disse a gutural voz de homem. A Voz replicou irritada: — AH TÁ, ME CHAMA DE SENHORA, DIZ QUE EU SÓ UMA VOZ E VOCÊ É O QUE? SÓ UMA VOZ TAMBÉM! João logo respondeu: — Desculpe Sinhazinha, não sabia que não era uma Senhora, que ainda era pura, mas entenda criatura, eu era de carne e osso!

SOU PURA VOZ SEU JOÃO, ISSO VOCÊ PODE TER CERTEZA, PURÍSSIMA! disse resoluta a Voz. — João, Sinhazinha, pode me chamar só de João! Eu ia abrir a boca, mas a Voz alertou no tom de sempre: — PEGUE A ROTATÓRIA E SAIA A DIREITA NA SEGUNDA SAÍDA! MAS SEU JO… DIGO JOÃO, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI NO GPS?

Silêncio sepulcral. Não só a Voz estava curiosa; eu era só curiosidade naquele momento — fora o medo desse GPS mal-assombrado. O barulho do carro predominava, e o som, meio que baixinho, tocava Keith Jarrett, Staircase parte 2.[1] Aumentei o volume.

João rompeu num: — Meu Deus isso é piano? Respondi que sim. Ele continuou: — Tinha um desses na casa grande. O Sinhô, pai de Maria Eduarda, quando ia pras paragens de São Paulo me pedia pra guardar a moça. E ela tocava cada coisa, não era tão encaramiolada como essa, mas o som, era esse tipo de som que ribomba na minha mente até agora, porém diferente tinha… tinha… MELODIA, disse a Voz. Mas esse cara sabe tocar? Indagou João. Quem o Jarret? Respondi. Sim… Parece treino… Completou João. É respondi dando risada: De certa forma sim.

Coloquei Innocence [2] e disse escuta só, é o mesmo Keith Jarret no piano, com Jean Garbarek no sax… sax é esse solo… essa melodia que você está ouvindo e o Palle Danielsson no contrabaixo é essa linha de tum tu rum tu tu tum tum e Jon Christensen na batera nem precisa explicar, né? No batuque? João perguntou. Ééé… respondi acompanhando a música. Virgem Maria!, agora sim... o sax também éPaulo de Deus o que é isso? Lascou João entusiasmado. Pois é, eu disse e quando fui completar… — É A MINHA MÚSICA, secundou a Voz. Sua? Perguntou curioso o João. MINHA PREFERIDA… disse tímida a Voz…

Mas emendou a Voz — Ela era bonita? Quem? João devolveu. A voz respondeu ainda mais tímida, mas falou: — MARIA EDUARDA… João respondeu naquele tom profundo, parecia um Barry White das antigas: — Não, ela não era bem apessoada assim, mas a sua voz era uma espécie de doce de goiaba, era igual a sua, Voz!

Voz quase engasgou dizendo: — IGUAL A MINHA COMO? — Assim doce! Disse João. A voz riu e emendou fazendo uma pergunta pra mim: — PAULO, DOCE DE GOIABA É BOM? Ô se é, quem não gosta de uma goiabada? Eu respondi perguntando e completei em seguida: — Se for em calda, humm, é mais gostosa ainda!

A Voz não perdeu tempo: — É EM CALDA, JOÃO? Quase deu pra ver João puxando o ar e limpando a garganta: — Ahrram! Ahrram! Claro que é em calda minha flor do campo! Foi exatamente isso que eu queria dizer.

O silêncio baixou total de novo, mas era um silêncio meloso, rompido novamente por João, que começou a contar a sua triste história.

Bom no laço, por isso a alcunha, Laço Forte… foi libertado da escravidão ainda moço, mas sua família não. O Sinhô o transformou em capitão do mato. João tornou-se aos olhos do pai um traidor, mas nunca a sua família pode saber da verdade, pois João sofreu ameaças que punham em risco os entes queridos o obrigando a aceitar a função e o pior, a ficar calado.

Mas seu outro infortúnio foi, ou melhor, sua perdição foi Maria Eduarda, sua voz de doce de goiaba em calda e seus dedos ágeis ao piano. Era como se ele estivesse enfeitiçado, depois descobriu que isso era paixão, paixão que a princípio parecia controlada, mas a força era descomunal, igual a moenda de cana do engenho do patrão.

O Sinhô era rígido, quase impiedoso, isso o mantinha no seu lugar. Mas não por muito tempo. Justamente no dia da Proclamação da República, o Sinhô estava na cidade na casa do seu cunhado, aguardando as ordens que chegariam da Província de São Paulo.

Nada pôde fazer, João foi enlaçado por Maria Eduarda, sua voz escorrendo pelos seus ouvidos o tirou do sério, João fugiu de todos os compromissos assumidos com o Sinhô e foi capturado pela sinhazinha naquele momento a capitã da casa grande no banquinho do piano. Assumiram uma posição em que Maria Eduarda, gemia e tocava piano ao mesmo tempo.

Ao se ver prenha, Maria Eduarda implorou ao pai para estudar piano na Europa. O Sinhô a mandou para São Paulo, era mão de vaca. E numa hora que o segredo de Maria Eduarda veio a luz, pegou os dois de surpresa.

João e o Sinhô no salão principal da casa grande, cada um numa janela, viu descer Maria Eduarda com o bebê no colo, o mulato Joãozinho. A ideia de Maria Eduarda era pedir clemência ao pai, mas esse ao olhar para o pequeno, olhou imediatamente para o João e pegou o revólver que sempre deixava na mesa.

João abriu os braços para dizer que amava Maria Eduarda e principalmente para mostrar que estava desarmado, de peito aberto levou um tiro bem no coração e… — SIGA EM FRENTE, disse a Voz. E João respondeu: … e fim! Acabou! A Voz respondeu: — NÃO ACABOU NÃO JOÃO SIGA EM FRENTE! Quase num grito de libertação João exclamou: — Eu amo essa Voz! — ENTRE A ESQUERDA, NÃO, NÃO, A DIREITA, SIGA EM FRENTE A DIREITA, MAIS PRA ESQUERDA ISSO, ESQUERDAAAAAAAA NA RUA 15 DE NONONO…VEEEEMBROOO! Disse a Voz num tom suspeito.

− O SEU LOCAL ESTÁ A DIREITAAAAAA, VOCÊ ESTÁ CHEGANDO… TÁ CHEGANDO? EU TÔ CHEGANDO! Gemeu a Voz quase ofegante. João Barry White secundou: — Tô chegando também meu doce de goiaba em cal... A Voz emendou: — DAAAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaa! Logo após a Voz disse relaxada: — VOCÊ CHEGOU AO SEU DESTINO… ESTÁ PROCLAMADA A REPÚBLICA!Eu queria rir, mas apenas sorri, largo… Quando eu chego no local, costumo desligar o GPS, não o fiz. Quieto coloquei minha máscara, peguei o frasquinho de álcool em gel e desci para pegar o remédio.

Voltei, entrei no carro, tirei a máscara com cuidado, a depositei num saco plástico e dei mais uma lambuzada com o álcool em gel nas mãos. Com o GPS ainda ligado arrisquei: Voz, vamos pro Galpão? Ela respondeu: — VAMOS SIM! SIGA NA DIREÇÃO SUDESTE E ENTRE A DIREITA NA RUA 9 DE JULHO! Ao entrar na Rua 9 de Julho João disse: — SIGA EM FRENTE, AO PASSAR PELO ENGENHO NOVO SIGA SEMPRE O TROPEL DE MULAS E VOCÊ CHEGARÁ AO SEU DESTINO! Silêncio total!

Tocando Starman [3] os dois caíram na gargalhada, eu sorri, mas o sorriso se fechou quando João disse: — Essa é boa, gostei da sua seleção, bem eclética! David Bowie, não é? Não acreditei no que ouvi, ele usou a palavra eclética e perguntou se era o David Bowie, perguntei atônito: — Como você sabe? João respondeu: — A Voz me disse que você sempre ouve essa e ainda como se não bastasse, põe pra repetir nvezes + 1 vez… Eu estou de boa, tão pouco tempo aqui e já aprendi um bocado. A Voz não é demais, pediu pra eu ficar, posso ficar?

Respondi: — João, fique se quiser amigo, aqui você é bem-vindo, não precisa nem pedir, mas me diga uma coisa, essa coisa de voz de goiaba em calda… Ele me interrompeu com seu vozeirão — Cantada né, nunca usou? A Voz entrou no meio e disse: — SEU BOBO! SEU BOBO NUNCA USOU… VÊ SE PODE! João tentou consertar: — Tô brincando querida, o que é isso minha calda em voz? SEU, SEU… o GPS travou. Ainda bem que daqui eu sei voltar.

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Notas e links:
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[1] – Staircase part 2 do álbum Staircase de 1976 de Keith Jarrett (Allentown, Pensilvânia, EUA, 1945 – ) pianista e compositor de jazz↩︎

[2] – Keith Jarrett (Allentown, Pensilvânia, EUA, 1945 – ) pianista e compositor de jazz
Jan Garbarek (Mysen, Noruega, 1947 – ) saxofonista
Palle Danielsson (Estocolmo, Suécia, 1946 – 2024) contrabaixista
Jon Christensen (Oslo, Noruega, 1943 – 2020) baterista
Do álbum duplo, Nude Ants, a música Innocence↩︎

[3] – Starman de David Bowie do disco, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars de 1972↩︎

Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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