Memória apagada num poema escada
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SIM Crônica 18 [Publicado anteriormente em 08/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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O EMÍLIO ENTROU SOZINHO NA PRIMEIRA VEZ e deu o sinal. Logo estávamos todos dentro do que sobrara do casarão bem ao lado da Casa das Rosas, em plena avenida Paulista. Era meio que surreal estarmos lá.
Por fora, a construção assobradada ainda aguardava a demolição: parte do lado direito superior, inclusive a frente do mesmo lado, já havia ruído junto ao telhado parcialmente desfeito.
Bastava escalar a grande brecha na parede lateral oposta a Casa das Rosas [1] e entrar pela parte de cima onde ainda havia sobrado o chão como se fosse um mezanino no lado dessa parede lateral com um lavabo e que seguia a parede traseira da casa dando num outro banheiro. Nada que um pé aqui, mão aqui e outro pé acolá e que um puxão de mão amiga não resolvesse.
Mesmo quase sem teto, a única luz advinda da avenida era um facho obíquo que adentrava pelo grande buraco e de uma fresta de janela da parede frontal, iluminando teatralmente a parede contígua. Permaneciam no banheiro, uma banheira e uma pia no chão ainda não visíveis de fora por causa de uma parede pela metade, enquanto o vaso sanitário e o bidê, que não tiveram a mesma sorte, jaziam no piso inferior fazendo parte dos escombros.
Creio que essa demolição, também na leva dos anos 80, foi promovida às pressas pelos proprietários, face o possível tombamento desses imóveis.
Éramos em quatro, os outros três eram bancários e independentes. Eu, o único ainda bancado pelos pais. Um escritor, um poeta, um desenhista e eu um pintor. Era sobre isso que falávamos sentados com as pernas balançando no que sobrara do piso superior no contraponto do banheiro.
Eu lembro da cara de cada um, do jeito, dos sonhos. Era isso! Nossos sonhos se intensificaram diante daquela visão. Entretanto, pena que não se tratava de defender um patrimônio cultural, se havia pertencido a um conde ou barão, ninguém se importava, na verdade existia apenas a indignação de perder mais um patrimônio cultural da cidade, mas nenhuma ação por nossa parte.
De início era apenas um lugar perfeito para fumarmos um, dos lugares inusitados escolhidos dentro daquela fase de juventude transviada. Nas outras vezes ganhou outra dimensão, eu queria fazer uma tela surrealista com uma banheira flutuante sob a inspiradora luz. O poeta que descobriu o local retirou do bolso um pedaço de papel e leu um poema em forma de escada.
O escritor que disse que faria um romance e fez, mas não vingou infelizmente, com ele eu compartilhava a paixão por uma das músicas do Fagner, do qual era fã fanático…
Em Canteiros Fagner usou indevidamente parte do poema Marcha de Cecília Meireles do seu livro Viagem, assim ele mesmo declarou. Já rolava um processo por parte das filhas dela sobre o cantor compositor que desconhecíamos, e quem se lembra da letra, antes do final ele meio que recita uma estrofe de Águas de Março do Jobim, apropriação ou citação pouca é bobagem, mas ao final tudo foi acertado, e ele regravou Canteiros em 2000 ao vivo, versão calorosa devido ao coro do público.[2]
E o desenhista que disse não faria nada e não fez, pena, era um ótimo desenhista.
O pensamento ia longe enquanto a gente cantarolava baixinho, mas Fagner não parou por aí, esse trecho final de Canteiros é da música de Belchior de 1971, Na Hora do Almoço [3] que foi apresentada pela primeira vez no IV Festival Universitário da MPB e que deu visibilidade a ele. Somente gravada em 1974 e nesse meio tempo Fagner foi lá e… bão, pode até ser que tenha tido anuência de Belchior, pode sim:
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois senão chega a morte
Ou coisa parecida
Cantando e queimando os dedos tentando acender a pontinha que sobrou… acho que foi a minha última vez.
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida
Nada de barulho, altas risadas como de costume, pois sabíamos da existência de um senhor que figurava de caseiro no fundo do terreno.
Lembro agora de alguns detalhes, das torneiras douradas, das janelas, e principalmente do enorme vitral que ficava na parte posterior do casarão, acima da escada praticamente demolida, numa área mais escura.
Mas não lembro ao certo do tema dele, seria uma mistura de um laranjal, talvez um cafezal do outro lado? Tudo indicava uma generosa porção de céu, nuvens e pássaros. E a parte central?
Que bicho deu para demolirem uma mansão dessas? Era uma questão que estávamos longe de poder responder…
Fiquei bastante tempo tentando achar fotos dessa mansão ou notícias dela, não achei nenhuma referência direta ainda, mas achei algo tangente, muito perto dela, num artigo da Revista CPC [4] (Centro de Preservação Cultural) da USP:
Em junho de 1982, o órgão estadual de patrimônio – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) – abriu 32 processos de estudos para tombamento de edificações da avenida Paulista. Dias depois, meia dúzia de mansões apareceram demolidas da noite para o dia…
…diante de um eventual tombamento. Em julho, o Condephaat decidiu que tombaria apenas três edificações: o Grupo Escolar Rodrigues Alves e as residências de número 37 e 1919, a Casa das Rosas e a da família Franco de Mello. Instado duas vezes a rever sua decisão, o Conselho do Condephaat manteve sua opinião…
E claro que na época não havia nenhuma consciência desses fatos por nossa parte, embora ter vivido de maneira de certa forma pelo avesso do avesso como falava Caetano sobre São Paulo, no verso preciso de sua canção Sampa: [5] Da força da grana que ergue e destrói coisas belas, que se não me engano também foi pixo em alguma das mansões derrubadas na calada da noite.
A outra grande polêmica se estendeu mais ainda até os anos 90, a mansão dos Matarazzos que foi tombada em 1989 para se instalar no imóvel o Museu do Trabalhador. Em meio ao processo judicial em que a família exigia uma indenização milionária, uma bomba no porão, que apesar de não ter havido uma real implosão do imóvel, foi o suficiente para abalar sua estrutura e escapar do processo de tombamento por via jurídica, troca de governo, etc… e em 1994 a família conseguiu reverter o processo de vez e a demolição se deu em 1996, onde agora figura o Shopping Cidade São Paulo.
E por fim de tombamento em tombamento em 2011 tem uma manifestação para reivindicar o tombamento do Cine Belas Artes, na Rua Consolação quase esquina da Paulista, que numa das faixas constava justamente: Da força da grana que ergue… e alguns anos depois foi tombado e revitalizado e segue funcionando como parte do circuito de cinema da cidade, embora teve que se adaptar a uma outra gestão de filmes comerciais para sobrevivência dentro do seu antigo perfil curatorial.
Eu pensava na sorte que o vitral teria, seria removido? Fiquei observando o que podia naquela penumbra, quando um jorro de luz caiu sobre laranjas, verdes, ocres amarelados de um lado, apagou-se e acendeu novamente na terra roxa e seus cafezais de outro. Era o romancista com uma insuspeitada lanterna.
No momento que ele ia iluminar o centro do vitral, ouvimos passos sob os pedriscos vindo lá de trás. Como um flash de memória, posso até dizer que vislumbrei por um segundo o rosto Art Nouveau da mulher na frente de uma árvore, talvez uma laranjeira, não lembro… Mas, a essa altura é temeroso afirmar algo, as cores devem ser as da minha imaginação, pois com os anos essas cores e formas foram se apagando.
Logo depois a derrubada de outras paredes na demolição final, um grafiteiro fez um homem tomando banho nessa banheira com escovão, ficando à vista de quem passava por lá. E parece ter voltado uns dias depois, mais espevitado e mandou ver: Demole a mãe! Eu passava sempre por lá, pois ainda morava lá perto nessa época.
Cada um foi para um canto, não sabia o rumo que haviam tomado. Até que achei dois deles aqui mesmo no Facebook, no meu caso não pintei banheira surrealista nenhuma e quando a memória insiste em se apagar, eu tento subir pelo poema escada e ver se encontro alguma luz.
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Notas e links:
[1] – Outros casarões na avenida Paulista, assim como na cidade, sobreviveram ao surto de demolição diante das leis de tombamento. A Casa das Rosas é símbolo da preservação do patrimônio paulistano e reduto de divulgação cultural, fomento da literatura em geral e formação de escritores com seus diversos cursos gratuitos:↩︎
[2] – Canteiros de Fagner (Orós, Ceará, Brasil, 1949 – ), cantor e compositor, foi lançado em 1973 no disco Manera Fru Fru, Manera e ao vivo em 2000 com letra baseada no poema Marcha, do livro Viagem de 1939 de Cecília Meireles — (Rio de Janeiro, Brasil, 1901 – 1964), poeta, professora, jornalista e tradutora.↩︎
[3] – Na Hora do Almoço, de 1971 do disco Belchior, música e letra do próprio Belchior — (Sobral, Ceará, Brasil, 1946 – 2017), cantor, compositor e poeta. A música foi apresentada no IV Festival Universitário da MPB↩︎
[4]– Tombamentos e demolições na avenida Paulista na década de 1980, artigo de Lucília Santos Siqueira da Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, SP. Para baixar o PDF é só digitar: Tombamentos e demolições na avenida Paulista na década de 1980 e ao clicar no link o PDF baixa automaticamente↩︎
[5]– Sampa do disco Muito (Dentro da Estrela Azulada de 1978, Caetano Veloso — (Santo Amaro da Purificação, Bahia, Brasil, 1942 – ), cantor, compositor, escritor e intérprete.↩︎


