Posso entrar na sua frente?
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SIM Crônica 16 [Publicado anteriormente em 04/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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DEPENDE. DEPENDE DO QUÊ? DA FILA, UÉ! Sim, fila de brinde, de degustação, a da famosa injeção na testa, é fila boa. Quase uma fila de filar, de levar algo na faixa. Agora convenhamos, fila é fila e ninguém gosta de mofar na fila!
Agora fila do supermercado, fila de emprego na porta de algum estabelecimento, daquelas que vemos na reportagem e o repórter do helicóptero falando sobre o que a imagem já nos diz: — Vocês podem ver que a fila virou o quarteirão a perder de vista!
Fila de atendimento de hospital ou de vacinação, nem se fala, e agora, nem vou falar dessas para abstrairmos o momento, pelo menos nessa leitura. Mas outras filas, como as do governo que com o tempo irão entrar para o sistema digital, como entrou o INSS, etc., mas ainda assim, poderemos igualmente ficar virtualmente na fila, aguarde que logo será atendido e como era no telefone, lascam uma musiquinha ou um anúncio igualmente repetitivo…
Porém, com todos os benefícios que a fila digital permite, estarmos com roupa de baixo, dar um pulo na geladeira pra comer algo ou tomar uma. Como assim fila digital? Já entrou em algum site pra reclamar ou pedir informação no chat, pois é, às vezes o seu número é 157, dá até para tomar um banho.
Antes do advento das senhas, painéis de chamada, seja sonora e/ou imagem, não que isso tenha resolvido todos os problemas, afinal tem os números ou siglas para grupos prioritários que muita gente por não fazer parte de nenhum, acha que está sendo prejudicada. E na verdade o problema muitas vezes está, seja num banco ou supermercado do número de atendentes.
Fila de bar, de restaurante, de cinema, de teatro, fila para pegar o carro na saída… Se nessas filas geralmente estamos com amigos, família, consortes, amantes — ops, eu não — etc., nesse circuito de lazer, não podemos esquecer da fila sentimental: não me quis, vim sozinho e, na fila, conheci a, o, as, os… pois é, a fila andou, não é assim?
E para não ficarmos sem música, até quem me vê lendo o jornal, na fila do pão, sabe que eu te encontrei! E ninguém dirá que é tarde demais…[1]
Fila de banheiro de shopping, de rodoviária, de parada de ônibus intermunicipal ou interestadual: — Parada de 20 minutos! E você na fila do banheiro há 14 minutos, ninguém merece. Já que estamos motorizados, que tal uma fila de motel em promo no dia dos namorados ou fila de drive-thru para fazer uma boquinha?
Por falar em ônibus, fila de ônibus só em terminal, pra ir sentado, pois nos pontos pelo caminho é igual ao metrô, aquele emboladinho ou emboladão, que no final se reparte em mini filinhas pelas portas disponíveis.
Tem as filas do sacrifício também. As filas para pegar vagas em creche, ou melhor a senha para poder pleitear uma vaga na creche. Nessas filas se acampa, como outras tantas filas, que muitas vezes os pais se sacrificam pelos filhos, não pela educação, etc., mas para shows. Tem também aquelas filas top, com direito a badalação, para ser o primeiro a ter o último modelo de iphone, tocarem a música para você um verdadeiro ritual de vencedor, tem isso? Se não tem deveria ter, né? Em qualquer fila de sacrifício um pódio pelo menos, 1, 2 e 3 lugares.
Devo esquecer, devo nem querer, enfim devo deixar que você me fale depois de outras filas, mas de uma que mesmo com o aplicativo de celular, uma hora ou outra tem que se enfrentar quando o sistema falha, ainda bem que geralmente são diferentes, embora as vezes caia tudo. Aí nem fila do banco ou do caixa eletrônico adiante, moço, não adiante caiu… o sistema!
Neste último, presenciei logo que saiu a opção da biometria para se tirar dinheiro. No caixa 24 horas de um supermercado, um senhor travou a fila. Coitado, colocava o dedo e nada. Um lá falou: — Quando meu cartão não passa eu esfrego ele na calça. E o senhor passava o dedo na calça e nada. — Um pouco de cuspe! Arriscou uma senhora. Nada! Pediram para ver o dedo e o senhor não negou, continuou tentando, tentou outro dedo. Um engraçadinho atrás de mim falou, ele devia tentar o dedão do pé, pois é respondeu o senhor rindo.
Aí a moça da faxina limpando o vidro que separa o banco dos caixas, estava saindo pela porta girante, a porta travou, o guarda liberou e muito educada pediu licença ao senhor, espirrou um produto no visor, pegou um paninho no bolso e limpou. O senhor colocou o dedo e deu certo, então levantou o dedo num gesto de vitória e todos nós e até uns que acabavam de entrar também aplaudiram.
Uma vez no banco, fila pequena e eu era o último. Só dois caixas, uma velhinha na fila dos idosos que não ouvia direito, pedia informações sobre o recebimento de sua pensão e o caixa no telefone tentando resolver a pendência sabe se lá como. E na outra um office boy com a sua pasta mágica, tipo a bolsa do Gato Félix de onde não parava de sair maços de contas, todas com dinheiro preso em elástico japonês.
Antes do sistema das filas sem fila, por senha, sentado ou em pé, o rapaz na minha frente pediu para guardar o lugar porque precisava pegar um documento que esqueceu no carro. Uma senhora com várias contas na mão, avisou a moça a frente dela que ela precisava urgente ir ao banheiro.
Enfim a moça também saiu e passou a recomendação da senhora ao senhor que estava atrás da senhora dizendo aos demais, eu sou a primeira da fila, hein? Não disse onde ia, mas pela direção que ela tomou, parece ter ido ao banheiro.
O senhor foi tentar falar com o gerente do outro lado da agência. Sobrou eu e um outro office boy que pediu: — Tio, parece que vai demorar, vou no caixa lá fora adiantar uma parte minha, guarda aí meu lugar, pode ser? Dei um sim de ombros.
A velhinha da fila dos idosos finalmente saiu, o caixa me chamou. Olhei para os lados, para trás e nada. Quando estava sendo atendido, como por mágica todos retornaram.
A moça, a primeira da fila foi reclamar o seu lugar, o caixa pediu que ela aguardasse, porque agora já estava me atendendo. Ela encarou, fiz cara de peixe morto. Quando eu saí do caixa, todos me olharam feio. — Fura-fila! O moço falou. A senhora disse: — No meu tempo! O moleque: — Tio, eu não falei que voltava já? O senhor me olhou de cima abaixo com cara de nojo.
Eu furar fila? hummm, acho que nunca furei ou furei? Essa resposta eu vou ficar devendo. Mas dizem os fura-filas, fim da fila é pra pato! E eles entram na fila com aquela pergunta capciosa: — Posso entrar na sua frente? Se você permite, as vezes o de trás, mesmo inconformado fica calado.
Outros dão de distraídos olhando o celular e se enfiam em algum vão da fila. E tem os que pedem informações e ficam conversando até que se encaixam na fila. Outros dão carteirada ou são VIPs. E hoje em dia paga-se uma taxa para furar a fila, ou melhor, entrar sem fila, que seria o equivalente a pagar algum aplicativo para não ver mais anúncios, uma mulher na fila me olhou e disse, ah! isso não existe ou existe. Respondi que se não existe um dia vai existir.
Mas como se isso não bastasse eu descobri que furar fila é uma coisa cultural. Pois em São Paulo tem aquela coisa de guardar lugar na fila. Vai alguém primeiro e fica guardando lugar. E muitas vezes para mais pessoas..
No início deste ano, encontrei com um amigo de Brasília no MASP para vermos algumas exposições e eu cheguei bem pouco depois do combinado. Pelo celular descobri que ele já se encontrava no vão livre e ao avistá-lo, vi que estava numa fila. Naturalmente o cumprimentei, a fila andou e entramos.
Numa das salas de exposição, não lembro exatamente o assunto, mas surgiu a expressão cara de pau, achei que era sobre máscaras de madeira que vimos no Museu Afro no dia anterior ou algo assim. Então ele falou que eu era mesmo cara de pau. Não entendi. Ah!, ele estava se referindo a fila. Achei que era brincadeira. Não era. O que acham, furei fila?
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Notas e links:
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[1]– Música de Los Hermanos, O último romance, de 2003, do álbum Ventura.↩︎


