O sapo cururu e as moscas de pão doce do neozelandês da padaria
(c)aqui
SIM Crônica 15 [Publicado anteriormente em 02/04/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

.
ACORDEI AO SOM DE COPIOSA CHUVA, quando levantei, parou. Mais um dia sem graça. Ao andar pelo Galpão, alguns gatos pingavam pelo telhado, o interessante era ver como caíam, de pé, suaves, como se o chão fosse macio.
Davam voltas no ar, mas não eram como saltos de trampolim. Limpos, gestos estudados, fruto de treino diário numa disciplina exemplar.
Os gatos têm aquela coisa instintiva, selvagem e garanto que nenhum atleta de salto ornamental faria o mesmo: pingar do telhado e cair em pé. Quanto aos gatos, no chão, muros ou telhados, aí sim, eles andam com elegância, alguns diriam, classe.
Eu tive a Léo, uma gata preta pequena; ganhei ela pequetitica. De pelagem brilhante e macia que só ela. Ela dormia no escritório, por isso deixávamos a porta aberta, assim como ficava aberta a porta dos fundos do Galpão Contemporâneo.[1] Certa vez ao entrar no escritório, levei um susto, era uma penaiada só voando por todo lugar, pequenas penas e penugens. Era algo entre mágico e assustador mas…
A minha mulher foi procurar a Léo, pois chamei e ela não apareceu. Não tinha acontecido nada fantástico, não, logo fiquei sabendo que ela achou a Léo ao lado da pequena carcaça quase pelada de uma pomba lá no fundo do quintal.
Eu sempre espero que algo extraordinário aconteça, mas tudo que insiste em acontecer na minha frente tem um porquê, como pingar gatos pelo telhado, mais que normal. Ou quando alguns burros coloridos fugiam pela estrada de terra na terceira saída da antiga rodovia do açúcar.
Estranhei que eles não tinham cor de burro quando fogem, na verdade, nem tão perto estavam. Já ao longe pareciam aqueles três pontos que tinha nos aparelhos de TV a cores, na mesma ordem, vermelho, verde e azul.
Se essas três cores luz juntas produzem a branca, nos bailinhos, e de uma hora para outra… nada de luz branca, o lance era a luz negra, sorrisos arroxeados, vestimentas brancas fantasmagóricas, às vezes uma calça, outras uma camisa, tiara, brincos e até sapatos.
A outra coisa mágica era ouvir I’m Not In Love, da banda britânica 10cc [2] na hora da música em meados dos anos 70, dançar junto sob a chuva de prata da esfera de espelho luz, quem já tava não para e quem não tava quer arrumar um par, essa música contagia, é macia, quase que nos puxa para dançar assim… juntos o bumbo e o baixo fazendo o som dos corações bater mais forte.
Nem conto, a história dos burros foi derrubada por um amigo físico que riu com toda a franqueza de uma gargalhada seguida de quase uma dor de barriga de tanto rir. Com a mão espalmada ele pedia um tempo e logo caía na gargalhada novamente e eu me concentrando na direção e aguardando saber qual seria a piada.
Logo após esse ataque de riso, afirmou tratar-se de um fenômeno natural chamado dispersão da luz, ocorrendo refração, etc. Apenas um problema de física ótica ou nem isso. Talvez eu tivesse olhado diretamente no sol com os óculos meio engordurado, talvez nem burros fossem.
Um cheio de talvezes que não acabava mais e pra mim nada engraçado, pela certeza que eu tinha de ter visto três burros quando fogem…
Tinha contado o fato pra ele no carro, pois dei uma carona até a sua casa logo depois do acontecido. Ah!, nem repliquei, acabei engolindo esse sapo cururu como uma jiboia e ele ainda estava coaxando. Não sei se vocês já ouviram um, parece um pequeno compressor de ar vibrando, como um martelete ininterrupto.
Chegando no Galpão, logo que abri a porta, tocou o telefone. Quando abri a boca para dizer algo, o sapo coaxou, era o meu amigo físico, gritou que não estava escutando nada, pensei que ele ia me pedir desculpas, que nada! Quando o sapo deu uma folga, falei sobre o sapo engolido e ele gargalhou cinicamente num risinho e me recomendou tomar um sal de frutas, nem verdes, nem vermelhas, muito menos das azuis, mas as de cor de burro quando foge.
Nada de novo, só o enfado de abrir a boca e constatar a veracidade do dito popular, boca aberta entra mosca sim. Entrou duas ou três, mas não me preocupei, afinal o sapo cururu alimentado, parou de coaxar. Quando fui a padaria comprar pão, aí sim foi um vexame. Para conter novamente aquele barulho tive que abrir a boca. A língua dele saía e splatch!, pegava uma mosca, alimentado ficava calado.
O neozelandês, dono da padaria, do qual fiquei amigo, pois um dia no caixa eu perguntei: — Se importa que eu conte uma piada de português? Ele respondeu que não, pois não era português. Ué!, perplexo perguntei
— Além do sotaque, porque então a caneta na orelha? Ele respondeu: — Ora pois, marketing, ó pá! E emendou: — E você, só porque tem esse Lai no nome, é dono de pastelaria ou lavanderia?
O falso gajo ao ver como eu dava conta das inúmeras moscas, queria me contratar de qualquer maneira para ficar perto dos pães doces. Declinei agradecendo ao abrir a boca, tirando uma… splatch!, mosca que havia pousado no seu rosto. Errrrca! senti o gosto do suor!
Apesar destes acontecimentos banais, queria uma vida mais agitada, com algo extraordinário, não essas de vacas sem brejo. E por falar em brejo, deu um ataque de soluço que botei o sapo pra fora. E não é que ele queria entrar novamente? Perguntei pra ele: — Vida mansa, mosquinha de pão doce na boquinha, quem não quer? Ah, não!, nunca mais eu vou engolir sapos, disse a ele, que ficou me olhando com aquela cara triste de sapo sem brejo.
Tentei alegrar o bicho, cantei: o sapo não lava o pé,[3] não lava porque não quer, o sapo mora na lagoa não lava o pé porque não quer! Mas que chulé! O problema é que esse sapo não tem lagoa, brejo ou moscas de pão doce e eu não posso deixá-lo dentro do Galpão com esses gatos pingados. Nem todos sabem, mas o sapo cururu tem veneno nas glândulas e pode intoxicar um gato, aí já viu, né?
No marasmo do jantar comi uma buchada de bode expiatório e pra palitar, achei algumas agulhas no palheiro. A noite veio a cavalo dado, sem olhar os dentes de uma lua bolacha água. Como um dia atrás da frente do dia anterior, só tédio! Deitei a cabeça no travesseiro, antes de pegar no sono, tive que pular a cerca atrás dos carneirinhos.
Foi quando eu constatei, que não se pode mesmo confiar em ditados populares, pois sapo de fora chia sim! O sapo cururu sem lagoa, sem pé lavado e com chulé, depois da meia noite, chiou cantando a madrugada inteira e chamou todas as variações das vogais:
— O sapo não lava o pé, não lava porque não quer, o sapo mora na lagoa não lava o pé porque não quer! Mas que chulé!
— Agoraaaa com A! A sapa naa lava a pá, naa lava parqua naa quar, a sapa mara na lagaa naa lava a pá parqua naa quar! Mas qua chalá!
— Eeeta!, vamos com E! E sepe nee leve e pé, nee leve perque nee quer, e sepe mere ne legee nee leve e pé perque nee quer! Mes que chelé!
— Iiiishi!, capricha com I! I sipi ni livi i pí, ni livi pirqui ni quir, i sipi miri ni ligii nii livi i pí pirqui ni quir! Mis qui chilí!
— Boooora com O! O sopo noo lovo o pó, noo lovo porquo noo quor, o sopo moro no logoo novo lovo o pó porquo noo quor! Mos quo choló!
— Uuuulalá, sigamos com U! U supu nuu luvu u pú, nuu luvu purquu nuu quur, u supu muru nu luguu nuvu luvu u pú purquu nuu quur! Mus quu chulú!
Quando ele falou: — De novo! Repetiu a sequência toda. Respirei fundo!
Mas quando ele falou: — Mais uma vez! Eu não aguentei e juntei-me a ele, afinal se no final da quarentena se eu não conseguir me virar vendendo os produtos do Galpão, eu e o sapo cururu, vamos comer mosca de pão doce na padaria do neozelandês!
.
Notas e links:
.
[1] – Galpão Contemporâneo, onde faço (nessa época ainda fazia) as peças de madeira, esculturas, etc.
colocar o link↩︎
[2]– I’m Not In Love, da banda britânica 10cc de 1975↩︎
[3] – O sapo não lava o pé, para quem não conhece é uma cantiga boa para cantar com as crianças pequenas, nessa versão tem a brincadeira das vogais como no texto↩︎


