O Feng Shui inverso do meu Mister Hyde
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SIM Crônica 12 [Publicado anteriormente em 27/03/20] na página de mesmo nome deste blog
imagem principal: PLW [bricolagens digitais]
imagem destacada: Athena&PLW [bricolagens digitais]

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E LÁ VOU EU NOVAMENTE. SÃO DOIS ANOS LEVANDO coisas para o apartamento e agora, em um dia, tento resolver de vez o assunto. Faça sol ou faça chuva, o dia já está marcado com a transportadora, ou melhor, estava.
Mudança é como final de ano: inevitável a reflexão sobre o que continua conosco e o que fica para trás, o que faremos no outro local ou deixaremos de fazer.
Fica geladeira velha, vai fogão novo. Fica o sofá de três lugares, vai a máquina de lavar. Os livros irão todos, pois já fiz a besteira de aliviar a carga e depois me arrepender.
Coisas materiais, entre apego, costume e compulsão para acumular tranqueiras, que poderão um dia ser úteis, vão preenchendo todos os espaços possíveis das caixas. Outras metem-se em sacolas ou irão soltas em qualquer parte do meu carro.
Mas em paralelo acontece uma mudança interna. Se dizem que a organização externa de nossas coisas é reflexo de nosso mundo interior, igualmente quando mudamos os móveis, eletrodomésticos, objetos de decoração, roupas e badulaques pessoais, cada coisa tenta contar sua história pra não ser deixada para trás.
Mesmo as que ficam anos no fundo de uma gaveta ou encerradas numa caixa e até os porquês de continuarmos habitando o mesmo espaço, calados no momento do preparo da mudança ou quando desembalamos as coisas podemos sentir uma renovação do apelo silencioso que essas coisas nos trazem.
Sentimentos tão diversos se atropelam num instinto de preservação, mas como veremos adiante, essa lógica parece seguir o caminho inverso.
As coisas que nos ligam às lembranças de pessoas queridas, algumas têm uma história anterior, algo do bisavô que ninguém quis ou que eram cobiçadas… ou ainda as que nos foram passadas como um símbolo de vínculo familiar, enquanto outras são emprestadas e não devolvidas ou esquecidas em nossa casa pelos seus donos.
Seja qual for a natureza delas, enfim coisas são apenas coisas, que ninguém leva para outra vida, mas o simples contato visual nos leva para o nosso interior, resgatando os mais caros afetos.
Por outro lado, habitamos um corpo cheio de personagens, me diz o meu Doutor Jekyll e meu Mister Hyde.[1] E na sala de estar da minha consciência começam a chegar todas as pessoas ligadas as coisas que devem ser devidamente embaladas, doadas ou simplesmente jogadas no lixo.
Certamente essas coisas remetem a lembrança de situações e pessoas, mas nunca as podem substituí-las. Reparei também que muitas coisas que joguei fora ou perdi em outras mudanças ainda estão comigo em imagens nítidas e algumas o sentimento de que não deveria ter me desfeito delas. Ainda bem que muitas coisas são neutras, não estão ligadas a ninguém, pois são descartáveis ou substituíveis.
Quando um relacionamento acaba, dependendo de como foi, acontece ao contrário e aí surgem as fotos pela metade, às vezes apenas rasgadas, outras cirurgicamente a tesoura ou no estilete e régua e as coisas do desafeto são jogadas no lixo… e se não há outras coisas materiais na jogada a não ser lembranças — e como diz Sandra Sá, — às vezes tem a segunda chance e se não acertar, Joga Fora…[2] no Lixo!
Enquanto o gentil Doutor Jekyll tenta acomodar essa multidão que já se espalha pela casa, Mister Hyde as amedronta com grosserias e ameaças. Ninguém que tenha autoestima quer sair assim da lembrança de alguém e se precisar, por mais educada que seja, não se acanha de sair no braço com meu Mister Hyde, para ganhar seu espaço na próxima caixa.
O grande problema é a impaciência de Hyde, se fosse por ele, jogava tudo no lixo, depois de quebrar tudo, é claro. Desconfio que o sacana é adepto às avessas do Feng Shui, ele quebra as coisas para depois aplicar essa milenar filosofia chinesa: não é bom mantermos coisas quebradas em casa!
Ao contrário do Doutor Jekyll, um verdadeiro anfitrião que serve apenas as melhores lembranças para que os convidados se sintam à vontade, ponderando e acalmando os queixosos, afinal se embalou cicrana, porque não levaria ao novo lar o fulano também?
Afinal resolvo a pendenga, o lugar para o qual estou mudando dessa vez é maior, não que seja exatamente melhor, então decido levar todo mundo. Felicidade geral momentânea, porque até Mister Hyde entrou na festa, mas além de comemorar, botou pra quebrar algumas coisas.
Nada como uma grande mudança para acabar de vez com a rotina e estabelecer novos paradigmas. Se de uma hora para outra, ficou adiada uma miríade de decisões sentimentais ou as já racionalizadas, não tenho nenhuma ilusão de que certas decisões, principalmente as internas, se num momento ou outro não pararmos para tomá-las, a vida se encarregará disso, ou ela ou nosso Mister Hyde.
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Notas e links:
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[1] – Robert Louis Stevenson (Edimburgo, Escócia, 1850 – Vailima, Samoa, 1894), é o escritor que criou personagens ímpar na obra O estranho caso de Doutor Jekyll e Mister Hyde de , de 1886, vem recebendo inúmeras adaptações, não só no cinema, com os famosos O médico e o Monstro, mas no teatro, músicas, rádio, etc.↩︎
Trailer do filme Dr. Jekyll and Mr. Hyde de 1931 de Rouben Mamoulian (Tbilisi, então Império Russo — atual Geórgia, 1897 – Woodland Hills, Califórnia, EUA, 1987) diretor de cinema e teatro
[2] – Joga Fora do disco Sandra de Sá de 1986 de Sandra de Sá (Rio de Janeiro, RJ, 1955 –) cantora e compositora↩︎


