Borboletas celofânicas
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SIM Crônica 5 [Publicado anteriormente em 13/03/20] na página de mesmo nome deste blog
magens destacada e principal: Athena&PLW [bricolagens digitais]

ATENTO, SAÍ ANALISANDO TUDO O QUE se movia, comecei observando meu próprio andar pra ver se me servia de tema, mas me achei cambaleante na calçada tão irregular.
Na ciclovia passou uma bicicleta na contramão, uia!, que descuidado, tirou fininha na velhinha de andador. Entrei no carro e dei a partida,
aí virou um caos, tudo que estava parado se mexia. Freneticamente eu tentava não perder nenhuma situação interessante. Mas essa ilusão de movimento logo terminou, dentro de um engarrafamento de buzinas, em tapas no retrovisor e nos impropérios gesticulares dos motoqueiros, um gesto particular envolvendo o braço todo, levando bruscamente para o alto − Vai você pra tal lugar! Eu respondia.
Ao abrir espaço para um séquito de ambulâncias, pensei melhor. Resolvi parar de procurar assim, tão afoito, então relaxei acompanhando dois celofanes pink meio translúcidos, meio transparentes, que reconheci de imediato o que eram. Imagino eu que foram jogados agorinha — provavelmente pela janela de um prédio junto ao elevado — e que subiam suavemente, girando em torno de si mesmo em elegantes rodopios. Desciam e subiam ao sabor da indecisão do vento… − Vai você praquele outro lugar!
E a música que vem na cabeça é Danúbio Azul [1] de Johann Strauss II, música de todos os bailes que denotavam alguma formalidade, formatura, bodas, 15 anos e era aquele rodar, rodar, esbarrar, sorrir e até cair.
E lembrei também de uma coisa interessante, no filme 2001 de Kubrick tem dois Strauss, o já citado Johann e o Richard com Assim falou Zarathustra…[2]
Mas o transe musical não durou muito… Bi-BI!, Bi-BI!-BI! ou o de dedo preso: BIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!,nada irrita mais que motoqueiro que vem lá detrás com o seu Bi-BI!, e que ao achar que não tem espaço suficiente, te xinga, bate no retrovisor e se manda, ainda mais no elevado que por ser estreito, a briga com essas protuberâncias laterais espelhadas aumenta.
Eles com certeza são fãs do BI-BI!, Ops!, do BIP!, BIP!, o Papa-Léguas [3] daquele desenho animado dele e do Coiote no deserto americano, transferidas às corridas das entregas via motoboys principalmente nas ruas e avenidas das grandes cidades no Brasil, os desertos de asfalto desses BI-BI! ou BIP! BIP!
Falo sozinho. — Cadê as borboletas celofânicas? Sumiram de vista. Trânsito parado, pareço até meio descompensado para o motorista do carro ao lado, pois segurando no volante, balanço pra lá e pra cá, baixando, levantando e rodando a cabeça, procurando no ar as esvoaçantes embalagens dos sonhos de valsa.
Desisto. Numa rajada de vento, as ditas cujas reaparecem se entrecruzando no ar, dão um mortal totalmente sincronizado e… PLAFT! PLAFT! Se estampam no meu vidro da frente. Avisam-me as buzinas e mais buzinas que eu devo andar, saio bem devagar para que as embalagens mantenham suas posições e o buzinaço se intensifica.
Bendita lei dos 50 por hora! As embalagens resistem firmes em seus lugares, embora talvez tenham se deslocado um pouco para direita. Ou foi para a esquerda? O que elas querem me dizer? A minha idade? Suscitar recordações da minha infância? Ou de uma namorada que eu dividi um sonh… ah!, tive uma ideia!
Com o trânsito parado novamente, decidi resgatá-las do vidro logo que passasse a saraivada de motos. Talvez até aprenda e faça dois belos origamis de passarinho com essas embalagens.
Eu já estava em posição para abrir a porta, quase abri, mas para minha surpresa o último motoqueiro da fila parou, levantou a viseira e esticou o braço. Pensei, o filho da mãe vai dar um tapa no meu retrovisor.
Ah!, quando eu ia reclamar, rapidamente ele pegou as embalagens, sorriu gentilmente como se estivesse fazendo um grande favor, tipo chácomigo, amassou as embalagens, jogando pra fora do elevado e se mandou! Buzinas, buzinas, buzinas, ah sei lá, não dei sorte em procurar um tema para escrever uma crônica… Mas claro! Farei uma sobre Bi-BI!-BI!, ou melhor, BU!-BU!-BU!, buzinas!
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Notas e links:
[1]– Johann Strauss II (Viena, Império Austríaco, 1825 – Viena, Áustria, 1899), compositor – An der schönen blauen Donau (O Danúbio Azul, 1867), música da cena das naves dançando no espaço, quando o osso vira uma nave no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (Nova York, EUA, 1928 – Childwickbury, Inglaterra, 1999), cineasta, diretor, roteirista e produtor↩︎
[2]– Richard Strauss (Munique, Alemanha, 1864 – Garmisch-Partenkirchen, Alemanha, 1949), compositor e maestro – Also sprach Zarathustra (1896), música que entra junto à cena do famoso nascer do Sol da aurora do homem no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick↩︎
[3] – Pra não ficar na dúvida de quem é o Coiote e o Bip!Bip!↩︎


