Colagem digital para uma crônica com televisores analógicos e ruído de TV, evocando transmissão instável e memória visual
Agora Agora

A vontade de escrever caiu feito um viaduto!

A música sempre paira. No caso de O Bêbado e a Equilibrista, ela pairou sobre a dura realidade daqueles momentos em todos os seus aspectos — homenagem a Chaplin, homenagem ao cinema, um símbolo poético da esperança diante da contundência simbólica do cair de um viaduto

Imagem base: Creative Commons Attribution-ShareAlike (CC BY-SA) – montagem: Athena&PLW [colagens digitais]

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Colagem digital para uma crônica com televisores analógicos e ruído de TV, evocando transmissão instável e memória visual

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NA INCONSCIÊNCIA USEI A IMAGEM de algo que caía feito um viaduto, lembrei desse meu verso não publicado que fui recuperar … Ah!, e nem era uma poesia e nem crônica tava… tá num texto maior:

][ Tenho um mote] [ algo Q me interessou ou passou pela cabeça ent~o os finais{ os finalmentes pra mim o fim ӗ o fim mesmo][ Algo Q surge na costura do texto o final às vezes ӗ dramȺtico{ daQles Q vai morrendo sem morrer{ dramalh~o de fato{ n~o acaba nunca às vezes cerra a cortina{ vira a capa{ fecha a porta na cara{ acende a luz{ toca a sirene{ DESperta alguma dor de dente crônica

às vezes cai como uma luva outras feito um viaduto{ pode ser o final uma enxurrada de baboseiras ou deixa a garganta seca e os olhos ὐmidos puxando de dentro dos olhos uma ou duas lȺgrimas{ talvez um suspiro… (jájá e DEscaradamente esse livro sai… com final ou sem)

(descoberta/recordada a origem, o primeiro verso de uma música, então fica aqui como uma homenagem a essa música tão importante para anistia, afinal, cair feito um viaduto é uma imagem pra lá de  impactante, Ah!, a letra como um todo, você não acha?)

Aí resolvi sair desse meu exílio autoimposto pela ditadura desse tempo ligeiro e escasso, que segundo Byung-Chul Han, exploramos a nós mesmos nessa sociedade do cansaço, onde todo dia parece já ser ontem e às vezes, o amanhã que penduramos na conta se apresenta antes do final do dia.

Tirando o fato de realmente ter caído um viaduto no Rio de Janeiro quando eu ainda morava lá, em 1971, com nove anos de idade — e sei lá por que guardei esse nome ligado ao viaduto, que por coincidência, era meu xará — o elevado sofreu rupturas num total aproximado de 120 metros, desabando primeiro sobre o cruzamento da Rua Haddock Lobo com a Avenida Paulo de Frontin, na passagem de uma betoneira lotada de concreto, matando 29 pessoas e ferindo outras 18. Naquele momento o viaduto ainda estava em construção.

É bom salientar que muita gente, assim como eu, confundia o nome da avenida com o do viaduto, que na verdade era o Viaduto Engenheiro Freyssinet. Ainda assim o nome que ficou ligado à tragédia foi o da avenida — e pra bagunçar de vez o coreto, existe também o viaduto Paulo de Frontin, um viaduto ferroviário…

E aí deu aquela vontade de escrever danada, imperiosa, da urgência de assuntos… daqueles que não pedem licença, de um peso equivalente a cair um viaduto que retornaram a mente no embalo das canções que marcaram aquela época e voltar aos textos por aqui e reativar a Nem Toda Situação é Crônica numa nova versão…

Geralmente nessa situação de parar com uma atividade online que supostamente tem gente acompanhando e do nada, nada mais acontece, imaginamos que ao voltarmos devemos pedir desculpas pela falta de continuidade.

Nada mais equivocado, não há nenhum sinal depositado em lugar algum desse sítio que é uma página numa rede social. Se não há movimento ela tende a sumir e o sumiço da página nos arrasta junto a ela.

Então não pedirei desculpas por algo tão comum, mas que dá vontade dá! Aí algo assim paira… Oi pessoal depois de um esticado lapso de tempo — embora lapsos são de curtíssima duração e sem volta — quase um tropeço, você cai ou se fica de pé, se entrega, o lapso é quase um, Ops!

E, Ops!, essa volta que dói, mas que a ausência que nem é sentida, apenas por quem dela é responsável. DEScaberia aqui a famosa frase do Exupéry do seu livro o Pequeno Príncipe, tu te tornas eternamente responsável por quem cativas. Apenas uma meia verdade, ou uma verdade de um pé de meia, pois não cabe a todas as situações de afeto e de fato, afinal acabamos abandonando nossos projetos por tantos e diversos motivos.

Porém uma outra ótica se impõe ao meu tipo de texto, que se aproxima da relação criador e criatura de Frankenstein — por sua característica de bricolagem e por uma aspiração quase jazzística do escrever: explorar a variação de um mesmo tema como base.

Aí entraria a frankensteria: quase um funk — ou melhor, uma forma híbrida de funk, tango, rumba com rock.

Em tempo: o Dr. Frankenstein também abandona a sua criatura… que não tinha o seu nome, mas aí é uma outra história.

Por outro lado, eu já lamentei entrar numa página que eu acompanhava e estava gostando do conteúdo e ao ver o abandono, naturalmente suspirei — como se o abandonado fosse eu. Mas quantas iniciativas se findam sem deixar rastro, e de motivos desde os banais aos derradeiros que nunca saberemos e como nos diz Adoniram Barbosa, nem ponhô um recado na porta.

Eu nunca ponhei um recado na porta sempre na eminência parda da volta, afinal nunca parei efetivamente de escrever esses textos, que se crônicas ou não… — só não estava postando.

Gosto disso, de escrever assim… parece que é um ato natural da minha escrita, como uma nascente de rio escondida, mas também nunca saberei se houve algum suspiro pela Nem Toda Situação é Crônica.
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Agora agora volto com uma página própria NTSCrônica. Ou só NTSC!

Diferente da volta dos exilados… sem pensar numa incomparável sem comparação — que foram brindados por uma música de João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina — O Bêbado e a Equilibrista foi, na verdade, composta no final de 1977 para o Charles Chaplin, que havia falecido naquele ano.

A música começa com um som de cantiga que lembra o andar de Carlitos, quase um realejo e depois embala num ritmo de samba.

Essa homenagem acabou se estendendo aos exilados — indiretamente, claro, pois ainda havia censura, as tardes ainda caíam como viadutos onde choravam Marias e Clarisses se referindo tanto à filha quanto à mulher de Manuel Fiel Filho e Vladimir Herzog respectivamente, entre outras alusões à situação ditatorial:

E nuvens
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco louco!

Além de citar o irmão do Henfil, Betinho — que estava exilado desde 1971 — a letra nos traz realidade de forma poética, até em Marias e Clarisses (ou Clarices), que já mencionadas acima em seu real motivo. Por tabela, Maria é um nome-símbolo como em Maria Maria de Milton Nascimento, imagem da força e garra da mulher brasileira e aqui temos que somar o coincidente fato de Clarice Lispector ter falecido em 9 de dezembro também desse ano, 77.

E por causa dessa história toda cheia de confluências e coincidências — e deste texto ter caído em mim do jeito que caiu, pela lembrança dessa expressão, a tarde caía feito um… a proximidade do Natal, a morte de Chaplin dia 25 de dezembro, as homenagens se sobrepõem.

Por fim essa música se transformaria num símbolo de resistência e num hino da campanha pela anistia política iniciada em 1975 e intensificada em 1977.

E voltando aos exilados políticos, em função da anistia ampla e irrestrita em 1979, uma outra música iria se juntar ao Bêbado e a Equilibrista nesse pairar sobre: Tô Voltando… mas essa outra história começou antes e bem diferente do significado que ia ganhar em 79.

Na segunda metade dos anos 70, num show do Projeto Pixinguinha intitulado Vida Boêmia com João Nogueira, Sérgio Cabral e Maurício Tapajós. A cenografia consistia num bar que rolava bebida a vera e emendando uma saideira desse projeto engataram num outro, um Projeto da Funarte que esticaria ainda mais a bebedeira musical engendrada, que quase se deu na internação etílica dos participantes, porém quando findou essa jornada musical regada não só de birita e músicas, mas de muitas e variadas histórias contada pelo garçom Sérgio Cabral.

E quando findou a jornada Tapajós pensou: nem acredito que tô voltando! E o mote ficou rondando seus pensamentos… Mais que isso, ele compôs a melodia e tocou no violão por telefone, cantarolando tô voltandotô voltando… para o seu parceiro musical, o compositor Paulo César Pinheiro que desenvolveria a letra da música que faria parte do novo disco da cantora Simone. A música gravada ganhou o rádio e em 1979, virou coro nos aviões com exilados, Tô Voltando

E eu volto como aquele paradoxo bem-humorado, quase uma frase piada que já nomeou livro, filme, etc. A Volta dos Que Não Foram! E eu que nem fui, játô voltando! E que os tempos dessas músicas nunca voltem! Elas entretanto, vieram pra ficar — que voltem e nos toquem sempre!

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*A legenda da imagem se abre no canto superior esquerdo, clique no ▸
Paulo Lai Werneck

Escreve como quem testa a resistência das palavras no entrelugar do uso, do desgaste e da reciclagem verbal Entre a crônica e o quase-poema, investiga o que escapa ao óbvio, remexendo o fundo das obviedades do texto No NTSC — Nem Toda Situação é Crônica — busca transformar desvio em método e memória em matéria

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