Dizem que as mães são perfeitas
(c)aqui
SIM Crônica 1 [Publicado anteriormente em 05/03/20] na página de mesmo nome deste blog no Facebook. aqui revista e/ou ampliada. (neste caso escrito em 2016)
Minha mãe era bibliotecária da USP Odonto e ganhou esse livro pelo primeiro lugar da turma de biblioteconomia da USP — orgulho para a minha vó chinesa, que não conseguiu terminar o primário quando morava na roça, em Araraquara
Quando faleceu em 2016 seu nome passou a constar de uma sala da Biblioteca de Odontologia no campus da USP em memória dos serviços prestados. E sua afeição pelas orquídeas, de certa maneira, junto a sua presença inesquecível é o coração deste texto

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A minha eterna mãe, Ceres, a Gato [1] de meu pai, eterno igualmente
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DIZEM QUE ELAS NUNCA ERRAM. Isso não é verdade, elas erram e muito, mesmo sendo a nosso favor, mas se as mães podem estragar um filho, certamente elas podem consertá-los.
Foi o meu caso. Eu era um menino igual aquele ditado: cabeça vazia, oficina do diabo. Não era endiabrado por certo, mas esse vazio era mormente preenchido daquilo que os mais antigos diziam: com caraminholas na cabeça, as famosas ideias de girico (sim, com g — logo saberão o porquê) abusando dos ditados, pau que nasce torto. Ainda sou torto, mas agora creio ter entortado para o lado certo, por conta de minha mãe, claro.
Lembro de quando tinha uns 7 anos, e perguntaram para plateia num auditório, festa da escola, quem descobriu o Brasil, eu gritei primeiro, Pedro Álvares… Ela ao meu lado falou, grita mais alto! Mas não saiu, vi que ela ficou chateada, afinal eu não ganhei a prenda referente a pergunta. Desde esse momento eu percebi que gritava para dentro.
Era muito tímido, porém já desconfiava de algo, ninguém descobriu o Brasil, ele já existia, não com esse nome, mas era há muito tempo a terra dos indígenas. (alguma professora do primário já havia dito)
Se minha mãe refreou inconscientemente uma carreira brilhante de um notável orador, ela acertou. Evitou que eu saísse por aí falando mil e uma besteiras, mas não me impediu de escrevê-las. Agora é a hora que você leitor, deve suspirar, pelo bem ou pelo mal, se eu devo parar por aqui ou continuar. (mas é apenas uma pergunta retórica)
Que mãe é essa? Essa era minha mãe, igual a todas as mães ou a muitas mães quaisquer, porém única, a minha mãe, diferente até da mãe das minhas irmãs. E se você acredita que uma mãe ama igualmente seus filhos está redondamente enganado. Daí advém as sutilezas do amor de mãe de que temos ciúmes, mas não se assuste, não é uma questão de qualidade ou quantidade, ela ama por inteiro, apenas porque os objetos desse amor, no caso os filhos, sendo cada um diferente, ela se vê obrigada a amar de diferentes maneiras.
Nós os filhos, até determinado momento achávamos que meu pai, inclusive ele mesmo, por vezes se esquecia disso, de que não era o centro de tudo na casa, era ela. Minha mãe era como uma orquídea, silenciosa, e ninguém podia imaginar o que uma frágil orquídea, tecia ao lado daquela haste reta e firme fincada ao lado, para supostamente dar-lhe sustentação. No caso, a haste era meu pai.
As orquídeas, por mais contraditório que pareça, são elas que na verdade sustentam as hastes, dando-lhes sentido. Meu pai me contou que demorou para entender isso, mas depois que compreendeu a situação, a chamava de chefa. E ele estava ali ao lado, não para acusar sua fragilidade, mas estabelecer uma harmoniosa simbiose que durou, apesar de normais trancos e barrancos pra lá das bodas de ouro.
E não é nenhuma surpresa de qual seja a tessitura que as frágeis orquídeas tecem. São suas flores, somente flores, mas quando elas florescem, trazem-nos um sentimento de beleza inimaginável. Mas não preciso aqui exaltar suas qualidades e nem afirmar uma perfeição que não existia e não existe, para declarar de vez o meu amor por ela.
De todos os arrependimentos que tenho no meu comportamento em relação a ela, arrependo-me mais de não haver escrito em seu caderno que mantinha desde mocinha, embora tivesse preparado um poema que não ficou pronto, um que eu a comparava… com uma orquídea. Queria que fosse o melhor texto que eu poderia fazer, pois eu buscava uma ideia de perfeição no poema que também não existia.
Tarde demais. Mas por certo, ela sabia que se eu não escrevi nada naquelas folhas, sabia que, devido ao seu apoio e incentivo, pleiteei ser escritor, obviamente também sigo os passos de meu pai que também escrevia, mas sob os eflúvios de minha mãe. Escrevo agora tardiamente as mesmas palavras que já estavam grafadas há muito tempo em meu coração, e quando ele batia, sei que ela escutava, por isso insistia sempre que se lembrava, escreva no meu caderno e eu… como um tatu bolinha tímido em suas mãos, não escrevia nunca, só me resta agora escrever ao mundo.
As mães não são perfeitas, pouco importa.
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Notas e links:
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[1] Numa das brincadeiras que eles tinham, meu pai era o ajudante do Zorro, o índio Tonto e ela a ajudante do Bruce Lee, o Kato, que virou Gato, para quem não sabe, minha mãe era filha de chineses. Ceres minha mãe (1935-2016), e meu pai, Ernesto (1932-2018)↩︎



Um comentário
Claudio Cunha
Nota 10, Paulo! Ao ler, fiz uma viagem à infância. Parabéns e obrigado por me oportunizar este momento.